“Guia Global de Desenho de Ruas”, da NACTO

A Cidadeapé endossa o Guia Global de Desenho de Ruas como uma ferramenta eficiente e completa para desenhar ruas e espaços públicos seguros e sustentáveis

Lançado originalmente em 2016, o Guia Global de Desenho de Ruas representa uma nova visão para o desenho de ruas que vai ao encontro dos objetivos dos nossos líderes e dos desejos das nossas comunidades. Agora, a publicação da NACTO-GDCI (em inglês, National Association of City Transportation Officials – Global Designing Cities Initiative) ganha sua versão em português.

Como defensores de uma mobilidade urbana sustentável e resiliente, encontramo-nos hoje em meio a um momento sem precedentes, em que a percepção das pessoas sobre as ruas está em constante e rápida transformação. As pressões da saúde pública e das mudanças climáticas, assim como a tecnologia móvel estão, conjuntamente, reformulando e redefinindo nossa visão de transporte urbano e mobilidade. Ao mesmo tempo, abrem-se oportunidades para inovações que eram inconcebíveis há apenas uma década.

Enquanto nos esforçamos para reagir e nos adaptar a essas necessidades e oportunidades, o Guia Global de Desenho de Ruas oferece uma visão e diretrizes concretas para aumentar a segurança e a qualidade de nossas ruas para pedestres, ciclistas, usuários de transporte público, assim como motoristas.

As ruas demandam uma abordagem integral e equânime que atualmente não é atendida pelas diretrizes convencionais de desenho urbano e geometria viária. A orientação, a visão e a flexibilidade apresentadas no Guia Global de Desenho de Ruas instigam uma nova e importante direção para as cidades. Vemos a publicação como uma ferramenta indispensável no planejamento das ruas de cidades modernas, na medida em que trabalhamos em direção a um objetivo comum com nossos parceiros em todos os níveis de governo e da sociedade.

Página oficial do Guia (em inglês): https://globaldesigningcities.org/publication/global-street-design-guide/

“Como podemos planejar cidades que priorizem pedestres?”

Publicado originalmente em: Archdaily
Autoria: Cidade Ativa
Data: 05/02/2018

Cidades ativas são aquelas em que a população pode fazer escolhas mais saudáveis e sustentáveis. Para que isso seja possível, as cidades devem proporcionar acesso a espaços públicos e serviços de qualidade a todas as pessoas, garantindo que possam passear, descansar, brincar e se exercitar em praças, parques e equipamentos. Cidades ativas são também compactas, nas quais a proximidade entre a moradia e o trabalho, escola, serviços, lazer faz com que as redes de mobilidade a pé, cicloviária e de transporte público sejam mais eficientes e melhores distribuídas no território. Assim, a escolha pelo modal a pé ou bicicleta nos deslocamentos diários se torna viável. Por isso, cidades ativas são, necessariamente, mais caminháveis.

© Cidade Ativa

© Cidade Ativa
 

Para garantir um planejamento adequado da rede e dos espaços dedicados a pedestres, é necessário equalizar o entendimento dos atores envolvidos – sejam do setor público ou privado – sobre o que é de fato mobilidade a pé:

O DESLOCAMENTO A PÉ É UM MODO DE TRANSPORTE

Para que haja o planejamento efetivo da rede, e que ela seja incorporada nas ações, programas e políticas públicas, é importante reconhecer o deslocamento a pé como um modo de transporte. Hoje, mais de 30% dos deslocamentos diários da população brasileira é feito exclusivamente a pé. Quando somados a esses todos os deslocamentos feitos por transporte público, já que necessariamente eles começam ou terminam com o caminhar, essa porcentagem chega a mais de 60% dos deslocamentos. Além disso, a Política Nacional de Mobilidade Urbana reconhece os modais ativos (ou não-motorizados) como meios de transporte, e a priorização do pedestre é exigida para os Planos de Mobilidade Urbana.

O DESLOCAMENTO A PÉ É O PRINCIPAL INTEGRADOR DE OUTROS MODOS DE TRANSPORTE

Todas as pessoas, em algum momento do dia, são pedestres. Seja no início ou no final da viagem, seja para caminhar até o ponto de ônibus/metrô, para o comércio próximo da moradia, local de trabalho ou no momento em que estaciona a bicicleta, o deslocamento a pé está presente.

© Cidade Ativa
© Cidade Ativa
 

A REDE DE MOBILIDADE A PÉ É COMPLEXA

O planejamento da rede de mobilidade a pé é relativamente mais complexo do que o da tradicional infraestrutura de transporte público coletivo (ônibus, metrô e outros). Na mobilidade a pé, os trajetos são muito mais flexíveis: os pontos de origem e destino – residência, edifício comercial, parques e praças – são muitos, trazendo a necessidade de se ter uma malha urbana amplamente conectada, garantindo a diversidade, articulação e continuidade entre todos esses pontos.

A MOBILIDADE A PÉ SE MANIFESTA EM DIFERENTES ESCALAS

Na escala da cidade, a mobilidade a pé está relacionada à definição de densidade populacional e à distribuição de usos do solo no território, o que influencia nas distâncias a serem percorridas. Uma cidade mais compacta é, portanto, mais caminhável porque as atividades do dia-a-dia estão mais próximas.

Na escala do bairro, o caminhar é influenciado, por exemplo, pela dimensão das quadras, continuidade das calçadas, posicionamento e frequência das travessias. Nela, é possível estabelecer rotas prioritárias de pedestres, garantir a conexão entre espaços públicos e principais destinos, como serviços e transporte público.

Por fim, mas talvez a mais importante, a mobilidade a pé se revela na escala do pedestre: o dimensionamento de calçadas, os materiais empregados no piso, a presença de árvores, iluminação dedicada ao pedestre, mobiliário urbano e a relação dos lotes privados e edificações com o passeio são aspectos que certamente influenciam na escolha pelo modal.

© Cidade Ativa

© Cidade Ativa
 

PESSOAS QUE CAMINHAM TÊM DIFERENTES CARACTERÍSTICAS E PODEM UTILIZAR A REDE PARA REALIZAR DIVERSAS ATIVIDADES

O caminhar está em toda parte e é feito por todas as pessoas, independente de suas habilidades (e se precisam, por exemplo, de algum dispositivo para caminhar) ou do propósito do deslocamento. Essa diversidade deve ser considerada no planejamento da rede. Para muitos caminhantes, a acessibilidade, por exemplo, é um quesito essencial no momento da escolha pelo modal a pé. Por isso, o desenho dos espaços deve ser inclusivo e priorizar as pessoas portadoras de deficiência e com mobilidade reduzida e, ainda, aquelas que transitam com carrinho de bebê ou compras. Uma rede de mobilidade a pé que responda a essas necessidades específicas será uma rede adequada a todos. É importante levar em conta que todos nós, em algum momento de nossas vidas (quando criança, com criança de colo, quando idoso ou após sofrer alguma lesão ou doença) exigimos que os espaços públicos atendam a nossas necessidades específicas. Por isso, a rede de mobilidade a pé deve ser sempre planejada considerando cada pedestre, respeitando suas limitações e priorizando sempre os mais vulneráveis. Com isso, estaremos caminhando rumo a cidades mais ativas.

Por fim, é importante reconhecer que as qualidades da rede são avaliadas continuamente pelos usuários. Entre os principais elementos utilizados, ainda que intuitivamente, pelos usuários para avaliar a opção pelo deslocamento a pé, destacam-se:

  • Utilidade: se a rede serve o propósito de promover o caminhar, se os pontos de origem e destino estão a uma distância – e tempo – adequada à necessidade do pedestre;
  • Acessibilidade: se os espaços podem ser percorridos por pessoas com diferentes capacidades e habilidades;
  • Conforto: se a rede e seus espaços proporcionam espaço suficiente para fluxo e permanência de pessoas, se oferecem conforto ambiental ou proteção às intempéries;
  • Segurança: em relação aos veículos motorizados ou contra crimes;
  • Atratividade: se os espaços foram planejados e desenhados considerando a escala da pessoa, se são interessantes e oferecem diversidade de usos para além da passagem.
Foto do post: Cidade Ativa

 

Uma cidade é caminhável ou não é caminhável: Ricardo Montezuma e a mobilidade a pé

O arquiteto e urbanista Ricardo Montezuma, fundador da  ONG Ciudad Humana, esteve em São Paulo na semana passada. Ele falou em diversos locais e deu várias entrevistas. Aqui, algumas citações da palestra que realizou no Instituto de Engenharia em 28/10/2015.

“Uma cidade é caminhável ou não é caminhável”.

“Como qualquer outro meio de transporte, caminhar requer infraestrutura e engenharia”.

“O tema da mobilidade a pé ainda é incipiente nas políticas públicas e nas aulas das universidades. É preciso criar uma cátedra de infraestrutura peatonal nos cursos de engenharia”.

“É preciso pensar e implantar infraestrutura para quem anda. Não coisas como passarelas, por exemplo, que são um anacronismo, que não deveriam nem existir. As passarelas não servem para facilitar o deslocamento de quem anda, nem para dar mais segurança. Servem apenas para não interromper a circulação dos veículos”.

“A engenharia para pedestres é uma função social útil para todos: se as pessoas que andam estão seguras, todos estão”.

“Priorizar os pedestres é uma maneira de humanizar as cidades”.

“É inaceitável o número de mortes, sobretudo de pedestres, no trânsito de São Paulo. É um verdadeiro massacre”.

“O termo ‘pedestre’ é muito abstrato e técnico. Nos remete àquela figurinha preta sobre uma placa. Temos que chamar quem anda na rua pelo que são: pessoas que andam”.

“Paradigma equivocado: trânsito não é só a rua, mas também as pessoas que circulam nas calçadas, que são parte do espaço de circulação”.

“Hoje a educação no trânsito é para a sobrevivência. A educação deveria ser para andar na rua, desde criança”.

“O foco da mobilidade deveria ser pedestre + bicicleta + transporte público”.

Mais sobre a visita de Ricardo Montezuma a São Paulo

ANTP / Mova-se: Cidade humana, entrevista com Ricardo Montezuma
Outra Cidade: “Priorizar os pedestres é uma das formas de humanizar as cidades”
Bike é Legal: Mobilidade: Urbanista colombiano vê SP liderando mudanças na América Latina
Folha de São Paulo: Urbanista colombiano diz que mortes de pedestres em SP são um ‘massacre’

Imagem do post: O urbanista colombiano Ricardo Montezuma. Foto: Mariana Gil/Embarq Brasil

Mesa sobre Mobilidade a Pé no “Encontro Estadual dos Arquitetos e Urbanistas”

Uma discussão sobre Mobilidade a Pé, Ciclofaixas e Transporte Público acontecerá no dia 13/11/15, dentro do Encontro Estadual dos Arquitetos e Urbanistas, organizado pelo Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo (SASP), e contará com a participação de membros da Cidadeapé, CT Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP e SampaPé.

O encontro dos Arquitetos e Urbanistas tem como principal objetivo reunir profissionais, estudantes, entidades e toda a população em atividades que discutam o atual contexto profissional, definindo diretrizes de ações nos campos das relações de trabalho, do exercício da arquitetura e do urbanismo e das suas resultantes sobre as cidades. O tema deste ano é  a “Crise urbana e a organização dos arquitetos e urbanistas”.

A mesa sobre Mobilidade se coloca nesse contexto para incluir a questão da conectividade das cidades: acessar os ambientes construídos das mais diferentes formas, levando em conta a qualidade dos espaços públicos e privados de circulação e deslocamento, assim como o conforto, a segurança e as necessidades de quem se desloca. A premissa aqui é que todo deslocamento começa e termina a pé, que ele seja realizado por meio de bicicleta, ônibus, carro ou qualquer outro meio de transporte.

Encontro de arquitetos e urbanistas - Mesa Mobilidade

MESA 2 – Mobilidade a Pé, Ciclofaixas e Transporte Público. Para Onde Vamos?

Dia: 13 de novembro de 2015
Horário: das 10h às 12:30h
Local: Praças das Artes
Endereço:  Av. São João, 281, São Paulo

Inscreva-se aqui!

Gratuito