“Paulistanos são os mais insatisfeitos com suas calçadas”

Publicado originalmente em: O Globo
Autor:  Leonardo Guandeline
Data: 23/04/2015

Levantamento feito com ajuda de aplicativo sugere soluções; prefeito de SP anuncia plano

SÃO PAULO – Calçadas estreitas, esburacadas, irregulares, com degraus e obstruídas (por entulho, lixo, mato, comerciantes, carros), ou então inexistentes. São essas as principais dificuldades encontradas por pedestres na cidade de São Paulo, segundo um mapeamento realizado no fim de março pelo coletivo Corrida Amiga, voluntários e movimentos parceiros que reúnem pedestres, corredores de rua e cadeirantes, com a ajuda de um aplicativo de telefone celular, o Cidadera. O mapeamento também foi feito pelo coletivo, na mesma ocasião, em outras 40 cidades brasileiras, de 16 diferentes estados. Dos 291 obstáculos relatados encontrados em calçadas de todo o país, 142 estavam em São Paulo.

Segundo a gestora ambiental e idealizadora do Corrida Amiga, Silvia Stuchi Cruz, o mapeamento na capital paulista foi feito principalmente em calçadas de algumas regiões contempladas pelo Plano Emergencial de Calçadas (PEC), de 2008, proposta da Prefeitura paulistana de reformar os passeios de mais de 300 vias com grande movimento de pedestre na cidade. De acordo com o PEC, a manutenção ficaria por conta do dono do imóvel.

O padrão de calçada adotado na Avenida Paulista, com rampa de acessibilidade e piso tátil para deficientes físicos, deveria, de acordo com Silvia, ser utilizado em toda a região do PEC, mas isso não aconteceu nas principais vias mapeadas pelo coletivo no fim do mês passado.

– No último dia 28, dentro da campanha Calçada Cilada, percorremos aqui em São Paulo, entre outros locais, a Avenida Paulista e a região do Hospital das Clínicas. Nas duas vias principais (Paulista e Doutor Enéas de Carvalho Aguiar), as calçadas estão ótimas. No entanto, em quarteirões próximos constatamos calçadas esburacadas e cheias de obstáculos. Na região do Butantã, Zona Oeste, colaboradores do coletivo fotografaram uma calçada quase que totalmente esburacada próxima à Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, local de grande circulação principalmente de crianças.

Um outro relato do mapeamento foi o do Viaduto Pacaembu, na Zona Oeste, onde as calçadas foram substituídas por faixas azuis pintadas sobre o asfalto e sinalizadas por prismas de concreto e balizadores da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). O piso, no entanto, está cheio de buracos e elevações.

De acordo com Silvia Stuchi Cruz, a situação é ainda pior na periferia da cidade, em regiões não contempladas pelo PEC. Para ela, o atual modelo de gestão das calçadas, que responsabiliza e onera somente o proprietário, está longe de ser ideal.

– Sabemos que a gestão pública sozinha também não dará conta de mudar o cenário da noite para o dia. No entanto, precisamos equacionar isso, uma vez que o poder público cuida e gasta recursos abundantes nas vias onde os veículos automotores circulam. Então, por que onde circulam os pedestres eles não se responsabilizam? – questiona.

Um outro problema apontado pela gestora ambiental são as concessionárias de serviços que raramente deixam a calçada restaurada em relação ao padrão original após uma intervenção. Além disso, na capital paulista, é comum passeios serem ocupados por mesas de bares e revistas de bancas de jornal depositadas na frente do comércio, ou então por veículos.

Na quarta-feira (22), em entrevista à Rádio Estadão, o prefeito Fernando Haddad (PT) informou que a partir da próxima semana terá início na cidade a execução de um plano de reforma e construção de calçadas que contemplará principalmente as regiões periféricas. Batizado “São Paulo Mil Quilômetros’, a proposta tem por objetivo a construção de 300 km de calçadas e a reforma de outros 700 km. A iniciativa faz parte do Plano de Mobilidade 2015 (PlanMob).

MAPEAMENTO NACIONAL

A partir de comentários de participantes, parceiros e voluntários do mapeamento nacional decalçadas realizado no fim de março, o Corrida Amiga, fez uma nuvem de palavras das 291 ocorrências relatadas em 41 cidades (entre elas Rio, Brasília, Salvador, Natal, Campinas, Manaus e Porto Alegre) de 16 estados brasileiros. Pelo observado, os obstáculos de São Paulo também ocorrem em outras regiões do Brasil. Além de calçada, pedestres e rua, também ganharam destaque na nuvem as palavras lixo, risco e carros.

A iniciativa do mapeamento partiu de uma brincadeira realizada no meio do ano passado pelo Corrida Amiga, que constava em cada participante tirar uma selfie com uma calçada acidentada ao fundo.

Silvia Stuchi Cruz lembra que um terço das viagens urbanas diárias são feitas a pé. Contudo, ela ressalta que a atenção dada às calçadas no Brasil, por parte do poder público e também dos cidadãos, ainda é bastante precária.

– As calçadas podem até ser um indicador do índice de desenvolvimento humano. Morei na França, na Finlândia, conheço outras cidades ao redor do mundo onde há um respeito aos cidadãos que caminham, uma atenção maior às pessoas com mobilidade reduzida, crianças, idosos. Aqui, falta mudarmos nosso olhar para esse espaço. Há uma necessidade de mudança de paradigma, pois todos somos pedestres. O problema não é só infraestrutura, é também de conscientização.

Segundo ela, das ocorrências relatadas pela campanha, 65% delas haviam sido repassadas às respectivas prefeituras até a quarta-feira da semana passada (15). Em todos os casos, as administrações foram informadas sobre o canal de interface com o aplicativo para que possam conhecer as ocorrências. Para uma maioria foi emitido um protocolo de acompanhamento da situação ou algum outro processo burocrático.

Além de São Paulo, para quem a própria Silvia apresentou um documento propondo diretrizes de como incluir a mobilidade a pé e acessibilidade de modo claro e efetivo no PlanMob, o único retorno obtido pelo coletivo Corrida Amiga foi o da Prefeitura de Natal, que quis saber quais os tipos de reclamação e os locais onde as calçadas acidentadas se encontram.

Os interessados em participar do mapeamento, que continuará mesmo após o término da campanha, podem baixar via telefone celular o aplicativo Cidadera. Além de relatar o local da calçada com problema, o usuário pode enviar imagens. Um outro meio de colaborar é através da página do Facebook da Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo, recém-fundada.

Imagem do post: Pedestre caminha por calçada esburacada em SP: cena comum na maior cidade brasileira. Foto:  Andrew Oliveira

“Maratona de mapeamento de calçadas, dia 28, em todo o Brasil. Participe!”

Publicado originalmente em: Mobilize Brasil
AutorDu Dias
Data: 18/03/2015

A Rede Corridaamiga vem se formando desde o início de 2014, com o objetivo de estimular a prática da corrida de rua como meio de transporte. Como usuários em contato direto com as vias públicas, os idealizadores da rede passaram a atuar também de forma política, defendendo melhorias nas estruturas urbanas. E uma das ferramentas desenvolvidas para este fim foi uma plataforma, em parceria com o Cidadera, que permite ao usuário registrar problemas ou condições adversas em seu trajeto por meio de um aplicativo ou plataforma on-line.

Pela utlização deste aplicativo, os integrantes da rede planejam fazer um happening no próximo dia 28 de março, batizado de #CalçadaCilada. O objetivo é reunir num mesmo dia colaboradores em várias cidades do país para uma verdadeira maratona de avaliação das calçadas nos municípios em que se encontram e compartilhar cada avaliação com quem acessar a plataforma ou baixar o aplicativo. A prioridade será dada para calçadas com grande fluxo de pedestres, como as proximidades de escolas e hospitais. A tecnologia é a mesma que alimenta a seção Mobilize-se, do Mobilize Brasil, em que todas as informações anexadas utilizando o aplicativo Cidadera ou a plataforma Corridaamiga#CalçadaCilada também ficam disponíveis no Mobilize e vice-versa.

Esta é a segunda edição da campanha #CalçadaCilada. Quando foi lançada, em 2014, incentivava os corredores de rua a postarem selfies pela cidade, sempre que encontrassem problemas nas calçadas. Segundo Silvia Stucchi, uma das fundadoras do Corridaamiga, a ferramenta visa a facilitar a ação cidadã e ampliar o olhar para um espaço que se tornou “invisível”. “O aumento do transporte ativo pode trazer como desdobramentos uma pressão natural não só sobre o setor público, como também sobre o privado (para sanar todas as barreiras que encontramos hoje)”, explica Silvia.

A iniciativa, uma realização do Corridaamiga em parceria com o Cidade Ativa e Desenhe Sua Faixa, conta com o apoio de várias organizações como o Mobilize e: Guia Voluntários Corpore, Anjos que correm, Corrida Social, Pé de Igualdade, Bike Anjo, Cidadera, Cidade Ativa, Milalá, MoveBrasil, Missiorama, DressMeUp, Respeite Um Carro a Menos, EditoraMol (Livro Eu Amo Correr), Desenhe sua Faixa, SampaPé, oGangorra, Rock&Run, Amo Correr, Catraca Livre, Jornalistas que Correm, Instituto Mara Gabrilli, GepafUSP, Cidadera, Programa Agita São Paulo, Nosso Pinheiros e Photo Extreme.

Como participar

1) Baixe o aplicativo para Android ou iOS clicando neste link;

2) Com seu smartphone ou tablet em mãos, registre e compartilhe os problemas nas calçadas que encontrar no seu dia a dia;

3) No dia 28/03, saia para uma caminhada ou corrida com seus amigos e estimule os a fazer e compartilhar novas avaliações;

Caso não possua tablet ou smartphone, faça sua avaliação e compartilhe acessano um dos três endereços a seguir: a página da campanha #CalçadaCilada; a seção Mobilize-se, do Portal Mobilize Brasil, ou a página doCidadera

Alguns exemplos do que denunciar

  • Calçada obstruída;
  • Tempo de travessia insuficiente do semáforo para pedestres;
  • Semáforo de pedestres quebrado;
  • Falta de sinalização para pedestres;
  • Calçada para pedestres em mau estado;
  • Faixa de pedestres em mau estado;
  • Ausência de faixa de pedestres.