Ruas para a mobilidade ativa durante a pandemia

Nesse momento crítico, juntamos forças com organizações como IAB SP – Instituto de Arquitetos do Brasil – São PauloCiclocidadeInstituto A Cidade Precisa de Você, AromeiazeroCorrida Amiga, Metrópole 1:1 e  Cidade Ativa nessa mobilização articulada pelo SampaPé. O objetivo é pressionar a Prefeitura de São Paulo para abrir espaço nas ruas para as pessoas se deslocarem a pé e de bicicleta em segurança, como já está sendo feito em várias partes do mundo. Confira e nos ajude a pressionar!


RUAS PARA MOBILIDADE ATIVA DURANTE A PANDEMIA 

Proporcionar condições e espaço para que os deslocamentos necessários sejam ativos, seguros, dignos e com distanciamento social é urgente para enfrentar a pandemia.

Queremos espaço das ruas para deslocamentos a pé e de bicicleta em segurança durante a pandemia da COVID-19. Diversas cidades do mundo já estão destinando o espaço das ruas para ampliar calçadas – criando mais área para caminhar – e para criar ciclovias temporárias. Essas transformações proporcionam melhores condições de distanciamento social para que as pessoas que precisam circular durante a pandemia, façam de forma segura e digna.

Nos ajude a pressionar o prefeito Bruno Covas e o secretário de Mobilidade e Transportes, Edson Caram, para que São Paulo crie um plano emergencial de mobilidade ativa com rotas de ciclovias temporárias e área para deslocamento a pé, por meio de extensões de calçada e destinando o espaço das ruas para modos ativos, de forma integrada.

Queremos espaço viário para os deslocamentos a pé e de bicicleta em segurança AGORA!

Várias cidades do mundo já estão destinando espaços das ruas para criação e ampliação de calçadas e ciclovias para que os deslocamentos necessários sejam realizados em distâncias seguras. O que São Paulo vai fazer?

Se você sabe que é impossível caminhar nas calçadas de São Paulo mantendo a distância de 2 metros de outras pessoas e sem correr o risco de sofrer um atropelamento, e acredita que com estrutura e estímulos adequados muitas viagens de carro e de transporte público poderiam ser feitas por bicicleta, impulsione essa transformação com a gente!

Pressione aqui: http://www.ruasativaspandemia.bonde.org

Posicionamento sobre Programa Emergencial do Transporte Social

Na semana passada, foi encaminhado ao ministério da Economia e a outras autoridades do governo federal, assim como ao Congresso Nacional e ao Ministério Público e entidades do setor de transporte, um posicionamento de 35 organizações da sociedade civil. O documento traz uma contribuição sobre como podem ser reduzidos os impactos da pandemia de Covid-19 sobre os sistemas de transportes durante a pandemia no Brasil.

No texto, cuja íntegra pode ser lida aqui, analisa a solução do “Programa Emergencial Transporte Social”, apresentada por entidades, como secretários e empresários do setor, com a participação da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos, em carta publicada e formalizada na Emenda 26 à Medida Provisória 936/2020. A sugestão dos empresários e técnicos é uma compra adiantada de créditos de viagem antecipados, como forma de ajudar as empresas de transporte público a manterem seus custos de operação enquanto precisam circular com poucos passageiros, durante o período de isolamento social.

Para nós da Cidadeapé, é importante pressionar por soluções que garantam a provisão de um transporte público de qualidade, com conforto, higiene e previsibilidade – inclusive durante a pandemia, como já expusemos em nosso artigo sobre o tema.

Leia abaixo o trecho do documento referente ao posicionamento da sociedade civil:

Nossa posição sobre o Programa Emergencial Transporte Social
Sobre o cenário de respostas imediatas à pandemia, cabe aqui opinar sobre a solução apresentada por entidades, como secretários e empresários do setor, em carta publicada e formalizada na Emenda 26 à Medida Provisória 936/2020, na qual apresentam o “Programa Emergencial Transporte Social”.

Em nossa opinião, o programa acerta em buscar remuneração pelo custo de serviço, mostrando necessidade de mudança do padrão nas cidades do país. Porém, cabe modificar a forma de remuneração correspondente à receita mantida pelas empresas operadoras nos atuais contratos. O formato de aquisição de crédito, por sua vez, foi a maneira encontrada para sanar falta de fundos de transportes e organização de subsídios necessários nas cidades brasileiras.

O auxílio social que os créditos trazem na forma de tarifa zero pode garantir acesso ao direito por usuários de programas sociais. No entanto, ao se limitar a pessoas cadastradas nesses programas, pode haver exclusão de outras pessoas em situações igualmente ou ainda mais vulneráveis.

A proposta de uso dos créditos fora do pico é inviável, pois o uso do transporte é resultado de obrigações do trabalhador e da trabalhadora, que não possuem escolha quanto ao horário de deslocamento. É necessário garantir oferta mínima de transporte adequada às demandas das pessoas que precisam do transporte nesse período, evitando aglomerações e superlotações.

Ressaltamos que o elemento principal a ser adicionado ao projeto é transparência de gastos, tanto na União, para aferir o programa, quanto nos municípios, para que o valor necessário seja auditado e avaliado, bem como o valor recebido, para garantir que os custos envolvidos estejam corretos. Além disso, é importante exigir alguma contrapartida de maior transparência por meio da disponibilização contínua de dados de bilhetagem, posicionamento dos veículos em tempo real e dados de planejamento.

Apontamos também a suspensão dos contratos dos trabalhadores e das trabalhadoras como solução negativa. Em nome da economia financeira, ela ignora impactos sociais e humanos em momento de extrema crise. Outra questão, é necessário buscar soluções para cidades sem bilhetagem eletrônica, bem como elaborar propostas para serviço de trilhos, garantindo integração do sistema com outros modos de transporte público, além dos modos de transporte ativo.

Então, pensando em soluções de médio prazo, propomos a implementação de medidas de redução de custos e lotação dos transportes. Investimentos emergenciais em mobilidade ativa, por bicicleta ou a pé, modos historicamente abandonados em nossas cidades, podem colaborar para a diminuição da ocupação dos transportes e dar alternativas de deslocamento aos cidadãos. Modos, cujos sistemas de implantação e manutenção, são mais baratos que o sistema de transporte coletivo, reduzindo assim custos das cidades e do Governo Federal. Necessário apontar que possibilidades de implantação dessas opções
devem ser avaliadas em cada local, necessitando também articulação à rede estrutural de transporte coletivo.

Assim, considerando o exposto acima e ressaltando a importância do artigo 6º da Constituição Federal, que define o transporte como direito social de cidadãs e cidadãos, propomos como medidas emergenciais:
– Aportar recursos para remuneração do sistema a preço de custo, com base em planilhas de controle públicos;
– Contemplar a remuneração por custo como mecanismo permanente, por meio de recursos em aditivos e alterações de contrato nas concessões municipais de transporte público;
– Garantir oferta mínima de transporte coletivo e uso de créditos do programa em todos os horários do dia, ajustando o serviço para evitar aglomeração de pessoas, com a limpeza e higiene necessárias;
– Dialogar com usuários para garantia de frota conforme a necessidade;
– Dar publicidade e transparência total, por parte do Governo Federal, aos recursos
aportados e o número de beneficiários do programa, e também, por parte dos governos locais, sobre recursos utilizados e custos dos sistemas envolvidos;
– Ofertar auxílio federal para municípios para a gestão do programa, como experiência de controle da receita e das contas do serviço de transportes, bem como práticas para revisão e redução de custos do serviço;
– Garantir estabilidade de emprego dos trabalhadores e das trabalhadoras rodoviários/as, com manutenção do nível salarial e utilização dos recursos aportados, garantindo saúde e segurança no trabalho;
– Buscar soluções similares para cidades que não dispõem de bilhetagem eletrônica, bem como para sistemas de trilhos, compatibilizando-as com as especificidades deste sistema;
– Promover e apoiar nos municípios ações concretas para a mobilidade ativa, por bicicleta ou a pé, com possibilidade de integração aos outros modos de transporte coletivo para reduzir e dar alternativas de deslocamento aos cidadãos;
– Buscar, no médio prazo, instituir fundo de transportes interfederativo, com amplo debate público, destinando recursos para financiamento progressivo do transporte coletivo, em linha com a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU), destinando recursos de 7 transporte individual e demais setores beneficiados pelo transporte público;
– Adoção, pelos municípios, de soluções próprias como: utilização de subsídios de acordo com legislação local; aditivos contratuais ou mudanças na gestão para busca dos objetivos apontados no texto como a remuneração por custo; mobilidade ativa, por bicicleta ou a pé, para reduzir ocupação dos transportes; gratuidade no transporte coletivo, permitindo o embarque pela porta traseira dos veículos como medida de diminuição do contato físico de trabalhadores com usuários e de redução do impacto na renda das famílias.”

 

Mobilidade a pé em tempos de pandemia

Muitas das soluções emergenciais para reduzir a contaminação durante a pandemia de Coronavírus poderiam já existir se nossas cidades priorizassem a mobilidade ativa.

Aqui na Cidadeapé estamos ansiosos para voltar à nova rotina desse futuro que está por vir. A pandemia da Covid-19 tem exigido diariamente não só inovação, como também adaptação na forma como vivemos. As soluções são as mais diversas! Muitas delas já estavam disponíveis, porém – em condições normais – talvez demorassem anos para serem testadas e aprovadas. Outras, não só são velhas conhecidas, como há muito defendidas e solicitadas por nós. Agora que tiveram que ser implementadas em tempo recorde, a única certeza que temos é: nada será como antes.

Para nos ajudar a refletir sobre a incorporação dessas soluções à cidade e aos sistemas de circulação, listamos abaixo alguns modelos de organização que, neste momento de crise, apresentam uma grande oportunidade para quebrar paradigmas e gerar mudanças.

1. Banheiros públicos e bebedouros

A implantação e manutenção de bebedouros públicos, em áreas públicas externas, para acesso a água potável pela população, assim como a instalação e reforma dos banheiros públicos fazem parte do “Plano de Ação para Moradores de Rua” desenvolvido pela Prefeitura. Apesar de ser anterior à eclosão da pandemia, essas ações ganharam celeridade no combate às contaminações por Coronavírus entre a população em situação de rua.

Uma das pias disponíveis em praças públicas (Imagem: Prefeitura de São Paulo)

Até então, São Paulo – a maior e mais rica cidade da América Latina – tinha pouquíssimos (se não, nenhum) bebedouros públicos instalados nas ruas e praças. Um balanço feito pelo jornal americano The New York Times (2018) apontou que a cidade de Nova York tem mais de 3 mil fontes e bebedouros públicos instalados em parques e ruas. A cidade italiana de Roma também tem mais de 2 mil bebedouros em espaços de grande circulação de pessoas, enquanto Paris tem mais de 1.200 bebedouros públicos. Londres também adotou a política de instalar esses equipamentos para combater o uso de garrafas plásticas e saciar a sede não apenas de pessoas, mas também de animais de estimação em locais públicos. O mesmo ocorre no Chile.

A situação dos banheiros públicos é um pouco menos crítica, mas muito parecida. Foi só quando acendeu o alerta sobre a pandemia que paulistanos se deram conta de que há pouquíssimas possibilidades de se lavar as mãos nas ruas, além dos banheiros disponíveis em estabelecimentos comerciais. Pareceu contraditória a indicação de higienizar as mãos ao sair do transporte público quando nem mesmo os terminais de ônibus contam com sabonetes disponíveis nos banheiros.

Esses são equipamentos indispensáveis a quem se desloca a pé, não só pela própria higiene – que mais do que nunca se mostra tão necessária – mas por uma questão de bem-estar. A impossibilidade de encontrar bebedouros e banheiros públicos afasta, por exemplo, famílias com crianças de caminhadas mais longas. Além de ser uma garantia mínima de dignidade em uma cidade com quase 50 mil pessoas vivendo nas ruas.

2. Informação confiável sobre transporte público

Ninguém gosta de ficar dezenas de minutos nos pontos esperando seus ônibus chegarem, sem saber quando isso vai acontecer. Em tempos de pandemia, o que era uma preocupação com a segurança pública vira também uma preocupação com a saúde: quanto mais tempo nas ruas, maior a exposição ao vírus. Neste momento, faria muita diferença ter informações confiáveis sobre os horários das linhas, partidas e chegadas em tempo real e as mudanças na frota (que vem acontecendo com frequência, devido ao ajuste da oferta de ônibus segundo a variação da demanda). Por mais que existam informações disponíveis em aplicativos de celular, elas precisam estar também acessíveis a todas as cidadãs e cidadãos nos pontos de ônibus.

3. Ônibus movidos a energia limpa e renovável

O coronavírus é uma doença que ataca as vias respiratórias,  e pode ser letal. A emissão de poluentes agrava o risco de mortalidade dos infectados pelo vírus. Mesmo em tempos normais, segundo estudo do Instituto Saúde e Sustentabilidade, em 2017 ao menos 9 pessoas morreram todos os dias em São Paulo devido a doenças respiratórias causadas pela poluição atmosférica. Acelerar a mudança na tecnologia veicular dos ônibus municipais para fontes limpas e renováveis seria uma grande contribuição nesse sentido, já que eles correspondem a pelo menos um quarto da emissão de material particulado. Assim como, claro, medidas para desestimular o uso do transporte individual motorizado, que também têm grande peso nessa conta. Quem sabe assim podemos voltar a ver o céu azul e limpo, como ele tem se apresentado durante a nossa “parada forçada”.

4. Áreas verdes melhor distribuídas

Falando em respirar, as áreas verdes também são muito importantes para reduzir ilhas de calor, melhorar a drenagem e evitar enchentes, além de proporcionarem espaços de convivência e atividades esportivas, ajudando a preservar a saúde física e mental dos munícipes. No entanto, na cidade de São Paulo elas têm uma distribuição muito desigual. Em pesquisa feita pela Rede Nossa São Paulo, foi perguntado a moradores da capital se eles conseguiam acessar parques ou praça em até 15 minutos a pé de suas residências. A resposta foi positiva para apenas 24% entre os que têm renda familiar mensal de até 2 salários mínimos e 41% para quem tem renda familiar mensal acima de 5 salários mínimos.

Assim, a maioria dos paulistanos tem que se deslocar por trajetos longos para acessá-las, o que se torna inviável em períodos de isolamento social. Além disso, essa má distribuição faz com que as poucas áreas verdes disponíveis se saturem, impedindo sua ocupação com as distâncias de segurança. Em cidades onde as áreas verdes estão melhor distribuídas, os cidadãos estão conseguindo manter suas atividades físicas, ainda que com restrições.

5. Cidade compacta

Esquina vazia no centro da cidade (Imagem: Vanessa Prata)

As determinações de isolamento social pedem que as pessoas só saiam de casa para acessar serviços e comércio essenciais, de preferência próximos às residências. No entanto, assim como as áreas verdes, eles são distribuídos de maneira muito desigual. Na mesma pesquisa da RNSP mencionada anteriormente, 77% dos entrevistados com renda familiar mensal superior a cinco salários mínimos afirmaram conseguir ir a mercados, feiras livres e farmácias em até 15 minutos a pé. Esse percentual cai para 52% para mercados e feiras e 44% para farmácias entre quem tem renda familiar mensal inferior a 2 salários mínimos.

O estímulo ao uso misto, conforme preconiza o Plano Diretor, é uma das maneiras de melhorar esse acesso em todos os bairros, reduzindo a necessidade de deslocamentos mais longos. Lembrando que, quanto menores os tempos de deslocamento, menor o risco de exposição ao vírus. O “lado bom” é que, durante o período de isolamento social, muitas pessoas estão descobrindo o comércio local.

6. Segurança pública

Com as ruas mais vazias, vários problemas tornam-se mais evidentes, dentre eles a segurança pública. A ausência de pessoas nos pontos de ônibus e nas vias da cidade em decorrência do fechamento de comércios, restaurantes e bares é motivo de desconforto, sobretudo nos horários noturnos.

As mulheres são as mais afetadas, pois o medo da violência urbana já faz parte da rotina de muitas delas, principalmente daquelas que dependem do transporte a pé para fazer os seus deslocamentos diários ou o utilizam como forma de chegada aos pontos de acesso ao sistemas de ônibus e metrô. A conhecida ausência de iluminação no entorno destes equipamentos e nas calçadas das ruas da cidade contribui, ainda mais, com essa condição e gera medo em quem precisa se deslocar em função de uma emergência ou trabalha em serviços essenciais que não deixaram de funcionar durante a pandemia.

Melhorar a iluminação pública e incorporar soluções para qualificar as condições de segurança pública são medidas necessárias, hoje e sempre, para preservar as pessoas e não gerar preocupações além das que temos que lidar por conta do avanço da pandemia.

7. Infraestrutura adequada para a mobilidade ativa

Por fim, mas não menos importante, é preciso fortalecer as possibilidades de deslocamento a pé e modos não motorizados. A necessidade de isolamento social reforçou a importância de calçadas bem conservadas e largas que permitem deslocamento a pé mais seguro. No momento, com a redução de carros nas ruas, a ampliação do espaço pedonal sobre o leito carroçável e redução dos tempos de espera de pedestres no semáforos seriam boas soluções temporárias.Assim como a adoção de ciclofaixas operacionais como alternativa para desafogar o transporte público, com está sendo feito em Bogotá, ambas fazendo uso de sinalização temporária

A adoção dessas medidas nos leva a refletir sobre a adoção de velocidades compatíveis com a vida, quando se fala de carros, motos e caminhões, já que menos veículos na rua não deveria significar mais riscos de atropelamento, mas na prática motorista aproveitam-se das ruas vazias para correr e avançar sinais de trânsito.

Até porque mais segurança no trânsito significa menos leitos ocupados nos hospitais, que é exatamente do que estamos precisando agora.

Estação da Luz vazia no crepúsculo (Imagem: Vanessa Prata)

Não podemos esquecer que as vias públicas suportam as mais diversas ações e interações que geram fluxos e permanências, e que quando o isolamento social acabar, nossas ruas devem ser não só locais de trânsito, mas também de encontro.

A verdade é: não dá mais para jogar a discussão dos nossos problemas para o futuro. Há um “presente sufocado” que eclodiu e dificilmente voltaremos àquilo que era antes, mesmo que ainda não saibamos exatamente o que será. Uma nova cultura está emergindo no meio do caos e ela não pode ser negada. As soluções pós-pandemia não podem se voltar para o estímulo aos deslocamentos por carro, deliveries e longas distâncias, sob pena de repetirmos tudo o que já não funcionava. Precisamos acreditar no melhor  futuro que quer emergir, olhando os desafios e aprendizados do passado e aplicando as descobertas no presente. A hora é agora!

Referências:

EnteUrbano: Como podemos rediseñar ciudades para combatir futuras pandemias?
The Guardian: Life after coronavirus pandemic
LabCidade: Pandemia e o futuro das Cidades
Renata Falzoni: Bicicleta é solução contra a crise?
Covid Responses from European Cities

Apoio aos trabalhadores que precisam usar bicicleta

A Ciclocidade protocolou na sexta-feira, 27/3/20, na Secretaria de Transportes Metropolitanos (estadual) e na Secretaria de Mobilidade e Transportes (municipal), um posicionamento para sugerir medidas imediatas ao Estado e à Prefeitura de apoio aos trabalhadores que precisam usar bicicleta nesse momento de pandemia. A Cidadeapé foi uma das organizações a ratificar o documento.

Re-abertura dos bicicletários e liberação do transporte de bicicletas nos vagões dos trens da CPTM e Metrô são as principais medidas necessárias.

Mas foi ainda apontada a necessidade de ampliar a fiscalização de trânsito para evitar que motoristas ultrapassem limites de velocidade – diante de ruas vazias – e aumentem com isso o número de vítimas que vão onerar o sistema público de saúde.

Posicionamento completo

Original no site da Cidclocidade

Na última segunda-feira (23/04/2020), ficamos sabendo, através das redes sociais do Metrô, que os bicicletários da operação “deixariam de funcionar” e que “o transporte de bicicletas está suspenso”. Também recebemos com surpresa um comunicado informando o fechamento do bicicletário do Largo da Batata cumprindo determinação da Prefeitura Municipal, pela operadora Tembici.

A Ciclocidade, e todas as organizações da sociedade civil que assinam este posicionamento, pedem a imediata revogação das medidas, uma vez que essas escolhas não têm justificativa técnica e vão na contramão do que vem sendo adotado em diversas cidades ao redor do mundo, como Bogotá, Londres, Lisboa e Nova York – só pra citar alguns exemplos. Nessas cidades, a bicicleta está sendo incentivada como modo de transporte para barrar a propagação do vírus. É preciso respeitar a bicicleta como parte integrante do sistema de transporte das cidades e, mais do que isso, entender que é uma aliada importante no combate ao coronavírus, por se tratar de um transporte individual e de um veículo muito utilizado na logística, especialmente para o gênero alimentício.

A orientação é ficar em casa, mas todos sabemos que há serviços essenciais que precisam continuar funcionando para garantir a vida nas cidades. Toda a massa de trabalhadores que segue tendo de sair de casa precisa que o Estado garanta seu direito de ir e vir, fazendo uso do sistema de transporte coletivo da cidade que precisa ser mantido nesse momento. Os bicicletários da cidade promovem a intermodalidade das linhas e estações que fazem parte desse sistema e, portanto, devem ser mantidos funcionando integralmente para garantir os direitos dos trabalhadores.

Aqui destacamos a massa de trabalhadores que precisam pedalar para trabalhar, como é o caso dos milhares de ciclistas-entregadores que cruzam a cidade transportando comida, remédio e outros produtos em suas costas. A medida imposta pelas Secretarias de Transporte tanto do Estado quanto do município – STM e SMT – só dificulta ainda mais a logística de muitos deles, que dependem dos bicicletários para ter segurança, bem como tantos outros trabalhadores que escolheram a bicicleta como veículo. Outra categoria que pode ser beneficiada são as pessoas que trabalham na área da saúde, também fundamentais no momento.

Para além da revogação imediata das medidas de fechamento dos bicicletários, gostaríamos de pedir que o Governo do Estado, Secretaria de Transportes Metropolitanos, Metrô e CPTM aproveitem a oportunidade e repensem seus horários de transporte de bicicletas nos trens, uma vez que essa ampliação pode ajudar a desafogar o uso do sistema de transporte coletivo da cidade, que apresenta maior risco para a proliferação do vírus causador da doença COVID-19. São medidas nesse sentido – de estímulo ao transporte em bicicleta – que têm ajudado cidades ao redor do mundo a combater a epidemia do coronavírus.

Nossas propostas de ações emergenciais para o momento são:

  • Reabertura de todos os bicicletários públicos, sob responsabilidade municipal e estadual, com as devidas ações de precaução, tanto para equipes que trabalham nesses equipamentos, bem como para com usuários.
  • Liberação total das bicicletas nos trens da CPTM e Metrô, além dos Ônibus Intermunicipais, balsas e travessias, contribuindo para que os ciclistas evitem outros meios de transporte, como carros por aplicativos, ônibus e vans lotados;
  • Proibição que cidades paralisem o sistema de transporte público, além de manter ou aumentar a oferta de vagões (CPTM e Metrô) e ônibus (SPTrans e EMTU), diminuindo a concentração de passageiros e aumentado a distância entre os mesmos.
  • Aumento com agilidade da infraestrutura cicloviária, com sinalização de ciclofaixas temporárias – ainda que de forma provisória – fortalecendo principalmente as conexões da periferia, pontes e rodovias com trechos urbanos;
  • Reabertura da Ciclovia do Rio Pinheiros. A estrutura é um eixo importante de transporte para os trabalhadores que precisam cruzar a cidade da Zona Sul à Zona Oeste com segurança.
  • Promoção de campanhas de comunicação em todo os Estado para garantir mais segurança para ciclistas e pedestres nas ruas e rodovias das cidades, intensificando fiscalização de trânsito, principalmente com relação a limites de velocidade, considerando o aumento das velocidades pela redução dos congestionamentos.

Numa crise como essa é preciso ter inteligência e ousadia e não preconceitos ou achismos, para propor ações que quebrem o ciclo de propagação da doença; aliviar a demanda nos ônibus, melhorar a ciclologística e tornar a mobilidade mais eficiente e integrada são algumas delas.

Assinam esta manifestação pública:

  • Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo – Ciclocidade
  • Instituto Aromeiazero
  • Associação Brasileira do Setor de Bicicletas – Aliança Bike
  • Instituto CicloBR
  • Bike Zona Sul
  • Cidadeapé – Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo
  • União dos Ciclistas do Brasil – UCB
  • Bike é Legal
  • Bike Zona Leste
  • Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor
  • Ciclocomitê Paulista
  • Vá de Bike
  • Ascobike – Associação dos Condutores de Bicicletas de Mauá;
  • Rede Bike Anjo

Pacto pela Democracia

Cidadeapé passa a fazer parte da rede Pacto pela Democracia –  uma plataforma de ação conjunta, que conta com 100 organizações da sociedade civil, além de lideranças públicas e políticas de diversos campos.

A decisão de participar desse grupo esta alinhada com nossos valores de  construção de parcerias, atuação política democrática e organizada, ocupação dos espaços públicos de participação e valorização dos saberes e das experiências de cada pessoa. Como nós, o Pacto preza pela “pluralidade de visões e áreas de atuação na construção da democracia” e sua rede tem atuado em diversas frentes, inclusive defendendo uma Renda Básica emergencial para famílias nesse momento de crise, a Lei de Acesso à Informação, liberdade de imprensa, mulheres na política,  saúde nas favelas, entre outros.

Para acompanhar o trabalho dessa rede,  inscreva-se para receber gratuitamente o boletim eletrônico com conteúdos sobre democracia e ação da sociedade civil.

Transporte sustentável deve crescer em 10 anos

Nosso associado, Gilberto de Carvalho, deu entrevista ao Jornal da Band para reportagem que aborda as tendências em mobilidade em algumas cidades do mundo.

Segundo a reportagem, “o uso de carro particular deve diminuir nos próximos dez anos. Um estudo feito em mais de 30 metrópoles no mundo apontou para um crescimento do transporte público e de alternativas menos poluentes de mobilidade urbana, como a bicicleta.”

Vale destacar, porém, que em São Paulo e na maioria das cidade brasileiras, as viagens de transporte coletivo, a pé e bicicleta superam as de transporte individual. Para diminuir a quantidade de viagens de carros e motos, o poder público precisaria investir muito mais na infraestrutura, como está sendo feito nas outras cidades do mundo citadas pela reportagem.

Veja o vídeo aqui: https://noticias.band.uol.com.br/jornaldaband/videos/16759332/transporte-sustentavel-deve-crescer-em-10-anos 

Associados definem prioridades da Cidadeapé em 2020

No dia 1º de fevereiro de 2020, associados da Cidadeapé se reuniram para determinar as diretrizes relativas ao planejamento anual da associação. Em se tratando de período eleitoral, foram definidos como prioridade dois grupos de trabalho:

  • atuação nas eleições municipais, com atividades próprias e em rede;
  • acompanhamento do Plano Emergencial de Calçadas, promessa da administração atual com entrega prevista até o final do ano.

Também foi traçada uma linha estratégica que será trabalhada em torno do eixo de segurança viária, a partir da qual irradiam as formas de reflexão e comunicação. Por fim, ressaltou-se a importância do desenvolvimento de uma forte campanha de associação que visa a sustentabilidade financeira da organização como também, primordialmente, a conscientização sobre a importância da pauta da mobilidade a pé nos planos de governo municipais e na atuação da câmara de vereadores. Os próximos passos serão definidos na próxima reunião geral, a ser realizada no dia 17 de fevereiro de 2020.

O que está acontecendo na Câmara Temática de Mobilidade a Pé

Por Mauro Calliari, conselheiro da Cidadeapé.

Você sabia que existe um órgão chamado “Câmara Temática de Mobilidade a Pé“? Pois é, existe, e é um lugar onde membros da Secretaria Municipal de Transportes (SMT) e da CET discutem com a sociedade civil (nós!) sobre como melhorar a caminhablidade em São Paulo.

Ontem [6/2/2020] teve uma reunião em que, a nosso pedido, foram apresentadas pelo Luan Chaves, da SMT, as ações que estão acontecendo nesse último ano de mandato da gestão municipal. Selecionei algumas:

Reforma de calçadas. Começaram as reformas das 32 subprefeituras. São 1,5 milhões de metros quadrados de requalificação de calçadas. Dá para ver por aí, na Consolação, por exemplo, as pilhas de entulho dos lugares onde está sendo feita a troca do piso.

Ampliação das áreas das calçadas nos cruzamentos. Existe um plano super importante para ampliar as calçadas em mais de 100 cruzamentos de São Paulo. Luiza Gomide é a responsável pelo projeto, que está saindo a toque de caixa.

Áreas calmas. A prefeitura selecionou alguns pontos em São Paulo para melhorar a vida do pedestres em áreas de fluxo, principalmente ao redor de algumas escolas. Pena que o número de de locais ainda seja pequeno mas vamos acompanhar para ver se isso não pode ser escalável, provavelmente só na próxima gestão.

Aumento do tempo do semáforo de pedestres. Esse assunto ficou para ser apresentado na próxima reunião, mas é bem importante. Uma das principais reclamações de pedestres é quanto ao tempo reduzido para atravessar, além do enorme tempo de espera.

Novos calçadões do Centro. Estamos esperando notícias mas tudo indica que a promessa de começar a reforma do calçadão do centro não vai ser cumprida. Uma das fotos aqui mostra como anda o trecho mais recente do calçadão do centro, na 7 de abril, só para ver como isso é necessário.

Mortes no trânsito. Apesar do número total de mortes ter caído em 2019, morreram mais pedestres do que no ano anterior.

Infelizmente, a prefeitura ainda não tem um diagnóstico sobre o que aconteceu mas suponho que isso tem a ver com a irregularidade com que o tema foi tratado desde o início da gestão (alguém lembra do ‘acelera’?). No ano passado a prefeitura lançou o programa Vida Segura que gerou muita expectativa mas cujas as principais ações vão ficar para esse ano é por isso que vale a pena garantir que saiam antes das eleições.

Estamos de cara nova!

Desenvolvemos um logo que tem mais a nossa cara e reflete melhor nossos valores.

A Cidadeapé acredita numa cidade onde cada pessoa pode caminhar com liberdade, qualidade e segurança. Isso significa poder estar na cidade, usar a cidade, se deslocar na cidade com tranquilidade e com nossos direitos garantidos. Uma cidade humana oferece espaço para pular corda, andar de skate, correr e jogar bola, além de simplesmente ir e vir.

Uma cidade boa para se viver é uma cidade boa para qualquer pessoa se deslocar e acessar todos os seus espaços, independente do transporte que cada um usa. Por isso defendemos políticas públicas para que todas as pessoas, independente de gênero, raça, idade, condição física ou socioeconômica,  tenham o direito de andar a pé assegurado nas leis e no dia a dia.

Na Cidadeapé valorizamos a participação, a diversidade, a acessibilidade, a sustentabilidade, a transparência, a atuação política democrática e organizada, a ocupação dos espaços públicos de participação, e os saberes e as experiências de cada pessoa.

Nossa nova imagem procura mostrar isso. E vamos continuar trabalhando para isso nesta década que se inicia. Feliz década de 2020!

Conheça nossa missão, visão e valores e veja como atuamos

E aproveite para apoiar o nosso trabalho se associando hoje!!

Mortes de pedestres e ciclistas voltam a aumentar em São Paulo

A plataforma do governo do Estado, Infosiga, divulgou o balanço das ocorrências no trânsito em 2019. O resultado infelizmente não nos surpreende: aumento de quase 2% nas mortes de pedestres (de 374 em 2018 para 381 em 2019) e de alarmantes 64% nas mortes de ciclistas (de 22 em 2018 para 36 em 2019). Representando 5% de aumento no total de mortes para a mobilidade ativa.

Sao Paulo-SP 2019 - Óbitos por Modal de Locomoção da Vítima

Sao Paulo, SP 2019 – Óbitos por Modal de Locomoção da Vítima. Fonte: Infosiga, Governo do Estado de São Paulo

Esses números trágicos são a comprovação da falta de continuidade de políticas concretas de segurança viária que vinham dando resultados nos últimos anos e que foram descontinuadas e desestruturadas desde o início da gestão Dória-Covas. No último ano da Década de Segurança Viária da ONU, a Prefeitura de São Paulo continua favorecendo o idealizado “fluxo” de veículos e o conforto de quem está protegido em seus automóveis em detrimento das vidas de quem anda a pé ou de bicicleta. Ainda que,  de acordo com a Política Nacional de Mobilidade Urbana e o Código de Trânsito Brasileiro, os modos ativos de deslocamento devessem ser priorizados.

Para reduzir as mortes no trânsito, é preciso que a Prefeitura se comprometa com ações mais ágeis, robustas, sistemáticas e descentralizadas. O aumento no número de mortes das pessoas mais vulneráveis no sistema de trânsito, pedestres e ciclistas, reforça a necessidade urgente de reduzir as velocidades por toda a cidade e aumentar a fiscalização.

E isso deve ser feito não apenas com a implantação de radares e fiscalização por toda a cidade, mas também com projetos de mudanças nos desenhos das ruas, de forma a obrigar motoristas a dirigirem com o máximo de cautela e atenção, em velocidades compatíveis com a segurança de todos. Seguiremos atentos e pressionando a Prefeitura a adotar medidas com a urgência que essa questão de saúde publica exige.

Nota editada a partir do texto da Ciclocidade.