“A difícil vida de quem anda a pé em São Paulo…”

Publicado originalmente em: Pé de Igualdade, um blog do portal Mobilize
Autor: Meli Malatesta
Data: 25/08/2015

Sou totalmente a favor das mudanças pelas quais a cidade de São Paulo vem passando nestes últimos meses.

 

A começar pela priorização dada ao transporte coletivo através das polêmicas faixas exclusivas de ônibus. Elas podem até não estar nos padrões considerados ideais pelos entendidos no assunto. Mas, como usuária, garanto que a vida de quem precisa do transporte público coletivo melhorou, e muito. Enquanto se espera pela expansão dos sistemas de transporte de alta capacidade como trem, metrô, monotrilho, que estão em andamento, vamos de busão pela faixa exclusiva.

 

A segunda mudança dá uma bela mexida dos hábitos de mobilidade com a instalação, a toque de caixa, de uma considerável rede cicloviária composta por ciclovias ciclofaixas que ocupam espaço na via onde anteriormente automóveis circulavam quando o trânsito deixava, ou então permaneciam estacionados. Tudo isso para proporcionar mais uma opção de mobilidade, única ou integrada às redes de transporte coletivo.

 

Aí vale a pena dar um alô: Metrô, cadê os bicicletários? CPTM, EMTU, SPTrans, vamos fazer mais bicicletários nos terminais e estações, além de ampliar os existentes, pois muitos já lotam nas primeiras horas da manhã?

 

Agora, o que continua esquecidinho num canto qualquer, ou avaliam não haver o que mudar, são os espaços da cidade por onde as pessoas caminham. A começar pelas calçadas: abandonadas, elas são construídas e mantidas, por lei (Lei Municipal 10.508/88 e 15.442/12), do jeito que seus responsáveis legais, os proprietários dos imóveis lindeiros, bem entendem.

 

Pior, entendem que a área das calçadas lhes pertence e dela podem se utilizar como bem quiserem, até mesmo para solucionar e acomodar problemas de acesso a seus lotes que deveriam, por lei, ficar no interior dos mesmos. O pior é que esta lei os leva a deduzirem que o espaço da via na frente de suas propriedades lhes pertence, e que nele devem passar ou permanecerem somente pessoas eles autorizadas!

 

 

 

Aí dá no que dá: calçada com degraus e interrupções que solucionam e acomodam o acesso veicular e mesmo a pé aos lotes, mas dificultam e até inviabilizam a caminhada; colocação de jardineiras, cancelas, abrigos, bancos e uma infinidade de outros “cacarecos” no espaço reservado à caminhada. Isso para não falar do tipo de piso, escolhido mais para “ornar” com a casa do que oferecer conforto e segurança ao pedestre, quando não se usa, como diz a Letícia Sabino do Sampapé, sobras do piso do banheiro ou da cozinha, que além de serem pouco resistentes, são escorregadios…E o que não dizer das bancas de jornais e outros tipos de mobiliário urbano que parecem sempre estar onde mais atrapalham os fluxos a pé?

 

3

 

Foto 4 – Banca de jornal na Av. Domingos de Moraes perto da Estação Sta. Cruz ocupa boa parte da calçada, insuficiente para acomodar os fluxos a pé. Foto da autora - 2014

E para atravessar as nossas ruas e avenidas então?! Tem muito cruzamento sem sinalização e, quando ela existe, exige paciência infinita para conseguir esperar o momento destinado à travessia nos locais onde há semáforo – e olhe que não é a maioria; e agilidade atlética suficiente para conseguir chegar ao outro lado da rua no curtíssimo espaço de tempo dedicado à travessia, quando o bonequinho fica verde, afinal a sinalização fala que é para atravessar só no verde…

5

6

Então, o jeito é a gente se virar como pode e quando necessário correr o risco de caminhar na pista dos veículos, que sempre é regular e espaçosa. Agora tem esta novidade de ciclovias e ciclofaixas novinhas , bem pavimentadas e caprichadas boas para caminhar também… E depois dizem que “pedestre não tem jeito, todos são indisciplinados e mal educados”.

7

E aí, Prefeitura de São Paulo, que tal dar mais uma “turbinada” nesta sensacional revolução na mobilidade paulistana e começar a qualificar calçadas, travessias e demais componentes da infraestrutura da mobilidade a pé, tratando-as realmente como rede de mobilidade? Já pensou quantas viagens de até 2 km, que dá uns 20 minutos de caminhada, poderão ser realizadas a pé? Os sistemas de transporte agradecem, mas pode ser que os donos de academias de ginástica não…

“Andar a pé nas cidades brasileiras: o mesmo Pé de Igualdade das demais formas de mobilidade?”

Publicado originalmente em: Pé de Igualdade, um blog do portal Mobilize
Autor: Meli Malatesta
Data: 08/08/2015

Muitas das cidades brasileiras passaram, em pouco tempo, de pequenos vilarejos a centros metropolitanos; assim, encontram-se regidas pelo domínio do movimento e da pressa. Este estilo de vida elege como prioritárias todas as modalidades de transporte motorizadas, em especial a individual. Para atender a esta demanda, as cidades remodelam seus formatos e escalas espaciais, elegem o automóvel como seu principal urbanista e relegam a um plano secundário, ou ao completo esquecimento, as necessidades essenciais do ser humano, a convivência entre habitantes e a sua prática pelos modos de mobilidade não motorizada.

Em contrapartida, a mobilidade motorizada, como uma grande e insaciável devoradora de espaços urbanos, é responsável por produzir cidades com intrincadas soluções de predomínio de viadutos e largas avenidas. Estas fragmentam e engolem praças e espaços de convívio e definitivamente comprometem a qualidade de vida urbana pela perda do referencial de escala humana.

Em meio a isto tudo a maioria da população  continua exercer suas formas  primordiais de deslocamento em ambientes altamente desfavoráveis, que lhe ignoram presença e necessidades. São pessoas que continuam gerando ambientes propícios à prática diária do velho instinto de sobrevivência, na contramão das atuais tendências  de conforto e conveniência cada vez mais presentes e valorizadas nas grandes metrópoles do planeta como padrões de vida urbana com qualidade. Vale lembrar que atualmente vivem nas cidades em torno de 80% da população mundial.

A partir dos anos setenta, muitas cidades no Brasil passam a adotar tecnologias de engenharia de tráfego, que contribuem definitivamente para consolidar a situação de priorização dada ao fluxo motorizado e o despreparo da infraestrutura urbana de circulação para receber e amparar, com segurança e conforto, viagens que não envolvem o uso de motor.

Este cenário acaba por expor a situação desfavorável de expressiva parcela da população que elege, certamente por faltar melhor alternativa, seus pés e pernas como principal forma de se transportar. Não contam com um ambiente minimamente adequado para que seus deslocamentos sejam apoiados por condições básicas de dignidade e cidadania. Diariamente submetem-se a perversos esquemas de circulação, conveniados pelas divisões de permissão de uso do tempo e do espaço das vias da cidade, que destinam aos que circulam desmotorizados, as sobras de um banquete consumidas em travessias corridas, em meio a sensações de estresse e medo.

É aceito como situação normal a indignante e crítica desproporcionalidade de ocupação dos espaços públicos das vias entre os fluxos motorizados e não motorizados. Quase nunca se questiona este desfavorecimento injusto e desequilibrado que torna o atropelamento a maior causa de fatalidade entre estatísticas de acidentes de trânsito das cidades brasileiras.

Entretanto o atual e irreversível processo de redução do grau de mobilidade verificado na maioria dessas cidades, consequência da má qualidade dos atuais sistemas de transportes públicos, aliado à intensa dependência dos modos individuais motorizados, acaba por gerar consumo excessivo e irracional dos espaços públicos urbanos dedicados à circulação. A decorrência são os cada vez mais presentes congestionamentos de trânsito, principais responsáveis pelo comprometimento da qualidade de vida de toda a população pelo tempo perdido nos deslocamentos cotidianos, emissão de poluentes no ar além de outras deseconomias.

Como reação natural a esta situação, verifica-se uma espontânea reversão dos hábitos de mobilidade da população de muitas cidades, com a intensificação de viagens não motorizadas a pé e por bicicleta. Esse fenômeno aponta à urgente necessidade de se rever paradigmas, de forma a se buscar o reequilíbrio da divisão dos espaços e tempo urbanos, resgatando assim os preciosos espaços perdidos para o trânsito motorizado e promovendo uma real melhoria na vida das pessoas.

Assim, no blog PÉ DE IGUALDADE, a Mobilidade Não Motorizada pede igualdade de condições às demais modalidades. Sua situação, problemas, necessidades e seu ambiente urbano serão denunciados, refletidos, analisados, discutidos e avaliados, de forma a estruturar um legado sobre o seu papel e sua importância para o futuro das cidades brasileiras.