Participe da Assembleia Geral da Cidadeapé

Convidamos todos os associados, bem como pessoas interessadas em se associar à Cidadepé, a participar da Assembleia Geral Ordinária no sábado, dia 09 de novembro de 2024, no Eureka da Av. Paulista, 2439, 11º andar, sala 116. A assembleia começa às 10:30, em PRIMEIRA CONVOCAÇÃO, com a presença mínima de 2/3(dois terços) dos associados, ou na falta de quórum necessário às 11:00, em SEGUNDA CONVOCAÇÃO, com qualquer número de presentes. A pauta a ser discutida será:

– Apreciação de contas anuais e balanço patrimonial(Janeiro/2024-Outubro/2024);
– Apreciação do relatório da diretoria;
– Definição do valor da contribuição anual ao fundo social;
– Eleição da Diretoria e do Conselho de Administração para o período de dezembro de 2024 a dezembro de 2026.

Após a finalização da assembleia, prosseguiremos para uma apresentação dos principais projetos da Cidadeapé e reunião de trabalho para que os presentes interessados em contribuir com a associação comecem a se envolver com as atividades apresentadas.

Assembleia Geral Ordinária 2024 Cidadeapé – Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo
Data: 09 de novembro de 2024
Hora: 10h30 às 12h30
Local: Eureka – Av Paulista, 2439, 11o andar, sala 116
Próximo aos metrôs Consolação e Paulista; acessível; bicicletário disponível (leve seu cadeado).

O que as candidaturas à Prefeitura propõem para a mobilidade sustentável na cidade de São Paulo?

Analisamos os programas de governo registrados pelas candidatas e candidatos no site do Tribunal Superior Eleitoral*, suas entrevistas e sabatinas, e procuramos o que está sendo proposto para garantir o direito à mobilidade a toda a população paulistana. Usando como parâmetro os objetivos e as ações apresentadas na nossa Carta-compromisso com a Mobilidade Sustentável, mostramos nesse infográfico quem traz propostas transformadoras, avanços importantes, propostas incipientes que trariam pouca mudança ou até mesmo, retrocessos. 

Em resumo, a maior parte das candidaturas propõem melhorias à infraestrutura para pedestres, ciclistas e transporte público. Por outro lado, as candidaturas trazem poucas propostas concretas para tornar o trânsito mais seguro. Para reverter esse quadro, precisamos que mais candidaturas assinem nossa Carta-compromisso – até agora, apenas Altino, Boulos e Tabata assinaram.

Metodologia de análise dos programas de governo

Foi definida uma metodologia de análise na qual foram atribuídas pontuações aos programas de governo, conforme sua aderência às 29 ações prioritárias** apresentadas na Carta-Compromisso com a Mobilidade Sustentável, elaborada por organizações de mobilidade de São Paulo. Cada ação individual possui o mesmo peso e somou a cada candidatura uma pontuação de acordo com os seguintes critérios: 

+3 quando apresenta propostas concretas para atendê-la;
+1 quando apenas menciona a ação;
+0 quando não menciona a ação;
-3 quando apresenta propostas contrárias à ação.

Além do programa de governo oficial cadastrado no TSE, também foram consideradas entrevistas e sabatinas realizadas com as candidatas e candidatos. As falas sobre mobilidade urbana abordadas nesses momentos foram incluídas na avaliação quando traziam propostas concretas (contrárias ou a favor da ação) que não fossem contraditórias com o programa de governo oficial.

A análise foi realizada por 3 pessoas, em três etapas: na primeira, os 9 programas de governo cadastrados no TSE* foram divididos entre os três integrantes para uma primeira análise integral de cada programa em face às 29 ações prioritárias; na segunda, as propostas de diferentes candidaturas para uma mesma ação foram comparadas com o objetivo de padronizar os critérios de classificação das propostas; na terceira, as pontuações foram calculadas para cada plano de governo e cada ação e, então, somadas para cada um dos 6 grandes objetivos. O detalhamento dos resultados da análise, com as pontuações de cada programa de governo em cada ação, pode ser conferido neste link.

* O candidato Bebeto Haddad não foi analisado pois em sua página de candidato do TSE não consta nenhum arquivo de programa de governo (consulta realizada pela última vez às 15:30 no dia 30/09/2024)  

** A lista das ações pode ser encontrada ao final deste post

Resumo da avaliação de cada candidatura

Altino Prazeres – PSTU
Consideramos o programa de governo superficial e pouco abrangente, trazendo propostas concretas apenas no objetivo “Redução dos tempos de velocidade”, com a redução de distâncias entre moradia e trabalho e a promoção da intermodalidade entre o transporte coletivo e os modos ativos. Nos demais temas o candidato traz apenas menções superficiais ou nenhuma abordagem, como é o caso de “Trânsito Seguro” e “Governança da mobilidade”.

Datena – PSDB
Consideramos o programa de governo pouco ousado e superficial, apontando para avanços concretos em 2 dos 6 grandes objetivos da mobilidade sustentável presentes na Carta-compromisso, mas também com um ponto de retrocesso. Os destaques estão nos objetivos “Redução dos tempos de deslocamento” e “Enfrentar a emergência Climática”, enquanto o grande ponto de retrocesso está na posição contrária à Tarifa Zero no transporte coletivo. O objetivo “Implantação de infraestrutura para pedestres, ciclistas e transporte coletivo” é tratado com superficialidade e há uma clara insuficiência de ações relativas aos objetivos “Trânsito Seguro” e “Governança da Mobilidade”.

Guilherme Boulos – PSOL
Consideramos que o programa de governo tem potencial transformador para a cidade, na medida em que traz propostas concretas para 5 dos 6 objetivos da mobilidade sustentável presentes na Carta Compromisso. O destaque principal está no objetivo “Redução dos tempos de deslocamento”, para o qual apresenta caminhos claros para reduzir a distância entre moradia e trabalho, redistribuir o espaço viário para pedestres, ciclistas e ônibus e favorecer a intermodalidade com o transporte coletivo. O programa também se destaca no objetivo “Investimentos públicos”, por apontar para a universalização da Tarifa Zero; no objetivo “Infraestrutura para pedestres, ciclistas e transporte coletivo”, por apresentar ações concretas de implantação de faixas, corredores e terminais de ônibus; no objetivo “Enfrentar a emergência Climática”, por se comprometer com a transição do transporte público para matrizes energéticas limpas; e no objetivo “Melhorar a Governança”, tanto por comprometer-se com a implantação e fiscalização dos instrumentos de remuneração da nova licitação de ônibus quanto por apresentar ações para melhoria das condições dos entregadores de bicicleta. Por fim, no objetivo “Trânsito Seguro”, o programa apresentado pelo candidato é insuficiente e superficial, não trazendo nenhuma proposta concreta.

João Pimenta – PCO
O programa de governo do candidato se abstém quase totalmente de discutir a mobilidade na cidade. A única menção positiva vem ao apontar a universalização da Tarifa Zero no transporte público, porém com superficialidade. Além disso, o candidato propõe um retrocesso claro no objetivo “Trânsito Seguro”, ao se posicionar contra a aplicação de multas. Nenhuma ação positiva é mencionada em relação aos objetivos “Redução dos tempos de deslocamento”, “Infraestrutura para pedestres, ciclistas e transporte coletivo”, “Trânsito Seguro”, “Emergência Climática” e “Governança da Mobilidade”.

Marina Helena – NOVO
O programa de governo da candidata se abstém quase totalmente de discutir a mobilidade na cidade. Não há nenhuma proposta concreta e as raras menções aos temas são superficiais e insuficientes para configurar qualquer avanço mínimo nos 6 objetivos da mobilidade sustentável.

Pablo Marçal – PRTB
Consideramos o programa de governo do candidato um retrocesso. O projeto apresentado não traz propostas concretas em nenhum dos objetivos da mobilidade sustentável presentes na Carta-compromisso, apenas mencionando superficialmente alguns temas e ainda trazendo retrocessos em 3 ações, a saber: a intenção de liberar as faixas de ônibus à direita para veículos privados com mais de um ocupante, trazendo impacto negativo à infraestrutura do transporte coletivo; a liberação da conversão à direita no sinal fechado (mencionada diversas vezes em sabatinas e entrevistas, mas inexistentes no plano de governo), prejudicando as travessias de pedestres; e a redução na aplicação de multas de trânsito, contribuindo para o aumento de mortes e a piora na segurança viária. Há uma ausência total de ações positivas em três objetivos: “Trânsito Seguro”, “Emergência Climática” e “Governança da Mobilidade”. 

Ricardo Nunes – MDB
Consideramos o programa de governo tímido, superficial e contraditório em alguns aspectos, com poucos apontamentos concretos de avanços e algumas ações que representam retrocesso. As propostas concretas aparecem apenas com relação à implantação de corredores e faixas de ônibus e aumento da permeabilidade do solo. Entretanto, o projeto traz a forte intenção de expansão do espaço viário destinada ao transporte motorizado individual, como duplicações, pontes e novas vias, inclusive a extensão da Marginal Pinheiros, o que configura um retrocesso nos objetivos “Redução dos tempos de deslocamento” e “Emergência climática”, por estimular o uso do automóvel particular e impermeabilizar o solo. Há uma clara insuficiência de ações relativas aos objetivos “Investimentos Públicos” e “Governança da Mobilidade”.

Ricardo Senese – UP
O programa de governo é superficial e pouco abrangente ao tratar dos temas da mobilidade sustentável presentes na Carta-compromisso. O candidato apenas menciona ações para os objetivos “Redução de tempos de deslocamento”, “Investimentos públicos”, “Infraestrutura para pedestres, ciclistas e transporte coletivo”, mas não apresenta caminhos concretos. Já para os objetivos “Trânsito Seguro”, “Enfrentar a emergência Climática” e “Governança da Mobilidade”, não há ações propostas, ou são muito superficiais.

Tabata Amaral – PSB
Consideramos que o programa de governo da candidata representa um grande avanço para a cidade, uma vez que apresenta propostas concretas para 3 dos 6 objetivos da mobilidade sustentável presentes na Carta Compromisso. Os destaques estão nos objetivos “Redução dos tempos de deslocamento”, com incentivo à intermodalidade e a redistribuição do espaço viário para modos ativos e coletivo; “Infraestrutura para pedestres, ciclistas e transporte coletivo”, com a proposta de melhora no sistema de informações para o usuário do transporte público e no objetivo “Enfrentar a emergência Climática”, com a ampliação de áreas verdes e arborização. No entanto, a candidata apresenta um programa insuficiente e superficial nos objetivos de “Trânsito Seguro” e “Governança da Mobilidade”.

Lista completa das ações propostas na Carta-compromisso com a Mobilidade Sustentável para candidaturas à Prefeitura de São Paulo 

As 29 ações, listadas a seguir, dividem-se em 6 grandes objetivos: Redução dos tempos de deslocamento (3 ações); Redistribuição de investimentos públicos para os transportes coletivo e ativos (3 ações); Implantação de Infraestrutura para Pedestres, Ciclistas e Transporte Coletivo (7 ações); Trânsito Seguro (4 ações); Enfrentamento da Emergência Climática (5 ações); e Melhorar a Governança da Mobilidade (7 ações). 

Redução dos tempos de deslocamento:

  • Diminuindo as distâncias entre os locais de moradia e trabalho e outras atividades;
  • Redistribuindo o espaço viário com prioridade aos modos de transporte ativos e coletivos;
  • Favorecendo a intermodalidade entre deslocamentos a pé e de bicicleta com o transporte público.

Investimentos públicos:

  • Elevando e regionalizando o investimento em modos de transporte ativos e coletivos;
  • Universalizando a Tarifa Zero por meio de fontes de receitas extratarifárias e da reorganização do sistema de financiamento do transporte coletivo;
  • Reformulando a política de bilhetagem do transporte público coletivo.

Infraestrutura para pedestres, ciclistas e transporte coletivo:

  • Construindo e reformando calçadas, sobretudo em áreas periféricas;
  • Ampliando e fazendo a manutenção contínua do sistema cicloviário, sobretudo em áreas periféricas;
  • Implantando faixas exclusivas, corredores e terminais de ônibus, para qualificar a rede de transporte coletivo;
  • Implantando e reformando travessias, com o objetivo explícito de estimular o deslocamento a pé;
  • Disponibilizando informação adequada e atualizada ao usuário de transporte coletivo;
  • Implantando um sistema público de bicicletas compartilhadas, integrado ao transporte coletivo e atendendo toda a cidade. 
  • Melhorando a iluminação para pedestres e ciclistas.

Trânsito Seguro:

  • Adotando ações para reduzir as velocidades praticadas pelos veículos;
  • Retomando a produção e divulgação de dados sobre ocorrências de trânsito com vítimas;
  • Alinhando as políticas de segurança viária aos princípios de Sistemas Seguros e Visão Zero.
  • Promovendo a fiscalização.

Enfrentar a emergência Climática:

  • Desestimulando o uso de automóveis e motocicletas;
  • Implementando ações de monitoramento e controle de fontes emissoras de poluentes;
  • Aumentando a permeabilidade do solo urbano, com foco na infraestrutura para modos de transporte ativos e coletivos;
  • Ampliando as áreas verdes e a arborização, com foco nos bairros com menor cobertura vegetal por habitante;
  • Cumprindo a meta de transição da frota de transporte público municipal para matrizes energéticas limpas.

Governança da mobilidade:

  • Fortalecendo e descentralizando o Conselho Municipal de Transportes e Trânsito (CMTT);
  • Reunificando a Secretaria de Mobilidade e Transportes (SMT);
  • Implantando um portal de dados públicos e atualizados sobre mobilidade urbana;
  • Estruturando um setor dedicado à mobilidade a pé dentro da Secretaria de Mobilidade e Transportes (SMT) com equipe e verba próprias;
  • Implantando e fiscalizando os instrumentos previstos no novo contrato de ônibus com ampla participação social;
  • Implementando as políticas de incentivo ao uso de bicicletas previstas pelo Programa Bike SP
    (Lei nº 16.547/2016);
  • Promovendo ações específicas para melhorar as condições de entregadores em bicicletas e motocicletas.

Começa a campanha Mobilidade Sustentável nas Eleições em São Paulo

A corrida eleitoral começou e com ela, a mobilização da sociedade para pautar temas essenciais no debate. No campo da mobilidade urbana, uma coalizão de organizações se junta para cobrar compromissos das candidaturas à Prefeitura e à Câmara Municipal de São Paulo. Participam da campanha “Mobilidade Sustentável nas Eleições em São Paulo” as organizações Aromeiazero, Ciclocidade, Cidadeapé, Giro Preto, Minha Sampa e Quadro Preto.

A campanha apresenta cartas-compromisso para candidatas e candidatos, buscando o engajamento com políticas públicas de mobilidade urbana que visem uma cidade mais justa, equitativa e sustentável. São propostos objetivos e ações que se alinham aos princípios da Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei nº 12.587/2012) e são inspirados em experiências positivas de outras cidades do Brasil e do mundo.

As cartas serão enviadas a todos os comitês de candidaturas à Prefeitura, bem como aos diretórios de partidos que registraram candidaturas ao poder Legislativo municipal. Além de convidar as candidaturas a assinarem o documento, a campanha também se dispõe a dialogar com os comitês de campanha sobre as propostas apresentadas. O objetivo é estimular um debate de qualidade sobre propostas que visem garantir o direito à mobilidade a toda a população paulistana.

Eleitoras e eleitores também podem colaborar com a campanha, enviando as cartas-compromisso para seus candidatos de preferência e estimulando-os a assiná-la e falar sobre suas propostas para a mobilidade urbana.

Conheça a Carta-compromisso com a Mobilidade Sustentável para candidaturas à Prefeitura de São Paulo

Conheça a Carta-compromisso com a Mobilidade Sustentável para candidaturas à Câmara de São Paulo

Qual o futuro das mortes no trânsito em São Paulo?

O prefeito Ricardo Nunes abandonou a meta de redução de mortes no trânsito, sem justificativas plausíveis, conforme apresentado na atualização do Programa de Metas (PdM), publicada em 18 de abril de 2023. Neste contexto de crescimento de mortes em acidentes de trânsito, conforme os resultados divulgados com atraso no Relatório Anual de Acidentes de Trânsito de 2021 — em pleno mês de maio, período em que o poder público chama a atenção para a segurança viária e os altos índices de acidente de trânsito — nos manifestamos com profunda indignação.

1. A importância do Programa de Metas (PdM)

O Programa de Metas (PdM) é um instrumento previsto da Lei Orgânica do Município de São Paulo e prevê que o Prefeito deverá apresentar as ações estratégicas, os indicadores e metas quantitativas para cada um dos setores da Administração Pública Municipal, Subprefeituras e Distritos da cidade, observando, no mínimo, as diretrizes de sua campanha eleitoral e os objetivos, as diretrizes, as ações estratégicas e as demais normas da lei do Plano Diretor Estratégico.

A legislação prevê que o PdM deverá ser apresentado até 90 dias após a posse do Prefeito, que deverá ser amplamente divulgado e submetido ao debate público mediante audiências públicas.

Esse instrumento foi instituído por meio de uma emenda à Lei Orgânica articulada pela Rede Nossa São Paulo, em 2008, e se tornou um importante instrumento de planejamento e transparência pública.

2. Sobre alterações da meta 39 – Reduzir o índice de mortes no trânsito para 4,5 por 100 mil habitantes.

Um ponto tem gerado questionamentos por parte da sociedade civil que acompanha o andamento das metas e ações da Prefeitura. A Lei Orgânica prevê que o Programa de Metas poderá ser alterado ao longo do seu curso:

§ 4º O Prefeito poderá proceder a alterações programáticas no Programa de Metas sempre em conformidade com a lei do Plano Diretor Estratégico, justificando-as por escrito e divulgando-as amplamente pelos meios de comunicação previstos neste artigo.

As alterações realizadas, porém, têm sido realizadas com pouca transparência e sem nenhum debate com a sociedade. No mês de abril o Prefeito Ricardo Nunes (MDB) apresentou o documento contendo as alterações programáticas relativas ao PdM 2021-2024 (ALTERAÇÃO PROGRAMÁTICA – link)

Entre as mudanças realizadas, consideramos que a mais significativa diz respeito ao abandono da meta de redução de mortes no trânsito.

No PdM original contava a meta 39 – Reduzir o índice de mortes no trânsito para 4,5 por 100 mil habitantes.

O andamento da meta mostra que a gestão Ricardo Nunes não conseguiu avançar. Tanto os números do balanço do PDM quanto o Relatório da CET apontam uma piora do cenário.

Os dados apresentados no Programa de Metas

Valor base (dez/2020) – 6,00

Dezembro/2021 – 6,41

Maio/2022 – 6,24

Já o relatório Acidentes de Trânsito CET – 2021 reportou os seguintes valores:

2020 – 6,56

2021 – 6,64

Existe uma diferença entre os valores, dado que o relatório da CET consolida dados posteriores à data de divulgação do PDM.

Mas, ao invés de apresentar ações mais efetivas que tivessem um impacto efetivo, o Prefeito simplesmente abandonou a meta, substituído por uma nova redação: Realizar 18 ações para a redução do índice de mortes no trânsito.

3. Alguns pontos a serem destacados

  • Falta de transparência e debate público

No documento que apresenta a alteração programática, a Prefeitura apresenta a mudança dessa meta como uma “alteração”, em vez de apresentar como uma “exclusão”.

Sob qualquer aspecto analisado fica evidente que a nova meta proposta não é compatível com a redação original. Os 18 itens mencionados já constavam na meta original, como as chamadas linhas de ação.

Além de “esconder” o abandono da meta, todo o processo é feito sem nenhum processo de participação. Se o PdM original é submetido ao debate público, a revisão programática é feita de maneira totalmente unilateral.

Vale destacar que no momento em que a Prefeitura divulgou a revisão, estava em andamento a realização de audiências públicas para discussão da Lei Orçamentária Anual de 2024. Por que a Prefeitura não aproveitou a oportunidade para debater com a população essas alterações no principal instrumento de planejamento do município?

  • Ausência de justificativa e critérios técnicos

Conforme mencionado anteriormente a alteração programática está prevista em lei. No entanto, a lei obriga que as alterações sejam justificadas por escrito.

Não há, nos documentos apresentados, qualquer justificativa para a alteração da Meta. Nas páginas 24, 25 e 26 a meta 39 simplesmente não é mencionada.

  • Redução de mortes não é prioridade

No documento da alteração programática a própria gestão diz que “Com sua publicação, a sociedade civil fica ciente das prioridades e atividades em curso por parte do poder público.“ Dada as alterações realizadas é possível afirmar que a redução de mortes não é prioridade da atual gestão.

A nova redação da meta diz respeito a 18 ações que já constavam no PdM original como iniciativas. Ou seja, no geral, a Prefeitura pretende continuar fazendo a mesma coisa que fez nos últimos dois anos, sendo que os resultados são negativos.

Mais grave ainda é que, ao analisarmos em detalhes as iniciativas, temos que 4 dessas já foram atingidas nos dois primeiros anos e não tiveram os seus quantitativos ampliados na revisão.

Iniciativas da Meta 39 e valores realizados (dezembro/2022):

i) Implantar 100 mini rotatórias, com o objetivo de induzir o desenvolvimento de menores velocidades pelos veículos – 92 unidades implementadas

j) Implantar 2.800 novas faixas de travessia para pedestres –  5.635 unidades implementadas

l) Implantar ou ampliar 300 Frentes Seguras (boxes de espera) em semáforos para aumentar a segurança de motociclistas e pedestres – 416 unidades implementadas

o) Reduzir a velocidade máxima regulamentada de 50 km/h para 40 km/h em 24 vias – 24 vias alteradas

  • Incompatibilidade com outros instrumentos de planejamento

O documento contendo a alteração programática menciona:

As alterações no Programa de Metas preservam as diretrizes estabelecidas pelo Plano de Governo eleito em 2020, a conformidade com o Plano Diretor Estratégico, a integração com o Plano Plurianual 2022-2025 e a compatibilização com os demais documentos de planejamento público de médio e longo prazos, como os relacionados às políticas setoriais.

No entanto, vemos que a alteração vai na contramão das diretrizes estabelecidas em dois importantes instrumentos de planejamento. 

O Plano de Segurança Viária (Decreto nº 58.717, de 17 de abril de 2019), estabelece no Artigo 2o, Inciso I, que dentre seus os objetivos está “I – propiciar a redução do número de mortes e lesões graves e promover a segurança do trânsito.”

No Plano Plurianual 2022-2025 (Lei nº 17.729 de 28 de dezembro de 2021), consta como indicador de acompanhamento a redução de mortes no trânsito, vinculado ao Programa 3009 – Melhoria da Mobilidade Urbana Universal.

4. Outras alterações no tema de mobilidade e incompatibilidade com o Plano Diretor

Além da redução da Meta 39, foram realizadas outras alterações:

Meta 45 

De: Implantar corredores de ônibus no modelo BRT (Bus Rapid Transit) na Avenida Aricanduva e na Radial Leste.

Para: Viabilizar a implantação de corredores de ônibus no modelo BRT (Bus Rapid Transit) na Avenida Aricanduva e na Radial Leste

Meta 47 

De: Implantar quatro novos terminais de ônibus. 

Para: Viabilizar a implantação de quatro novos terminais de ônibus.

Meta 49 

De: Aumentar em 420 quilômetros a extensão de vias atendidas pelo sistema de ônibus. 

Para: Meta excluída 

Meta 83 

De: Implantar 200 quilômetros de novas faixas azuis para motociclistas (Programa Faixa Azul), com foco na promoção da segurança viária.

Para: Nova meta

O conjunto de alterações está em contradição com o Plano Diretor:

Plano Diretor Estratégico 2014

Art. 6º A Política de Desenvolvimento Urbano e o Plano Diretor Estratégico se orientam pelas seguintes diretrizes:

XI – prioridade no sistema viário para o transporte coletivo e modos não motorizados;

Art. 7º A Política de Desenvolvimento Urbano e o Plano Diretor Estratégico se orientam pelos seguintes objetivos estratégicos:

IV – expandir as redes de transporte coletivo de alta e média capacidade e os modos não motorizados, racionalizando o uso de automóvel;

Art. 227. Os objetivos do Sistema de Mobilidade são:

I – melhoria das condições de mobilidade da população, com conforto, segurança e modicidade, incluindo os grupos de mobilidade reduzida;

III – aumento da participação do transporte público coletivo e não motorizado na divisão modal;

VI – promoção do desenvolvimento sustentável com a mitigação dos custos ambientais e socioeconômicos dos deslocamentos de pessoas e cargas na cidade, incluindo a redução dos acidentes de trânsito, emissões de poluentes, poluição sonora e deterioração do patrimônio edificado;

Art. 228. Os programas, ações e investimentos, públicos e privados, no Sistema de Mobilidade devem ser orientados segundo as seguintes diretrizes:

I – priorizar o transporte público coletivo, os modos não motorizados e os modos compartilhados, em relação aos meios individuais motorizados;

O Programa de Metas foi uma importante conquista da Cidade de São Paulo, tendo se tornado uma referência para diversos municípios do país e internacionalmente. Para que ele possa continuar mantendo a finalidade para o qual foi criado: de estabelecer um compromisso entre o Prefeito eleito e a população, é preciso que as “alteração programática” não seja utilizada como subterfúgio para realizar mudanças profundas nesse compromisso sem o mesmo nível de transparência.

Em relação ao tema da segurança no trânsito, não podemos aceitar que um tema tão importante como um dos principais motivos de mortes violentas deixe de ser um objetivo a ser perseguido pela gestão do Prefeito Ricardo Nunes, substituindo-as por ações pontuais e insuficientes.

Continuaremos defendendo que nenhuma morte no trânsito é aceitável!

Nota pública contra a circulação e o estacionamento de carros nos calçadões do Centro de SP

Nos últimos dias, verificamos que a Prefeitura de São Paulo está implementando uma sinalização para permitir a circulação e o estacionamento de carros nos calçadões históricos da cidade. As organizações abaixo assinadas repudiam essa política. Alertamos que ela é contrária ao interesse público e que está sendo implantada de maneira autoritária.

Essa medida é extremamente equivocada, insegura e repleta de erros técnicos, revelando um desconhecimento da dinâmica da mobilidade e das necessidades urbanísticas do centro. Tal delimitação de faixas, ao invés de favorecer a partilha, marca uma cisão. Consagra os automóveis, colocando pedestres e ciclistas em risco. Precariza a infraestrutura de mobilidade a pé. E, pior, contraria as legislações federal – como a Política Nacional de Mobilidade Urbana – e municipal – como o Plano Diretor Estratégico,  o Plano de Mobilidade Urbana e o Plano de Ação Climática do Município. As leis são claras: o poder público deve priorizar os modais ativos e desincentivar o uso do automóvel. A Prefeitura viola, até mesmo, o Código de Trânsito Brasileiro que, em seus artigos 29-V e 181-VIII, garante a segurança dos pedestres nos calçadões. 

A justificativa dada pela municipalidade é que a criação desse estacionamento aumentaria o público do Theatro e, portanto, traria mais segurança. Isso é um equívoco. Aumentar vagas para carros apenas fará com que as pessoas saiam do transporte coletivo e passem a ir de automóvel. Isso, inclusive, vai aumentar o congestionamento das pequenas ruas do centro. Convenhamos, São Paulo não precisa de mais pontos de engarrafamento. 

A Prefeitura está criando problemas. Ela não vai melhorar o acesso ao Theatro com algumas dezenas de vagas. A capacidade do Municipal é de 1523 pessoas. Só um transporte público de qualidade é capaz de transportar essa quantidade de usuários. As vagas, portanto, são inúteis.

Essa política também é elitista, pois pressupõe que os frequentadores do Theatro Municipal não poderiam utilizar o transporte público, alegando “problemas de segurança”. Ora, a Prefeitura tem muitos mecanismos para aumentar a circulação de pessoas e, assim, melhorar a segurança. A SPTRANS, por exemplo, pode determinar que os ônibus atendam todos os pontos do centro, após as 19h. O cidadão, então, poderia descer mais perto do Theatro. A autarquia também poderia mover os pontos de ônibus para as esquinas, aproximando-os das faixas de pedestres. Isso melhoraria a qualidade dos deslocamentos e também a segurança (principalmente das mulheres, que não mais ficariam “abandonadas” no meio de um quarteirão). O Município, ademais, pode reduzir drasticamente o preço das passagens. Essa seria uma medida eficaz para trazer mais pessoas aos equipamentos de cultura do centro. Além disso, a Prefeitura pode posicionar a Guarda Civil no percurso entre terminais de ônibus e estações do Metrô até o Theatro. Alternativas não faltam.

Está claro que a circulação de carros e o estacionamento sobre os calçadões degradam a mobilidade ativa. Mesmo à noite, há pessoas caminhando nos calçadões e pedalando nas ciclovias. Esses cidadãos se sentirão inseguros com o tráfego de veículos. Tal medida, portanto, pode reduzir o número de pedestres e de ciclistas. A Prefeitura, ao implantar esse estacionamento, vai na contramão das principais cidades globais, que vem criando mais calçadões e mais ciclovias nas regiões centrais.

Acreditamos que as ruas podem ser prazerosas, e não apenas um lugar em que se entra dentro de um carro. O Município precisa criar ações de ocupação do espaço público. Com brinquedos, com praças, com arborização. Com agentes de educação, de cultura, de assistência social e de saúde. Queremos garantir a segurança e o bem-estar de todos, e não apenas de alguns motoristas. 

E se mesmo assim a Prefeitura quiser criar mais vagas de estacionamento, que o faça retirando espaço dos carros. Temos várias sugestões. As margens das ruas Xavier de Toledo, Quirino de Andrade, Conselheiro Crispiniano, Sete de Abril e 24 de Maio, das Avenidas São João e Ipiranga, da Praça Ramos de Azevedo e do Viaduto do Chá estão subutilizadas no período noturno. Não há nada que justifique tirar espaço dos pedestres para dar a automóveis particulares. 

Não podemos esquecer que o espaço público vem sendo tratado como estacionamento em vários lugares. Há carros que param sobre calçadas, sobre escadarias e sobre ciclovias na cidade toda, principalmente nas periferias. E a Prefeitura tem fechado os olhos para isso.

Todos esses “erros” são facilmente identificáveis. Essa política – tão incorreta, tão insegura – só saiu do papel porque não houve diálogo com os cidadãos. Não houve uma reunião, uma audiência pública. Demandamos que a Prefeitura converse com os vereadores, com a sociedade civil, com os órgãos técnicos e com os movimentos que questionam essa medida. E que, então, abdique desse absurdo.

Assinam:

Conselheiros do Conselho Municipal de Trânsito e Transportes

Participantes da Câmara Temática de Mobilidade a Pé

Cidadeapé – Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo

Aliança Bike – Associação Brasileira do Setor de Bicicletas

ANTP – Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Acessibilidade

Bike é Legal / Renata Falzoni

Bike Zona Oeste

Bike Zona Sul

BrCidades – Núcleo São Paulo

CAU-SP

Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos

Ciclo-Comitê Popular de Luta de São Paulo

Cicloação

CicloCentro_SP

Ciclocidade – Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo

Cidade Ativa

Coalizão Clima e Mobilidade Ativa

Coletivo Helen Keller

Coletivo Monta Mona

Coletivo Pedal Verde

Comitê de Mobilidade e Transporte do Butantã

Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência

Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor

Instituto Corrida Amiga

IAB-SP

Instituto Pólis

LabCidade FAUUSP – Laboratório Direito à Cidade e Espaço Público da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo

Metrópole 1:1

Pastoral da Pessoa com Deficiência da Arquidiocese de São Paulo

Pedalagem

Pluri.urb

Polo Planejamento

SampaPé!

SOS Transportes M’Boi Mirim

A sua organização quer fazer parte desse movimento? Envie um email para contato@cidadeape.org e assine a nota pública.

Imagem: Estadão

Mobilidade Ativa: Planejamento Urbano e Cidades Amigáveis

Qual é a forma mais sustentável para as pessoas se locomoverem nas cidades? A capital paulista tem algo em torno de 9 milhões de veículos registrados em sua base territorial. Entretanto, a maioria da população usa transporte público para se deslocar pela cidade.

A dependência em relação aos carros tornou a vida bastante complicada: trânsito intenso, engarrafamentos intermináveis e aumento da poluição atmosférica, com todos os problemas de saúde associados. Alguma saída à vista? A mobilidade ativa é uma das soluções possíveis para o problema do deslocamento nas cidades, principalmente quando é pensada de forma integrada com o transporte público.

No programa Direito et al a entrevistada foi nossa associada Meli Malatesta falou sobre a mobilidade ativa, uma forma de deslocamento não motorizado, baseado na propulsão humana e muito mais.

Confira abaixo a entrevista completa.

Dá pra ir a qualquer lugar a pé, se você estiver disposto o bastante

Oliver Cauã, Diretor Financeiro da Cidadeapé, teve uma conversa com o pessoal do Transportar é Preciso sobre as cidades e os modais de transporte.

Andar a pé é o meio de transporte mais utilizado no mundo, o mais antigo e ao mesmo tempo o mais desvalorizado é . Estudos e pesquisas realizados indicaram que 1/3 do território da cidade de São de Paulo é ocupado por vagas para carros.

Até o metrô de São Paulo teve em seu projeto original o objetivo de reduzir a quantidade de ônibus em circulação nas avenidas. Tudo isso para favorecer o automóvel. Nesse sentido, o programa também abordou o problema dos carros elétricos: aumentam o custo da energia, tem problemas de sustentabilidade da bateria e não reduzem o espaço ocupado nas cidades.

Para melhorar nossa cidade, devemos apostar mais na mobilidade ativa e sustentável, que é aquela em que o indivíduo usa a própria energia pra se locomover, além de contar com veículos individuais de transporte e transporte coletivo.

Confira a conversa e inspire-se para contribuir na melhora da mobilidade urbana nas cidades!

Eleições do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito | Biênio 2022 – 2024

A Cidadeapé apresentou dois candidatos para a cadeira de Mobilidade a Pé do Conselho de Transportes da cidade de São Paulo – um lugar de debates e propostas para melhorar a mobilidade em São Paulo e é muito importante a gente trazer o pedestre para o centro das discussões.

A votação foi online e aconteceu nos dias 16 e 17 de fevereiro e ambas candidaturas – Mauro Calliari e Gabriela Morita – foram exitosas. Nossos Conselheiros/Representantes tomaram posse na sexta-feira, dia 25 de fevereiro. Os eleitos e todas as informações sobre o CMTT podem ser acessadas por meio deste link.

Conheça o perfil dos Conselheiros e o que eles esperam para a próxima gestão.

Mauro Calliari: Foi muito bom ter feito parte da última gestão do conselho e foi por isso que decidi concorrer a mais um mandato. O acompanhamento de perto das pautas da mobilidade permite enxergar os gargalos do poder público e os humores da sociedade em relação ao tema da mobilidade a pé. Sinto que esse trabalho de formiguinha pode dar frutos, se conseguirmos conciliar o respeito institucional à combatividade do dia a dia. É preciso mudar o jeito de olhar para o andar a pé. Não é ‘dar um passeio’. É se deslocar pela cidade, até a escola, o posto de saúde e, claro, até os pontos de transporte público. Vamos ficar de olho nos problemas e nos projetos que podem ajudar a melhorar a mobilidade a pé: o calçadão do centro, as áreas calmas, as rotas escolares, os acessos aos terminais e, claro, as calçadas! Estou feliz em ter sido reeleito, desta vez junto com a Gabriela Morita.

Gabriela Morita: Compor a gestão atual do Conselho é, certamente, mais um passo importante em direção à construção democrática e coletiva para uma mobilidade urbana mais segura, humana e sustentável. O CMTT viabiliza um espaço relevante para que o debate entre os setores que o compõem aconteça de forma acessível. Ainda há muitas transformações a serem consideradas na pauta de mobilidade no município de São Paulo – bem como em outros diversos municípios do país -, acredito que é fundamental utilizar esse espaço para apresentar as reais prioridades nos deslocamentos a pé e compartilhar um pouco mais sobre as principais percepções, desafios e oportunidades que o caminhar oferece, até porque, o andar a pé está envolvido em todos os deslocamentos, seja por meio do uso de bicicletas, ônibus, metrô, carro particular, motocicleta ou outros. Agradeço a todes pelo voto de confiança, estou animada por estar nessa jornada a favor de cidades mais caminháveis junto ao Mauro!

Desejamos sucesso e contem sempre com a Cidadeapé!

Deficientes são as cidades, não os seus cidadãos

Quando ambientes, serviços, equipamentos, produtos ou instrumentos inexistem ou não podem ser utilizados plenamente, pessoas são impedidas de desenvolver atividades cotidianas

Por Helena Degreas. Originalmente publicado em JP News

Cidades com deficiências são aquelas que apresentam espaços e ambientes que impedem ou dificultam o acesso, a participação e a interação do cidadão, independentemente de qualquer perda ou anormalidade relacionada à sua estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatómica. Convido os leitores para que, comigo, mudem o foco da abordagem sobre as deficiências, transferindo para as cidades e os ambientes construídos a incapacidade em atender de maneira digna e eficaz a diversidade das habilidades e capacidades inerentes aos seres humanos.

Todas as pessoas são únicas e nascem com habilidades e capacidades que, desenvolvidas, levam à realização de seus sonhos. Podem ser profissionais, familiares, emocionais, sociais, financeiras, entre outras tantas. Quando os ambientes, serviços, equipamentos, produtos ou instrumentos inexistem ou não podem ser utilizados plenamente em função de suas dimensões (ou por concepção equivocada em seu design), as pessoas são impedidas de desenvolver suas atividades cotidianas no âmbito social, profissional, pessoal ou familiar. A deficiência está “na coisa” propriamente dita, incapaz de ser utilizada.

Ao longo de todos os anos em que trabalhei como arquiteta e urbanista, não conheci ninguém que apresentasse as proporções renascentistas do Homem Vitruviano, cuja ilustração de Leonardo da Vinci, inspirado na obra De Architectura, do arquiteto romano Vitruvius Pollio, inspirou a métrica utilizada na concepção, projetos e planejamento de edifícios, cidades e tudo o que encontra-se à nossa volta que pode viabilizar, dificultar ou impedir a realização das tarefas e ações do nosso cotidiano de vida. O desenho retrata um homem nu com os braços e mãos estendidos, inscrito em um círculo e um quadrado, com todas as proporções perfeitas. O autor buscou relacionar espaços ao corpo, defendendo que os edifícios e seus ambientes deveriam basear-se na simetria e proporções da forma humana. Para ele, a composição dos “recintos dos deuses imortais” apenas seria alcançada a partir da proporção exata ou da semelhança dos membros de uma figura humana bem constituída.

Em meados do século passado, o arquiteto franco-suíço Charles-Édouard Jeanneret-Gris — mais conhecido como Le Corbusier—, deu nova abordagem às pesquisas de Da Vinci e Vitrúvio, buscando encontrar a relação matemática entre as medidas do homem com a natureza por meio de um sistema de medidas em escala humana a partir da proporção áurea e da sequência de Fibonacci. Conhecido como Modulor, o sistema de proporções foi amplamente utilizado no período pós-guerra ao tornar viável a produção de edifícios e unidades habitacionais em larga escala e com o menor espaço possível, mas, ainda assim, funcionais. As medidas padrão? Um indivíduo homem, imaginário, com 1,75 m. Mais tarde, com 1,83 m de altura.

Tanto num caso como no outro, as medidas utilizadas para a construção de objetos ou espaços para edifícios e cidades foram concebidas a partir de uma figura humana especial capaz de representar todos as pessoas: homem branco, jovem, saudável e europeu. Todos os demais seres humanos não foram retratados pelas normas e legislações vigentes à época. Foi só a partir dos anos 1960 que movimentos sociais oriundos dos países nórdicos e da Inglaterra questionaram a métricas vitruvianas da “figura humana bem constituída”, chamando a atenção para a necessidade de respeito à diversidade das capacidades e habilidades de outros grupos sociais incluindo neles: as crianças, as mulheres, os idosos e as pessoas com deficiências funcionais diversas.

Cidades e edifícios foram predominantemente construídos a partir de métricas incompatíveis com a diversidade humana. As mudanças necessárias para a adaptação dos espaços e dos objetos, apesar dos mais de 50 anos do início das discussões, ainda são incipientes quando se trata de políticas públicas. Colocar uma rampa aqui ou consertar uma calçada ali via PEC (Programa Emergencial de Calçadas da cidade de São Paulo, que prevê alteração de pisos etc.) é risível frente à urgência dos impactos negativos causados na vida das pessoas. Numa sociedade democrática, não é possível considerar comum ou normalizar o impacto social, ambiental e econômico dos maus-tratos de cidades, cujos gestores, ainda hoje, são pouco afeitos à importância do planejamento de ações que levem à plena acessibilidade do ambiente construído, no acolhimento e inclusão de seus cidadãos. 

Ainda mais inaceitável é saber que barreiras físicas provenientes da ausência do planejamento e gestão dos espaços públicos destinados aos cidadãos, impeça ou dificulte a expressão das potencialidades de grupos sociais. Fragmentados em dezenas de secretarias, órgãos, departamentos e pessoas encontra-se a gestão de todo o mobiliário público e infraestrutura urbanas. Postes, fiações, lixeiras, bancas de jornal, tapumes de obras, gradis, árvores, mesas e cadeiras em calçadas, sinalização horizontal (faixas de pedestre) e vertical (semáforos, nomes de ruas), têm manuais próprios para implantação nas ruas de uma cidade sendo, cada um destes elementos que citei, gerenciado por diferentes áreas. Sem projeto claro, o espaço das ruas é resultado de um amontoado de departamentos. São dezenas de permissionárias e concessionarias municipais, estaduais e federais que atuam isoladamente nas ruas. Como garantir qualidade de atendimento à diversidade de capacidades e habilidades humanas se cada um faz o que lhe é mais conveniente? Onde está a política pública capaz de iniciar o processo de transformação?

Mais do que carros elétricos, precisamos mesmo é da ‘desmobilidade urbana’

Por Ricardo Abramovay. Originalmente publicado no UOL

As montadoras ficaram indignadas com a decisão do governo francês de tratar a publicidade de automóveis de forma semelhante à de cigarros. A partir de março de 2022, os anunciantes terão que lembrar ao público que bicicletas, caminhadas, compartilhamento de veículos e transportes públicos são melhores do que o uso individual do carro. E, em 2028, a propaganda de SUV será simplesmente proibida, por decisão do parlamento.

A orientação governamental francesa é coerente com a política da cidade de quinze minutos, ou seja, com a ideia de que as infraestruturas de mobilidade deveriam permitir que os deslocamentos cotidianos das pessoas não ocupassem mais que quinze minutos de seu tempo. É a resposta a um dos mais importantes paradoxos contemporâneos: o automóvel individual, símbolo da liberdade, dos espaços amplos percorridos em pouco tempo, converteu-se em seu contrário, em sinônimo de congestionamento, paralisia, desperdício de recursos materiais e um dos mais neurotizantes ícones da vida moderna. A violência verbal e gestual a que os indivíduos são propensos dentro de seus carros é muito mais rara quando se deslocam a pé ou de bicicleta…Faz parte deste paradoxo o fato de que, na esmagadora maioria das cidades dos países em desenvolvimento os proprietários de veículos individuais ocupam a maior parte do espaço de circulação e desfrutam de investimentos públicos voltados a melhorar o trânsito, com resultados próximos aos de quem enxuga gelo.

Daí a importância da desmobilidade, neologismo vindo da França no início dos anos 2000 e que ganhou ainda maior projeção com a intensificação do teletrabalho na pandemia. Como mostra Julien Damon, um de seus mais importantes estudiosos, “desmobilidade” não é paralisia. É, antes de tudo, a capacidade de evitar os deslocamentos penosos. Trata-se de reduzir as viagens longas e sofridas a que sobretudo os mais pobres estão sujeitos — e aumentar aquelas feitas por opção e em condições dignas.

Mas a desmobilidade enfrenta obstáculos notáveis. Estes obstáculos são um bom exemplo das dificuldades ligadas à própria luta contra a crise climática. A distribuição das pessoas e das atividades (econômicas, culturais, de lazer) nas cidades é muito diversificada. Há cidades caracterizadas por densidade populacional nas áreas onde se concentram as atividades e os serviços e onde a meta de deslocamentos rápidos pode ser atingida a um custo relativamente baixo. Em geral, são cidades que, durante o século 20, construíram redes densas de transportes coletivos e onde atividades comerciais e residências não estão rigidamente separadas. Estas cidades aproximam-se daquilo que preconiza a agência da ONU especializada neste tema, o Habitat: cidades compactas, conectadas e integradas.
Há outras cujo desenho urbano vai na direção contrária — e onde o transporte por coletivos movidos a diesel ou gasolina, percorrendo longas distâncias e enfrentando congestionamento, é o que domina parte significativa dos deslocamentos.

Paraisópolis, em São Paulo Imagem: André Lucas/UOL

Um estudo recente do Centre for Cities compara a mobilidade em aglomerações urbanas britânicas com o que prevalece no restante da Europa. Nas cidades do continente, 67% das pessoas chegam dos subúrbios ao centro em no máximo 30 minutos. Nas cidades britânicas abordadas no estudo, este total não vai além de 40%. Isso não se deve a superfícies maiores ocupadas pelas cidades britânicas quando comparadas às do restante da Europa, mas sim ao fato de que no continente mais gente mora em áreas centrais e perto dos transportes coletivos.

A ineficiência da rede britânica de transportes (em função dos padrões dispersos de ocupação de seus territórios urbanos) tem um custo anual de £23,1 bilhões (R$ 165 bilhões). Este custo deriva basicamente do fato de que a distância dos grandes centros reduz o acesso das pessoas aos melhores empregos e diminui os efeitos positivos das aglomerações e, portanto, da produtividade e do desempenho da economia. Roma e Manchester, por exemplo, têm o mesmo tamanho, mas, pelos cálculos do Centre for Cities, Roma é 55% mais produtiva que Manchester — em grande parte, pela diferença no tempo de acesso aos centros onde estão situados os empregos e os serviços mais importantes.

A mensagem do estudo é que não basta eletrificar a frota de veículos. Trânsito entupido e longas distâncias com veículos elétricos (ou a movidos a etanol) é melhor que com automóvel a gasolina ou diesel. O mais importante, porém, é valorizar as áreas próximas às estações de transportes coletivos e, sobretudo, impedir o esvaziamento populacional dos grandes centros.

Claro que este é um tema que envolve as prefeituras, mas, ao mesmo tempo, tem uma dimensão nacional decisiva. Programas como o Minha Casa Minha Vida (que, como mostra Leão Serva, era chamado por Jaime Lerner de Minha Casa, Minha Vida, Meu Fim do Mundo) ampliam os “custos de morar longe”, como foi largamente demonstrado pelos trabalhos do Instituto Escolhas.

Reocupar os centros, impor sanções tributárias pesadas a imóveis vagos aí situados, estimular formas diversificadas de uso nestas áreas pela convivência de residências com comércio, centros culturais, atrações gastronômicas e artísticas são formas de luta contra o apartheid territorial de nossas cidades. É uma das mais emblemáticas expressões da ideia de que o desenvolvimento sustentável, mais do que soluções tecnológicas (sem dúvida, importantes) supõe e abre amplas oportunidades de reorganização social.

Cidades compactas, conectadas e integradas, onde todos tenham acesso rápido ao trabalho, aos serviços, à cultura, à socialização construtiva e ao lazer é a tradução, para a vida urbana, da urgência contida na ideia de justiça ambiental. Por maior que seja a importância do carro elétrico, é a desmobilidade que vai melhorar a vida urbana e contribuir à redução das desigualdades.