“Maratona de mapeamento de calçadas, dia 28, em todo o Brasil. Participe!”

Publicado originalmente em: Mobilize Brasil
AutorDu Dias
Data: 18/03/2015

A Rede Corridaamiga vem se formando desde o início de 2014, com o objetivo de estimular a prática da corrida de rua como meio de transporte. Como usuários em contato direto com as vias públicas, os idealizadores da rede passaram a atuar também de forma política, defendendo melhorias nas estruturas urbanas. E uma das ferramentas desenvolvidas para este fim foi uma plataforma, em parceria com o Cidadera, que permite ao usuário registrar problemas ou condições adversas em seu trajeto por meio de um aplicativo ou plataforma on-line.

Pela utlização deste aplicativo, os integrantes da rede planejam fazer um happening no próximo dia 28 de março, batizado de #CalçadaCilada. O objetivo é reunir num mesmo dia colaboradores em várias cidades do país para uma verdadeira maratona de avaliação das calçadas nos municípios em que se encontram e compartilhar cada avaliação com quem acessar a plataforma ou baixar o aplicativo. A prioridade será dada para calçadas com grande fluxo de pedestres, como as proximidades de escolas e hospitais. A tecnologia é a mesma que alimenta a seção Mobilize-se, do Mobilize Brasil, em que todas as informações anexadas utilizando o aplicativo Cidadera ou a plataforma Corridaamiga#CalçadaCilada também ficam disponíveis no Mobilize e vice-versa.

Esta é a segunda edição da campanha #CalçadaCilada. Quando foi lançada, em 2014, incentivava os corredores de rua a postarem selfies pela cidade, sempre que encontrassem problemas nas calçadas. Segundo Silvia Stucchi, uma das fundadoras do Corridaamiga, a ferramenta visa a facilitar a ação cidadã e ampliar o olhar para um espaço que se tornou “invisível”. “O aumento do transporte ativo pode trazer como desdobramentos uma pressão natural não só sobre o setor público, como também sobre o privado (para sanar todas as barreiras que encontramos hoje)”, explica Silvia.

A iniciativa, uma realização do Corridaamiga em parceria com o Cidade Ativa e Desenhe Sua Faixa, conta com o apoio de várias organizações como o Mobilize e: Guia Voluntários Corpore, Anjos que correm, Corrida Social, Pé de Igualdade, Bike Anjo, Cidadera, Cidade Ativa, Milalá, MoveBrasil, Missiorama, DressMeUp, Respeite Um Carro a Menos, EditoraMol (Livro Eu Amo Correr), Desenhe sua Faixa, SampaPé, oGangorra, Rock&Run, Amo Correr, Catraca Livre, Jornalistas que Correm, Instituto Mara Gabrilli, GepafUSP, Cidadera, Programa Agita São Paulo, Nosso Pinheiros e Photo Extreme.

Como participar

1) Baixe o aplicativo para Android ou iOS clicando neste link;

2) Com seu smartphone ou tablet em mãos, registre e compartilhe os problemas nas calçadas que encontrar no seu dia a dia;

3) No dia 28/03, saia para uma caminhada ou corrida com seus amigos e estimule os a fazer e compartilhar novas avaliações;

Caso não possua tablet ou smartphone, faça sua avaliação e compartilhe acessano um dos três endereços a seguir: a página da campanha #CalçadaCilada; a seção Mobilize-se, do Portal Mobilize Brasil, ou a página doCidadera

Alguns exemplos do que denunciar

  • Calçada obstruída;
  • Tempo de travessia insuficiente do semáforo para pedestres;
  • Semáforo de pedestres quebrado;
  • Falta de sinalização para pedestres;
  • Calçada para pedestres em mau estado;
  • Faixa de pedestres em mau estado;
  • Ausência de faixa de pedestres.

“Prefeitura de SP recebe sugestões para melhorar a mobilidade a pé”

Publicado originalmente em: Mobilize Brasil
Autor:  Marcos de Sousa
Data: 16/03/2015

Entidades da sociedade civil, entre elas o Mobilize Brasil, prepararam documento com sugestões e recomendações para melhorar o Plano Diretor de Mobilidade Urbana da cidade de São Paulo. O trabalho foi entregue hoje (16) ao secretário Municipal de Transportes Jilmar Tatto.

A iniciativa é da ativista Letícia Sabino, que colheu sugestões de várias organizações que trabalham para melhorar a mobilidade do pedestre como forma de aperfeiçoar o Plano de Mobilidade 2015 em gestação pela Prefeitura de São Paulo.

O trabalho foi iniciado dentro do GT de Mobilidade a Pé da ANTP após a constatação de que as propostas para o Plano de São Paulo pouco atendiam às necessidades de milhões de pessoas que transitam a pé ou em cadeiras de rodas na capital paulistana.

Assim, melhorias nas calçadas, instalação de bancos, árvores, iluminação e lixeiras, além de sinalização adequadas estão incluídas na proposta entregue ao secretário, com o objetivo de estimular as viagens a pé nas calçadas da cidade. O artigo 9º sugere textualmente:

Art 9 – Definir uma política pública para a melhoria das calçadas considerando as particularidades de cada área da cidade, priorizando áreas de grande fluxo de pedestres e de maior risco. Levando em conta políticas públicas e as diferentes fontes de investimento, tais como:
§ 1. Investimento público;
§ 2. Investimento das concessionárias de serviços que utilizam as calçadas (como energia, gás, telecomunicações e saneamento);
§ 3. Investimento de grandes empreendimentos geradores de tráfego;
§ 4. Investimento privado.

Entre várias outras sugestões, o documento sugere a participação cidadã nos projetos que envolvam melhorias e alterações na sinalização voltada a pedestres, ciclistas e usuários do transporte público.

O texto também propõe a criação de diretorias específicas de mobilidade a pé na CET e na SPTrans, além da transformação da Secretaria de Transportes em Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana.

Assinam as organizações: Acupuntura Urbana | Cidade para as Pessoas | Cidade Humana | Comissão Técnica de Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP | Corrida Amiga | Desenhe Sua Faixa | GreenPeace | Instituto Mobilidade Verde | ITDP Brasil | Minha Sampa | Movimento 90º | Mobilize Brasil | MUDA práticas culturais e educativas | Pé de Igualdade | SampaPé! | SP Negócios | SP para o Pedestre

Para saber mais, acesse o link www.mobilize.org.br/midias/pesquisas/diretrizes-para-o-plano-de-mobilidade-urbana-2015.pdf

“Moradores pintam faixa de pedestres na Vila Beatriz”

Publicado originalmente em: Gazeta de Pinheiros
Data: 13/03/2015

Segundo a vizinhança, além da ausência de uma faixa de pedestres a iluminação do local é precária

Cansados de esperar por uma faixa de pedestres solicitada à Prefeitura de São Paulo na Rua Pascoal Vita, moradores da Vila Beatriz fizeram a intervenção viária por conta própria. No último domingo (8), eles interditaram um trecho em declive da via, onde costumam descer carros em alta velocidade.

Segundo a vizinhança, além da ausência de uma faixa de pedestres a iluminação do local é precária, o que dificulta a visualização dos veículos durante a noite. Para pintar a travessia no asfalto, os moradores bloquearam o tráfego com cavaletes que exibiam a seguinte frase: “Bom dia! Esta quadra está interditada para a pintura de uma faixa de pedestres. Colabore. A cidade é das pessoas”. O contorno das faixas foi definido com o auxílio de fitas crepes.

A faixa de pedestre na Rua Pascoal Vita foi pintada próximo ao cruzamento com a Rua Natingui, onde o publicitário Vitor Gurman, 24 anos, morreu em 2011 ao ser atropelado por um veículo do modelo Land Rover que estava acima da velocidade permitida na via.

Iniciativa semelhante a dos moradores da Vila Beatriz ocorreu em 2010 no cruzamento da Rua dos Pinheiros com a Rua Mateus Grou, também sob a alegação de demora na realização do serviço de sinalização viária. No mesmo ano, rotas preferenciais para ciclistas foram pintadas por grupos cicloativistas de maneira ilegal em diversas pontes de acesso à Marginal Pinheiros.

“Fotos sobre tapume propõem olhar mais atento à calçada paulistana”

Publicado originalmente em: Mobilize Brasil
Autor: Regina Rocha / Mobilize Brasil
Data: 02/03/2015

Mostra com cenas urbanas e foco em calçamento histórico de São Paulo é exposta em plena rua, de modo a ser vista por todos os que passam diante de um tapume de obra

Quem passar a pé pelo bairro de Higienópolis, na região central de São Paulo, não pode deixar de parar e observar as imagens que recobrem os tapumes de uma obra no número 200 da rua Dr. Gabriel dos Santos.

Nesse suporte pouco usual, o fotógrafo Duda Groisman montou sua exposição fotográfica Por onde vou, que destaca um calçamento paulistano  – de ladrilho hidráulico, com a estampa do diagrama do estado – concebido há quase 50 anos (por Mirthes dos Santos Pinto), e que se tornou um ícone da capital.

Esse piso, que persiste em várias calçadas da cidade, conta uma história pouco conhecida dos próprios cidadãos, que sempre apressados, não tem tempo de refletir sobre seus próprios percursos. Assim, essa intervenção e produção artística no ambiente urbano tem a intenção de fazer o resgate dessa história da cidade, materializada num produto emblemático, e levar os passantes, protagonistas das imagens, a refletirem sobre seus caminhos.

Foto tira partido do reflexo da popular calçada com o diagrama de SP.  Foto: Duda Groisman

Foto tira partido do reflexo da popular calçada com o diagrama de SP.
Foto: Duda Groisman

 

Percepção da cidade

Duda Groisman, um administrador de empresas que em 2009 trocou o mundo corporativo pela fotografia, explica seu interesse por esse tema que, esclarece, é apenas uma parte do seu interesse maior pela vida da cidade, pelo ambiente urbano: “Deixei de usar o carro no dia a dia e, ao me deslocar caminhando, de bicicleta ou de transporte público, fui mudando minha percepção da cidade. Muita coisa passou a chamar minha atenção, como  observar este calçamento, sobre o qual pouca gente tem informação; eu mesmo não conhecia sua história, e veja que ele está aí desde 1966!”.

Pouco antes do dia 25 de janeiro, aniversário da cidade, Groisman viu a oportunidade de realizar esta mostra nos tapumes de uma obra em construção (da Think Construtora, parceira no projeto), e a série de fotos que tinha sobre o calçamento veio a calhar. “A ideia me agradou por ser uma intervenção urbana e democrática, ficando a vista de todos, 24 horas por dia, por muito tempo, diferente do que acontece em outros espaços expositivos. E o tema tinha ligação com a cidade, sua história, e com a arquitetura e design, por se tratar de uma obra, incluindo o restauro de dois casarões”, explicou.

Para o fotógrafo, interessa também levar as pessoas a se fixarem mais na paisagem urbana. “A grande maioria passa sem notar, não apenas o passeio, mas outros tantos detalhes da cidade. Claro que o paulistano até olha o chão por onde anda, pois se não, pode cair (risos) nos buracos de nossas calçadas mal cuidadas. Mas no dia a dia não vai olhar como observador, curioso das formas, materiais…”

A mostra “Por onde vou” ocupa o tapume de cerca de 38 m X 2,10 m, com 11 fotos em tamanho grande (para ser vista também por quem passa de carro ou na calçada oposta, explica o fotógrafo). E tem como cenário o calçamento dos bairros de Higienópolis, Santa Cecília, Barra Funda, Jardins e Centro.

Mostra fotográfica “Por onde vou” de Duda Groisman
Endereço: Rua Dr. Gabriel dos Santos, 200 – Higienópolis – São Paulo
Referência: próximo à estação Marechal Deodoro do metrô
Quando: por tempo indeterminado
Mais sobre a história do calçamento paulistano: www.facebook.com/porondevou

“Cruzamento na Rua da Consolação recebe Faixa de Pedestres Diagonal (em “X”)”

Publicado originalmente emSecretaria Municipal de Transportes
Autor: Departamento de Imprensa – CET
Data: 03/03/2015

Ativação será nesta terça-feira, dia 03. Este é o quarto endereço no Centro da Cidade a receber a sinalização diferenciada. Modelo é baseado em prática utilizada em Tóquio e visa dar mais segurança aos pedestres

Em continuidade às ações voltadas ao aumento da segurança do sistema viário, a Secretaria Municipal de Transportes, através da Companhia de Engenharia de Tráfego – CET, ativa, a partir de terça-feira (03/03), travessia de pedestres nas diagonais do cruzamento da Rua da Consolação com as ruas Caio Prado / Maria Antônia / Doutor Cesário Mota Junior.

A iniciativa está integrada ao Projeto Centro Aberto, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU). O projeto prevê, entre outras ações, qualificar os espaços físicos, promover atrações culturais nas ruas, bem como otimizar e qualificar ações de proteção e priorização de pedestres e ciclistas na Região Central.

Esta faixa de pedestres em “X” visa facilitar a vida dos pedestres que, ao invés de efetuarem a travessia em duas etapas distintas (uma via por vez) para atingir a esquina oposta, poderão fazê-lo em uma única vez, conforme folha informativa anexa.

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A pesquisa de contagem de travessia de pedestres realizada no cruzamento apresenta uma estimativa de volume médio de pedestres no 2200 pessoas/hora no período diurno.

Com base nesses dados, o cruzamento será contemplado com a implantação das novas faixas de pedestres, novas placas educativas criadas para informar a permissão da travessia na diagonal, sinalização semafórica de pedestres para atender a nova situação e propiciar tempo de travessia segura. Abaixo a ilustração da nova sinalização.

O tempo médio de travessia que, em duas etapas, é de 127 segundos; na diagonal, cai para 77 segundos. Um ganho de 50 segundos para os usuários que têm o desejo alcançar as calçadas das diagonais.

Este projeto é inspirado nos modelos de Tóquio. Em 8 de dezembro, foi implantada a primeira travessia em “X” do país no cruzamento das ruas Riachuelo e Cristovão Colombo, a partir da qual foram estabelecidos parâmetros e feitas as devidas avaliações. Em 26 de janeiro, o cruzamento das avenidas Ipiranga e São João foi o segundo a receber a novidade e, em 09 de fevereiro, o Viaduto do Chá com a Rua Xavier de Toledo também foi contemplado com as novas faixas.

Equipes da CET farão o acompanhamento das intervenções para garantir a segurança e a orientação aos transeuntes e motoristas.

Recomendações ao público

• Respeite a sinalização;
• Dê preferência ao uso de transporte público (Metrô, Ônibus e Táxi);
• Se necessitar pedir informações, proceda de forma a não atrapalhar a fluidez do trânsito;
• Não estacione em locais proibidos, frente a guias rebaixadas, em canteiros centrais, em fila dupla ou onde haja canalizações com cones e cavaletes;
• Não embarque ou desembarque em fila dupla ou afastado da calçada.

Fale com a CET – Ligue 1188. Atende 24 horas para informações de trânsito, ocorrências, reclamações, remoções e sugestões.

“A cidade andável”

Publicado originalmente em: Brasil Post
Autor: Mauro Calliari
Data: 02/03/2015

Vamos discutir a “andabilidade”

Enquanto as cidades brasileiras discutem seus planos de mobilidade, é preciso lembrar de quem anda a pé. Depois de décadas de planejamento urbano focado no uso do automóvel, o andar a pé voltou com força às discussões e à prática das grandes cidades pelo mundo.

Nos EUA, berço da cultura do carro, há uma nova geração que está se afastando do carro: em 1970, apenas 8% das pessoas com mais de 19 anos optaram por não tirar carta. Hoje são 23%!

Essas pessoas usam mais transporte público, mas também andam mais. Elas precisam de calçadas melhores, segurança e um cenário urbano minimamente prazeroso. Tudo isso pode ser chamado de “andabilidade”. Sim, a palavra é feia e nem existe em português. Mas o conceito é bom!

Quem aguenta caminhar 500 metros num lugar feio, com muros em volta, pode facilmente andar um quilômetro ou mais, se contar com calçadas seguras, que passam por lugares interessantes, com vitrines, mesas, bares, padarias, lojinhas, toldos, praças, largos, bancos e as surpresas que só quem caminha pode ter.

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Foto: Mauro Calliari

 

A vez dos pedestres

O livro Walkable City, de Jeff Speck* é uma boa maneira de contextualizar esse problema. Ele conta os aprendizados que os gestores municipais estão tendo:

Quem mora nos subúrbios anda menos. Em relação aos seus pares das grandes cidades, essas pessoas são mais obesas e têm mais problemas de saúde.

A densidade atrai talentos e estimula a inovação. Empresas já entenderam isso: quando estão recrutando jovens, fazem questão de ressaltar o argumento da vida urbana, vibrante, dinâmica, interessante, para atrair funcionários. Cidades competitivas oferecem um Starbucks e uma lavanderia na esquina e não mais o bucolismo idealizado do subúrbio.

Cidades mais andáveis criam mais valor. O preço por metro quadrado reflete isso: quanto mais andável, mais cara a vizinhança. Incrivelmente, corretores de imóvel já usam o indicador de “andabilidade” criado pela empresa WalkScore para atrair compradores para os imóveis localizados perto de comércio, lojas, amenidades, parques.

Moradores das cidades densas poluem, relativamente menos. Cada habitante de Nova Iorque polui muito menos do que a maioria das cidades americanas, mais espalhadas. Entretanto, cada habitante de Hong Kong, muito mais densa ainda, emite um décimo de CO2 do que os seus colegas de Manhattan.

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Foto: Mauro Calliari

 

Como tornar a cidade mais andável?

1. Adotar o ponto de vista do pedestre em vez do ponto de vista do motorista. A velocidade do deslocamento em carro não pode ser o único parâmetro de avaliação. Hoje, nossas rádios ficam colocando boletins a cada cinco minutos com o número de quilômetros de congestionamento, esquecendo-se de que dois terços dos deslocamentos de S.Paulo são feitos a pé ou em transporte público. As faixas de pedestre não podem ser encaradas como interrupções no tráfego e sim como prioridade para os trajetos. No cruzamento da Av. Brigadeiro Luiz Antonio com a Paulista, por exemplo, os pedestres têm que virar à direita, andar uns 20 metros, atravessar e voltar, para continuar seu trajeto. Por quê? Para não “atrapalhar” o trânsito.

2. Entender a “demanda induzida”: mais pistas trazem mais carros. Novas pistas para carros serão sempre preenchidas, como está mostrando a cara e ineficaz reforma da Marginal Tietê, feita há poucos anos a um custo que poderia ter sido investido em transporte público. O inverso também é verdadeiro. Os carros que passavam pelo viaduto Embarcadero em S.Franciso, destruído pelo terremoto de 1989 acharam outros caminhos. Em Cheonggyecheon, em Seoul, 168 mil motoristas trocaram de trajeto ou de transporte quando o viaduto foi destruído para dar lugar a um rio bucólico.Ou seja, invista em transporte público!

3. Colocar os mais fracos longe dos mais fortes. Algo tem que proteger os pedestres dos carros. Às vezes são carros estacionados. Outras vezes é a distância ou árvores. Uma coisa é certa: a velocidade dos carros tem que baixar na cidade. Ninguém quer que seus filhos brinquem numa calçada em frente de uma rua em que os carros passam a 60 km por hora.

4. É preciso discutir estacionamento na cidade. Estacionamento grátis é financiado pelo contribuinte. O giro de clientes é importante para o comércio. Assim, cobrar pelo estacionamento estimula a rotatividade. Numa evolução quântica em relação ao difícil de encontrar e ineficiente cartãozinho da zona azul, cidades mais avançadas já estipulam preços diferentes por tipologia de quarteirão. Quarteirões mais demandados cobram mais. Terrenos com grandes estacionamentos, por sua vez, não devem ocupar a vista da calçada. Vale a pena esconder sua feiúra atrás de fachadas de lojas, por exemplo.

5. Quanto melhor o transporte público, mais incentivo para deixar o carro em casa. É preciso aumentar a urbanidade (pontos de ônibus, acessos), transparência (roteiros e horários), freqüência (10 minutos no máximo; se ônibus não encher, use van) e prazer (“transporte público é uma forma móvel de espaço público”).

6. Bicicletas deveriam ser amigas dos pedestres. Bicicletas ajudam a diminuir o trânsito, são mais saudáveis e menos poluentes. A polêmica das faixas vazias já foi vivida em outras cidades ao redor do mundo. O ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa é direto: “construa as faixas de bicicletas e os ciclistas virão”. Soa familiar? Por outro lado, atenção, nem todas as ruas são adequadas para ciclovias. É preciso pensar na vitalidade do comércio e no traçado urbano.

7. As calçadas têm de ser acolhedoras. Nós, humanos caminhantes, precisamos de calçadas boas, distância dos carros, mas também de acolhimento. Códigos municipais, como o Plano Diretor de São Paulo começou a esboçar, deveriam também incentivar as fachadas amigáveis: toldos, vitrines, lojas pequenas, mesas, reeentrâncias. Queremos uma novidade a cada 5 segundos e não um paredão de 40 metros. E, claro, queremos árvores. Árvores diminuem temperatura, fazem sombra e ainda seqüestram dióxido de carbono, além de melhorar o prazer do caminhar.

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Foto: Mauro Calliari

 

Mudanças no estilo de gestão

Se há tantas cidades adotando modos diferentes de pensar, tanto no Brasil com fora, o que falta para bons conceitos virarem boas práticas?

1. Integração de objetivos. É preciso que os órgãos trabalhem em consonância. Quem é o responsável pela andabilidade? O departamento de obras, engenharia de tráfego, subprefeituras, desenvolvimento urbano? Não deveriam ser todos juntos?

2. Medição. Americanos medem tudo. Nós medimos pouco. Qual é o impacto de cada nova ciclovia no movimento do comércio, na redução do trânsito, no número de deslocamentos, etc? É preciso ser mais racional e medir mais, para aprender mais rápido. O que não se mede, não se controla.

3. Testes. A disciplina de teste é algo pouco difundido na gestão pública, mas que as empresas praticam muito bem há décadas. O que sabemos sobre as tantas iniciativas que foram iniciadas na cidade? O que deu certo? O que deu errado? Em pequena escala, é mais fácil medir e resolver os problemas. O que dá certo, implementa-se em grande escala. O que dá errado deveria gerar aprendizado.

4. Estabelecer prioridades. Gestores públicos precisam escolher onde gastar o dinheiro. A tendência de um gestor público é tentar distribuir igualmente recursos. A parte mais difícil de priorizar é justamente essa, deixar algo de fora. Jeff Speck tem um argumento para ajudar a dar coragem: “ao tentar ser universalmente excelentes, muitas cidades terminam sendo universamente medíocres”.

* Walkable City – How downtown can save America, one step at a time, de Jeff Speck. Editora: Farrar, Straus and Giroux, Nova York

Política Nacional de Mobilidade Urbana.

“Para driblar o trânsito, que tal correr?”

Publicado originalmente em: Mobilize Brasil
AutorSilvia Stuchi Cruz*
Data: 27/02/2015

Como é sabido, comprar um carro não é um investimento barato (especialmente no Brasil) e, tampouco, sua manutenção. Combustível, IPVA, seguro, estacionamento etc. – se colocarmos tudo no papel, fica difícil fechar a conta no final!

Todos os anos são batidos recordes e mais recordes de congestionamento… O transporte público, embora tenha melhorado com medidas como o corredor de ônibus, ainda está muito aquém de ser considerado um serviço público universal e de qualidade. Perdemos tempo, saúde e dinheiro com um sistema voltado ao transporte individual.

O tempo de deslocamento gasto associa-se diretamente ao bem-estar e qualidade de vida dos cidadãos, uma vez que, ao se perder mais tempo nos deslocamentos diários, diminui-se o tempo dedicado a práticas esportivas e de lazer.

Correr, para ganhar tempo!

Há três anos uso a corrida como meio de transporte para o trabalho e outros compromissos. Foi a forma que encontrei para otimizar tempo e, assim, continuar treinando. Antes de aderir a esta nova rotina, para percorrer quase 8 km utilizando transporte público, levava cerca de 1h20 (trajeto e baldeações). Se tivesse carro, impossível saber o tempo exato. Correndo, levo 45 minutos!

Para contextualizar, a velocidade média de um corredor de rua amador pode atingir entre 8 e 13 km/h. Já a velocidade dos veículos nos horários de pico (manhã e noite), de acordo com as medições da CET, varia de 7 a 15 km/h (números espantosos, não?).

O lado econômico também é destacado: economizo com transporte público cerca de R$ 150,00/ mês.  Além dos benefícios imensuráveis, como o prazer da liberdade de ir e vir, sem estresse, sem enclausuramentos, sentindo o vento agradável no rosto. Nem a chuva atrapalha, ao contrário, refresca quando cai e lava a alma!

Sou pesquisadora em meio ambiente e não tenho uma agenda semanal fechada. Vou encaixando a corrida em minha rotina de um modo muito simples: (i) para a universidade mais perto de minha residência – cerca de 8 km – vou e volto correndo; (ii) já à universidade mais distante – 40 km – vou de transporte público e, na volta, desço no centro da cidade e encerro o trajeto correndo; (iii) nos dias que dou aulas em uma universidade próxima à Avenida Paulista, por se tratar do período noturno, vou correndo e volto de metrô.

E assim vai…

Importante ressaltar que não sou atleta profissional (e nem pretendo ser – risos). Sou uma pessoa “comum” que opta por se deslocar por meio da corrida.

Quando chego aos locais e digo às pessoas que usei minhas próprias pernas para me locomover, as reações são diversas. Vão desde “nossa, que fantástico” até “nossa, você é louca”. Aos que acham loucura, sim, existem riscos: problemas nas calçadas, cruzamentos, iluminação, sinalização, falta de segurança etc. Contudo, se esperarmos as perfeitas condições para realizarmos alguma mudança em nossas vidas, dificilmente sairemos do lugar, certo?

Sílvia Cruz na volta para casa: a liberdade de quem corre! Foto: Corridaamiga  

Tá bom! Mas… E como você faz? As pessoas não percebem que você chegou correndo? Qual a logística?

Vamos lá, seguem algumas dicas

1) Organize a mochila, levando o mínimo possível. A minha pesa uns 2 kg, contendo geralmente: roupas de tecido que não amassam; sandálias; bolsinha com desodorante, hidratante corporal e creme para pentear em frascos pequenos, kit básico de maquiagem, toalha de rosto (pode substituir por fralda de pano que é mais leve), celular, carteira com documentos pessoais, pote plástico com frutas.

2) Coloque sempre tudo em sacolas plásticas. Conserva e organiza melhor os itens que está levando além de proteger da chuva.

3) Quem não tem vestiário no trabalho (ou o ‘Aro 27 Bike Café’ e o ‘Dress Me Up’ por perto) vale fazer um “banho de gato”. Umedecer uma toalha de rosto e lenços umedecidos garantem a higiene. Caso não se acostume com a ideia, realize somente o trajeto de volta para casa e vá de transporte público, carona, táxi…

4) Trajeto: planeje e estude bem as alternativas de rotas antes de sair de casa. Não necessariamente fará correndo o mesmo trajeto que realiza de carro.

5) Chegue, no mínimo, 30 minutos antes do seu compromisso. É um tempo suficiente para resfriar o corpo, descansar e fazer tudo com calma.

Deixar o carro em casa e realizar os deslocamentos diários de outras formas (seja caminhando, correndo, pedalando, patinando, de skate, utilizando transporte público) passa, fundamentalmente, por uma mudança de comportamento e mentalidade (essa ainda é a maior barreira).

Outro fato que pude comprovar de perto: modos de transporte ativo nos despertam outra percepção da cidade, notam-se diferentes paisagens que não são possíveis perceber de dentro dos carros. E isso muda a nossa relação com a cidade, nos aproxima e nos faz querer cuidar mais dela.

Para aqueles que se inspiraram a driblar, ou melhor, a se libertar do trânsito também, fica o convite!

 

*Silvia Stuchi Cruz é doutoranda pelo DPCT/Unicamp, gestora ambiental pela EACH/USP,  colabora com o Mobilize Brasil e pertence à Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP

 

“Plano de Mobilidade Urbana de São Paulo, onde está a prioridade do pedestre?”

Publicado originalmente em: SampaPé!, um blog do portal Mobilize
Autor: Letícia Sabino
Data: 25/02/2015

Os Planos de Mobilidade Urbana Municipais  surgiram a partir de uma exigência pela Lei Nacional de Mobilidade Urbana, sancionada em 2012.

No Art 24, nos parágrafos 1o e 4o se define que qualquer município com mais de 20.000 habitantes se deve realizar um Plano Municipal de Mobilidade Urbana, e que o prazo máximo para sua elaboração é até abril de 2015.

  • “§ 1o  Em Municípios acima de 20.000 (vinte mil) habitantes e em todos os demais obrigados, na forma da lei, à elaboração do plano diretor, deverá ser elaborado o Plano de Mobilidade Urbana, integrado e compatível com os respectivos planos diretores ou neles inserido. 
  • § 4o  Os Municípios que não tenham elaborado o Plano de Mobilidade Urbana na data de promulgação desta Lei terão o prazo máximo de 3 (três) anos de sua vigência para elaborá-lo. Findo o prazo, ficam impedidos de receber recursos orçamentários federais destinados à mobilidade urbana até que atendam à exigência desta Lei.”

Foto do Portal do Trânsito

São Paulo, na última hora, pretende em um mês fazer toda a fase de participação popular, também exigida pela lei, e sancionar o Plano.

Para isso lançaram um site em que há um texto base para ser trabalhado, em que na parte dedicada a pedestres apresenta parte dos problemas da cidade em garantir segurança e conforto para este modal, e finaliza apenas dizendo:

“Tendo em vista as condições precárias encontradas se faz necessária a revisão dos procedimentos e da legislação vigente. Para enfrentar a questão das calçadas, da segurança dos pedestres e da construção de espaços de circulação inclusivos com garantia das condições de acessibilidade universal, o PlanMob/SP 2015 pretende indicar a necessidade de reestruturação da legislação sobre o tema e da gestão das calçadas, estabelecendo uma área da administração municipal que centralize todas as responsabilidades por sua reforma e manutenção bem como a identificação de fonte de financiamento específica, de maneira a cumprir o objetivo estabelecido no Plano de Metas e proporcionar uma gestão com compromisso de longo prazo”

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Muito diferente do que podemos ver com relação aos ônibus, que contam com políticas claras nos diversos âmbitos como faixas exclusivas, operação, rede de corredores, terminais de integração, entre outros itens que fazem parte da rede de funcionamento deste modal.

 

Fica claro, e já é sabido, que infelizmente na Secretária Municipal de Transportes de São Paulo o deslocamento a pé nunca foi considerado e tratado como um modal de transporte, e que carece de profissionais que tenham uma visão de que é o caminhar é o modal conector com todos os demais modais, e que conheçam a suas particularidades e elementos.

Vale lembrar também, que um dos elementos mais importantes da Lei Nacional de Mobilidade Urbana foi reforçar a prioridades dos transportes não motorizados sobre os motorizados, em outras palavras a prioridade do pedestre.

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A partir deste contexto, tomei a liberdade e senti a necessidade de iniciar um texto com diretrizes claras que devem conter no nosso Plan Mob de forma a garantir que a cidade realmente priorize o andar e se planeje para se tornar caminhável.

 

Rapidamente tal iniciativa foi abraçada pela Meli Malatesta (autora do blog Pé de Igualdade) e pela Silvia Stuchi (fundadora da Corrida Amiga), que compõe junto comigo o corpo formal da Comissão Técnica de Mobilidade a Pé e Acessibilidade na ANTP.

 

E agora esperamos que você abrace também colaborando e assinando o documento que está disponível no Google Docs, que está aberto para colaboração até o dia 13/03 – sexta feira, e que será entregue para o Secretário de Trasnportes Jilmar Tatto. Que trata desde a Reestruturação das Secretarias e Empresas Municipais Relacionadas à Mobilidade Urbana até Programas de Comunicação e Educação, entre outros.

 

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Seção II – Da Reestruturação das Secretarias e Empresas Municipais Relacionadas à Mobilidade Urbana

 

Art 2 – Redefinir a Secretaria de Transportes como Secretaria de Mobilidade Urbana, mudando o foco da secretaria para os deslocamentos.

 

Art 3 – Criar diretorias exclusivas de Mobilidade a Pé na CET e na SPtrans, responsáveis por planejar e defender os interesses e direitos da mobilidade a pé na cidade enquanto usuário do sistema viário e dos sistemas de transporte público coletivo. 

Seção VII – Dos programas de comunicação e educação

Art 17 – Implementar programas de educação de trânsito, focados nos motoristas de carros, ônibus e caminhões, motociclistas e ciclistas, sobre a prioridade do pedestre e o respeito ao pedestre.”

 

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“Onde e como puder – PARTE II”

Publicado originalmente em: Pé de Igualdade, um blog do portal Mobilize
Autor: Meli Malatesta
Data: 25/02/2015

Continuando meu post anterior, já que ainda há muito o que falar sobre como a Mobilidade a Pé é tratada pelos planejadores e técnicos urbanos na hora de se definir a divisão do espaço e do tempo de nossas vias, independentemente das óbvias considerações sobre como o pedestre é ignorado pelos demais usuários da via apesar de também serem pedestres, fica evidente que as convenções impostas pela sinalização de trânsito são acintosamente desconsideradas pelos que caminham. E sobram motivos para isto pois convivem, na grande maioria das cidades brasileiras, com diferentes regras de travessias impostas pelos equipamentos de sinalização convencionais. Vamos aos exemplos:

Travessias de cruzamento semaforizado sem foco para pedestres: pedestre deverá acumular ao mesmo tempo o papel de pedestre e de condutor, pois espera-se que ele saiba que seu momento de permissão de passagem é justamente quando é dada a ordem contrária ao trânsito geral. Uma verdadeira ginástica mental.

Travessias de cruzamento semaforizado onde o foco para pedestres não esteja presente em todas as aproximações: neste caso a ginástica mental exigida é maior ainda porque o pedestre deverá adivinhar em quais travessias deverá obedecer e em quais deverá desobedecer. Este fenômeno ocorre porque os técnicos urbanos responsáveis pelo hardware (faixa de travessia e equipamento semafórico) e o software (programação semafórica) da sinalização consideram um “desperdício” incluir focos semafóricos nas travessias que não precisam de tempo específico porque são dadas na “carona” das paradas do trânsito geral.

Créditos: Daniel Marenco/Folha Imagem

Outro difícil exercício de interpretação que é imposto ao usuário mais frágil da via surgiu na cidade de São Paulo e se refere a tipos de softwares que administram os tempos de espera e de travessia, que variam em alguns locais entre as opções “insuficiente” e “impossível”.

Na primeira opção o tempo que é dado para se atravessar nunca é suficiente para vencer a travessia em passo normal, lembrando do meu post anterior que ele é dimensionado pela extensão da rua a ser atravessada. Assim para vencer a travessia com o bonequinho verde é necessário ter passo de atleta ou então ter seu fôlego para terminá-la com o bonequinho vermelho piscando. Este bonequinho também serve para avisar aos que chegam que não é para atravessar.

Crédito: Paulo LIebert/AE

Já a opção “impossível” que é conseqüência da tupiniquinização da semaforização das travessias de Nova York, a programação do semáforo foi adaptada para reduzir mais ainda a opção “insuficiente”. Nela o bonequinho verde dura umas três passadas e então já entra em ação o bonequinho vermelho piscante para fazer correr os que começaram e parar os que pretendiam começar. Cabe acrescentar que em Nova York há tempo civilizado para se realizar a travessia em passadas normais.

O que diferencia estas duas formas impostas de travessia e que convivem em qualquer trajeto cotidiano realizado a pé é uma tímida sinalização composta por uma espécie de cinturão em material adesivo na cor verde colado ao poste do foco de pedestre, que nem os observadores mais perspicazes são capazes de notar. Não houve campanha ou qualquer tipo de divulgação dirigido aos maiores interessados.

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Assim só resta mesmo a quem caminha confiar no próprio instinto de sobrevivência e tentar adaptar seus trajetos diários a estes esquemas injustos de distribuição do espaço e do tempo urbano. Eles são os responsáveis por travessias corridas em meio a estresse e medo desestimulando a adoção da caminhada como mobilidade cotidiana em nossas cidades.

“Nossos órgãos de trânsito ainda não entendem… Parte1 – O pedestre”

Publicado originalmente em: Diário da Mobilidade
Autor: Rafael Calábria
Data: 19/02/2015

Os últimos anos têm testemunhado em São Paulo um movimento de inversão da prioridade que era dada aos automóveis para outros modais: bicicletas e ônibus em particular. Isso se deu por uma demanda de parte da sociedade que tem exigido uma parcela maior do viário, como ocorre em outras cidades do mundo.

Embora a mudança cultural na sociedade seja lenta e necessária, o poder público vem aos poucos se abrindo a essas novidades. A própria CET de São Paulo, que sempre foi conhecida como a grande promotora do transporte motorizado particular e em especial da sua “fluidez”, é o órgão que vem implantando algumas dessas novas medidas: como as faixas exclusivas de ônibus e as ciclovias, compartilhando espaço viário a outros modais e melhorando a mobilidade na capital.

Mas apesar de ter aberto sua visão para outros modais, ainda há um modal que a CET, assim como outros órgãos de trânsito pelo país, atendem de forma errada, com uma visão ainda voltada à priorização do carro: o modal a pé.

No que diz respeito à mobilidade a pé os órgãos de trânsito mantêm uma visão paternalista e pouco prática ou eficiente: acham por bem indicar onde o pedestre pode ou não atravessar com segurança e onde ele deve ou não circular. O que ignoram, ou não entendem, é que o pedestre circula em qualquer lugar onde existe atividade humana e, como o pedestre não é motorizado, sua tendência é fazer o caminho com o menor desgaste físico: portanto o percurso mais curto e plano – o que é chamado de “linha de desejo“.

Tendo isso em mente, fica visível o equívoco em se escolher os pontos para garantir a segurança ao pedestre com base na fluidez dos veículos, como os órgãos de trânsito fazem.
Exemplos de ausência total de infraestrutura correta ao pedestre, como os da foto acima, são diversos. Nos cruzamentos o pedestre deveria poder atravessar em qualquer um dos lados, no entanto muitas vezes um dos lados é bloqueado à travessia à pé e ele é obrigado a atravessar três ruas no lugar de uma. As travessias deveriam sempre estar o mais próximo possível dos cruzamentos, para o caminho entre quadras ser o mais retilíneo possível; em vias urbanas não expressas não deveria haver passarelas, o pedestre deveria poder cruzar em nível; e guarda-corpo deveria ser usado em locais onde há insegurança ao pedestre, e não para proibir uma travessia onde seria o caminho mais lógico para ele.

O guarda-corpo, justamente, exemplifica essa mentalidade, uma vez que sempre é colocado em locais onde muitos pedestres fazem a travessia mais clara e direta, impedindo a circulação de quem está a pé e facilitando a manobra dos carros. Do mesmo modo a passarela, utilizada em São Paulo em avenidas não expressas, serve para dar velocidade aos carros, ao invés de dar segurança ao pedestre num banal cruzamento em nível.

Dito isso, devemos responder: “Mas por que o pedestre deve ter a prioridade na via?”

Em primeiro lugar porque o pedestre é a parte mais vulnerável do trânsito e porque todos nós somos pedestres – usuários do transporte coletivo, ciclistas, motoristas e motociclistas. Enquanto para ser motorista é preciso estar de posse de um carro e para usar o transporte público é preciso pagar uma tarifa, o pedestre é a situação primária, gratuita e básica da mobilidade e do deslocamento.

Numa reação de defesa instintiva a essa mudança de mentalidade alguns respondem que isso seria inverter a ditadura do carro pela ditadura do pedestre. Mas não é disso que se trata. Não é necessário tratar o carro como tratamos o pedestre hoje – bloqueando caminhos, forçando o desconforto e até mesmo ignorando sua existência. É necessário apenas regular o viário para que todos possam circular em segurança e conforto: reduzir da velocidade dos automóveis, melhorar a implantação e localização de faixas de pedestres e consertar as calçadas. Nada mais do que compartilhar melhor o espaço, sem bloquear o caminho de ninguém, apenas ceder alguns segundos do tempo de um para uma segurança maior de todos – motoristas e pedestres.

Vamos imaginar uma situação inversa. Considera-se é perigoso para os automóveis trafegar pela Rodovia Regis Bittencourt, conhecida como a “rodovia da morte”. Seria a solução bloquear a rodovia e obrigar os motoristas a fazerem a volta por Itapetininga e Ourinhos? Ou seria melhor dar segurança à via que liga duas das importantes capitais do país? Dar educação no trânsito, melhorar a qualidade da pista, fiscalizar a velocidade?

Por que para o pedestre a reação primária é bloquear a via, mantendo a alta velocidade dos veículos – sendo que estes são um modal mais poluente, mais caro, mais excludente, mais perigoso,menos eficiente e utilizado por menos pessoas?

A mentalidade de sempre penalizar o pedestre em detrimento de outros veículos precisa mudar. E isso não é uma discussão nova, o próprio Código de Transito Brasileiro já prevê a prioridade ao pedestre, embora deixe brechas para os órgãos locais adaptarem a nossa mentalidade dominante. É um passo fundamental para que as outras medidas de mobilidade sendo implementadas (a trancos e barrancos, mas com muitos resultado visíveis) sejam plenamente aproveitadas e utilizadas.

Por último, deve-se parabenizar muitos dos técnicos da CET e dos outros órgãos municipais e federais que estão batalhando por essa mudança de mentalidade. É pena que este trabalho ainda esteja incompleto, se se esquecem do pedestre.