“A vez do pedestre também tem que ser agora!”

Publicado originalmente em: Yahoo Notícias – Habitat
Autor:  Raquel Rolnik
Data: 09/04/2015

Até o dia 17 de abril, os paulistanos podem contribuir pela internet com a elaboração do Plano de Mobilidade da cidade de São Paulo. A última rodada de debates temáticos presenciais acontece no próximo sábado, a partir das 9h, no auditório da Uninove (Vergueiro). A elaboração do plano é uma exigência da Política Nacional de Mobilidade, aprovada em 2012.

Um dos temas que serão discutidos no encontro de sábado é a mobilidade a pé. Embora ninguém nunca fale nos pedestres na discussão da mobilidade urbana, a quantidade de pessoas que se desloca no dia a dia principalmente desse modo é altíssima: chega a mais de 30% da população, segundo a pesquisa Origem e Destino realizada pelo Metrô em 2007.

Se considerarmos que os que utilizam o transporte público também se deslocam a pé no trajeto entre a casa/trabalho/escola e o ponto onde pegam o ônibus ou a estação de trem ou metrô, percebemos que o tema é absolutamente central nessa discussão. Mesmo quem utiliza o carro diariamente, em alguns momentos, é também pedestre: no horário de almoço, quando caminha até um restaurante, ou mesmo no trajeto entre o estacionamento e o local de trabalho.

Porém, quando se fala em mobilidade urbana, em geral pouco se pensa na situação dos pedestres na cidade. Lembro de uma pesquisa realizada pela CET em 2011 que mostrava que 89,6% dos motoristas não respeitam as faixas de pedestres e que cerca de 70% das pessoas que se deslocam a pé se sentem desrespeitadas no trânsito.

Em 2011, também, a Câmara Municipal aprovou uma Lei das Calçadas, estabelecendo novos critérios e parâmetros, e até publicou uma cartilha para orientar os proprietários de imóveis, que são, em grande parte das ruas da cidade, os responsáveis pela manutenção das calçadas. Obviamente, de lá pra cá, não vimos grandes mudanças, nossas calçadas, em geral, continuam sendo de péssima qualidade…

O fato é que esse modelo de gestão da infraestrutura de circulação dos pedestres, privado e individual, simplesmente não dá conta de enfrentar o problema. Se historicamente o poder público cuida do leito carroçável, onde andam os veículos, por que não pode ser responsável por garantir calçadas seguras e confortáveis para os pedestres?

Pensando em todas essas questões que envolvem o difícil cotidiano de quem se descola a pé pela cidade, um grupo de pessoas decidiu criar a Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo. O objetivo é se articular e somar forças para cobrar a inclusão de ações pela melhoria da mobilidade a pé nas políticas gerais de mobilidade da cidade.

E eles estão certos. Uma verdadeira política de mobilidade implica, sim, pensar ações de apoio à circulação dos pedestres. Em Nova York, por exemplo, existe um plano de mobilidade não motorizada que inclui tanto ações para deslocamentos por bicicleta – como o planejamento das ciclovias – como ações voltadas à melhoria da circulação dos pedestres na cidade.

Nesse momento em que a cidade de São Paulo busca mudar seu paradigma de mobilidade, investindo em mais espaço para o transporte público e para as bicicletas, com a implementação de faixas exclusivas de ônibus e de ciclovias, é fundamental, também, incluir iniciativas que melhorem as condições dessa parcela tão expressiva da população que se locomove a pé.

Imagem do post: Calçada em Itaquera, zona leste de São Paulo. Foto: Marcos Paulo Dias

12a Reunião do CMTT: Apresentação de Estudos sobre Calçadas no PlanMob

O tema da 12ª Reunião ordinária do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito nos interessa particularmente. Trata-se de uma “Apresentação de estudo e proposta sobre calçadas no PlanMob”, desenvolvido pelo GT de Calçadas e Pedestres.

Convidamos todos a participar.

12ª Reunião ordinária do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito
Dia
: Quinta-feira, 16/4/15
Hora: Das 8h30 às 11h00
Local: Conselho Regional de Contabilidade – CRC
Endereço: Rua Rosa e Silva, 60, Santa Cecília
Como chegar: Marechal Deodoro

12a reuniao CMTT

 

Imagem do post: Av. São Luiz. Foto: Pedro Martinelli

“Nossa Cidade: os oito princípios da calçada”

Publicado originalmente em: The CityFix Brasil
Autor: Paula Santos
Data: 01/04/2015

Os oito princípios da calçada

Andar a pé é a forma mais democrática de se locomover. É o meio de transporte mais antigo e o mais recorrente em todo o mundo e não tem custo nenhum além de algumas calorias.

Apesar disso, as pessoas caminham cada vez menos. Seja porque as cidades estão mais espalhadas, seja porque as calçadas, vias por onde as pessoas caminham, são verdadeiros obstáculos. Falta de pavimento, largura inadequada e veículos estacionados irregularmente são apenas alguns dos indícios de que as calçadas estão sendo sufocadas, há décadas, por outros meios de transporte menos saudáveis – tanto para os usuários quanto para as cidades.

É preciso uma injeção de ânimo para que os pedestres retornem às ruas. A qualidade das calçadas pode ser potencializada, não apenas para atrair mais pedestres, mas também para tornar-se um espaço agradável, onde as pessoas querem estar e conviver.

Esses lugares existem. Calçadas vivas são vistas em muitas cidades do Brasil e do mundo que tornaram o transporte a pé uma prioridade. Em vez de apenas pavimentar uma reduzida faixa ao longo de suntuosas avenidas dominadas pelos automóveis, estas cidades decidiram enriquecer ainda mais o espaço, privilegiando o convívio entre as pessoas.

Calçadas são construídas a partir de oito princípios, complementares e interligados. Juntos eles não apenas qualificam uma calçada adequada, mas direcionam para o desenvolvimento de cidades ativas e saudáveis.

Conheça os oito princípios da calçada:

1. Dimensionamento adequado

A calçada é composta por uma faixa livre, onde transitam os pedestres, uma faixa de serviço, onde está alocado o mobiliário urbano – como bancos e lixeiras –  e uma faixa de transição, onde se dá o acesso às edificações. Ter conhecimento desses componentes facilita o dimensionamento adequado das calçadas.

2. Superfície qualificada

Regular, firme, estável e antiderrapante. Essas são as características básicas do pavimento da calçada. Para assegurá-las, é necessário estar atento ao processo construtivo e à qualidade da mão-de-obra, não apenas ao projeto.

3. Drenagem eficiente

Um local alagado é impróprio para caminhada. Calçadas que acumulam água tornam-se inúteis para os pedestres, que acabam desviando sua rota pelo leito dos carros, arriscando a sua segurança.

4. Acessibilidade universal

A calçada, como espaço público, deve ser acessível a pessoas com diferentes características antropométricas e sensoriais: desde pessoas com restrição de mobilidade, como usuários de cadeira de rodas e idosos, até pessoas com necessidades especiais passageiras, como um usuário ocasional de muletas ou uma mulher grávida. Listar essas características é uma boa forma de refletir sobre como atender às necessidades de todos os pedestres.

5. Conexões seguras

O caminho percorrido pelos pedestres envolve pontos de transição com elementos urbanísticos, como vias dedicadas aos veículos e pontos de parada do transporte coletivo. É importante que as conexões entre esses elementos sejam acessíveis e seguras.

6. Espaço atraente

Ao caminhar nas ruas, os pedestres entram em contato com o ambiente urbano. As calçadas podem desempenhar um papel importante para tornar essa experiência mais agradável. Cativar as pessoas para que se locomovam a pé é uma forma de incentivar o exercício físico e diminuir os congestionamentos nas cidades.

7. Segurança permanente

Durante o dia ou a noite, em dias úteis ou em fins de semana, as calçadas estão sempre abertas para as pessoas. Porém, são menos utilizadas em determinados períodos, que se tornam inseguros por falta de vigília – não da polícia, mas dos próprios pedestres. Adotar estratégias para influenciar positivamente na segurança dos pedestres pode tornar as calçadas mais vivas.

8. Sinalização coerente

Assim como os motoristas de veículos automotores, os pedestres também necessitam de informações claras para saber como se comportar e se localizar no ambiente urbano.

“Ação transformou calçadas da Vila Pompéia, em São Paulo”

Publicado originalmente em: Cidade em Movimento
Data: 12/11/2014

A iniciativa Calçadas Verdes e Acessíveis mudou o cenário de algumas ruas da Vila Pompéia, na zona Oeste de São Paulo.  Os moradores e pedestres que circulam pela região, marcada por grande irregularidade de terreno,  sofriam com o estado de má conservação das calçadas e precisavam enfrentar degraus que chegavam a ter 50 centímetros de altura para dar acesso às garagens. Uma verdadeira barreira de acessibilidade principalmente para idosos e pessoas com necessidades especiais que preferiam caminhar pelas ruas, aumentando o risco de atropelamento.

Exemplos da irregularidade das calçadas antes da intervenção de Calçadas verdes

Exemplos da irregularidade das calçadas antes da intervenção de Calçadas verdes

O projeto de recuperação e padronização das calçadas, de acordo com as normas municipais, começou a ser implantado em 2007, a partir da ideia de Gilmar Altamirano, que contou com  o apoio da Appa  (Associação Pompéia de Preservação Ambiental) e com a parceria com a ONG Universidade da Água. Juntos criaram a campanha Calçadas Verdes e Acessíveis.

Além de padronizar as calçadas, o projeto fez com que esses locais se transformassem em nichos verdes, garantindo acessibilidade e permeabilidade. Foram beneficiadas as ruas Tavares Bastos, entre a Tucuna e a Caraíbas e na Rua Tucuna (lado ímpar), além da Avenida Professor Alfonso Bovero.

Calçada da região da Pompéia, em São Paulo, após intervenção pela acessibilidade

Calçada da região da Pompéia, em São Paulo, após intervenção pela acessibilidade

Segundo Gilmar Altamirano, ganhar menção honrosa do Mobilidade Minuto chama a atenção  para a causa da mobilidade urbana. “Para nós, o prêmio  significa colocar uma “lente de aumento” numa iniciativa que queremos multiplicar em prol da mobilidade urbana. Antes mesmo de uma divulgação mais maciça já estamos sendo procurados por outras instituições para conhecerem melhor o projeto.”

Novo cenário – Segundo Gilmar, o projeto eliminou 99% dos degraus e deixou as ruas  mais verdes graças um novo paisagismo. A nova “cara” fez com que as pessoas que antes caminhavam pelas ruas passassem a andar pela calçada reformada. Incentivo também para condomínios verticais no bairro  (novos e velhos) que passaram a adotar o novo modelo de calçada. Estima-se que a construção desses novos passeios beneficie diretamente mais de cinco mil pessoas que vivem no entorno.

Conheça, participe, divulgue Calçadas Verdes e Acessíveis.

Imagem do post: Projeto Calçadas Verdes e Acessíveis.  Foto: Gilmar Altamirano

“Maratona de mapeamento de calçadas, dia 28, em todo o Brasil. Participe!”

Publicado originalmente em: Mobilize Brasil
AutorDu Dias
Data: 18/03/2015

A Rede Corridaamiga vem se formando desde o início de 2014, com o objetivo de estimular a prática da corrida de rua como meio de transporte. Como usuários em contato direto com as vias públicas, os idealizadores da rede passaram a atuar também de forma política, defendendo melhorias nas estruturas urbanas. E uma das ferramentas desenvolvidas para este fim foi uma plataforma, em parceria com o Cidadera, que permite ao usuário registrar problemas ou condições adversas em seu trajeto por meio de um aplicativo ou plataforma on-line.

Pela utlização deste aplicativo, os integrantes da rede planejam fazer um happening no próximo dia 28 de março, batizado de #CalçadaCilada. O objetivo é reunir num mesmo dia colaboradores em várias cidades do país para uma verdadeira maratona de avaliação das calçadas nos municípios em que se encontram e compartilhar cada avaliação com quem acessar a plataforma ou baixar o aplicativo. A prioridade será dada para calçadas com grande fluxo de pedestres, como as proximidades de escolas e hospitais. A tecnologia é a mesma que alimenta a seção Mobilize-se, do Mobilize Brasil, em que todas as informações anexadas utilizando o aplicativo Cidadera ou a plataforma Corridaamiga#CalçadaCilada também ficam disponíveis no Mobilize e vice-versa.

Esta é a segunda edição da campanha #CalçadaCilada. Quando foi lançada, em 2014, incentivava os corredores de rua a postarem selfies pela cidade, sempre que encontrassem problemas nas calçadas. Segundo Silvia Stucchi, uma das fundadoras do Corridaamiga, a ferramenta visa a facilitar a ação cidadã e ampliar o olhar para um espaço que se tornou “invisível”. “O aumento do transporte ativo pode trazer como desdobramentos uma pressão natural não só sobre o setor público, como também sobre o privado (para sanar todas as barreiras que encontramos hoje)”, explica Silvia.

A iniciativa, uma realização do Corridaamiga em parceria com o Cidade Ativa e Desenhe Sua Faixa, conta com o apoio de várias organizações como o Mobilize e: Guia Voluntários Corpore, Anjos que correm, Corrida Social, Pé de Igualdade, Bike Anjo, Cidadera, Cidade Ativa, Milalá, MoveBrasil, Missiorama, DressMeUp, Respeite Um Carro a Menos, EditoraMol (Livro Eu Amo Correr), Desenhe sua Faixa, SampaPé, oGangorra, Rock&Run, Amo Correr, Catraca Livre, Jornalistas que Correm, Instituto Mara Gabrilli, GepafUSP, Cidadera, Programa Agita São Paulo, Nosso Pinheiros e Photo Extreme.

Como participar

1) Baixe o aplicativo para Android ou iOS clicando neste link;

2) Com seu smartphone ou tablet em mãos, registre e compartilhe os problemas nas calçadas que encontrar no seu dia a dia;

3) No dia 28/03, saia para uma caminhada ou corrida com seus amigos e estimule os a fazer e compartilhar novas avaliações;

Caso não possua tablet ou smartphone, faça sua avaliação e compartilhe acessano um dos três endereços a seguir: a página da campanha #CalçadaCilada; a seção Mobilize-se, do Portal Mobilize Brasil, ou a página doCidadera

Alguns exemplos do que denunciar

  • Calçada obstruída;
  • Tempo de travessia insuficiente do semáforo para pedestres;
  • Semáforo de pedestres quebrado;
  • Falta de sinalização para pedestres;
  • Calçada para pedestres em mau estado;
  • Faixa de pedestres em mau estado;
  • Ausência de faixa de pedestres.

“Moradores pintam faixa de pedestres na Vila Beatriz”

Publicado originalmente em: Gazeta de Pinheiros
Data: 13/03/2015

Segundo a vizinhança, além da ausência de uma faixa de pedestres a iluminação do local é precária

Cansados de esperar por uma faixa de pedestres solicitada à Prefeitura de São Paulo na Rua Pascoal Vita, moradores da Vila Beatriz fizeram a intervenção viária por conta própria. No último domingo (8), eles interditaram um trecho em declive da via, onde costumam descer carros em alta velocidade.

Segundo a vizinhança, além da ausência de uma faixa de pedestres a iluminação do local é precária, o que dificulta a visualização dos veículos durante a noite. Para pintar a travessia no asfalto, os moradores bloquearam o tráfego com cavaletes que exibiam a seguinte frase: “Bom dia! Esta quadra está interditada para a pintura de uma faixa de pedestres. Colabore. A cidade é das pessoas”. O contorno das faixas foi definido com o auxílio de fitas crepes.

A faixa de pedestre na Rua Pascoal Vita foi pintada próximo ao cruzamento com a Rua Natingui, onde o publicitário Vitor Gurman, 24 anos, morreu em 2011 ao ser atropelado por um veículo do modelo Land Rover que estava acima da velocidade permitida na via.

Iniciativa semelhante a dos moradores da Vila Beatriz ocorreu em 2010 no cruzamento da Rua dos Pinheiros com a Rua Mateus Grou, também sob a alegação de demora na realização do serviço de sinalização viária. No mesmo ano, rotas preferenciais para ciclistas foram pintadas por grupos cicloativistas de maneira ilegal em diversas pontes de acesso à Marginal Pinheiros.

“Fotos sobre tapume propõem olhar mais atento à calçada paulistana”

Publicado originalmente em: Mobilize Brasil
Autor: Regina Rocha / Mobilize Brasil
Data: 02/03/2015

Mostra com cenas urbanas e foco em calçamento histórico de São Paulo é exposta em plena rua, de modo a ser vista por todos os que passam diante de um tapume de obra

Quem passar a pé pelo bairro de Higienópolis, na região central de São Paulo, não pode deixar de parar e observar as imagens que recobrem os tapumes de uma obra no número 200 da rua Dr. Gabriel dos Santos.

Nesse suporte pouco usual, o fotógrafo Duda Groisman montou sua exposição fotográfica Por onde vou, que destaca um calçamento paulistano  – de ladrilho hidráulico, com a estampa do diagrama do estado – concebido há quase 50 anos (por Mirthes dos Santos Pinto), e que se tornou um ícone da capital.

Esse piso, que persiste em várias calçadas da cidade, conta uma história pouco conhecida dos próprios cidadãos, que sempre apressados, não tem tempo de refletir sobre seus próprios percursos. Assim, essa intervenção e produção artística no ambiente urbano tem a intenção de fazer o resgate dessa história da cidade, materializada num produto emblemático, e levar os passantes, protagonistas das imagens, a refletirem sobre seus caminhos.

Foto tira partido do reflexo da popular calçada com o diagrama de SP.  Foto: Duda Groisman

Foto tira partido do reflexo da popular calçada com o diagrama de SP.
Foto: Duda Groisman

 

Percepção da cidade

Duda Groisman, um administrador de empresas que em 2009 trocou o mundo corporativo pela fotografia, explica seu interesse por esse tema que, esclarece, é apenas uma parte do seu interesse maior pela vida da cidade, pelo ambiente urbano: “Deixei de usar o carro no dia a dia e, ao me deslocar caminhando, de bicicleta ou de transporte público, fui mudando minha percepção da cidade. Muita coisa passou a chamar minha atenção, como  observar este calçamento, sobre o qual pouca gente tem informação; eu mesmo não conhecia sua história, e veja que ele está aí desde 1966!”.

Pouco antes do dia 25 de janeiro, aniversário da cidade, Groisman viu a oportunidade de realizar esta mostra nos tapumes de uma obra em construção (da Think Construtora, parceira no projeto), e a série de fotos que tinha sobre o calçamento veio a calhar. “A ideia me agradou por ser uma intervenção urbana e democrática, ficando a vista de todos, 24 horas por dia, por muito tempo, diferente do que acontece em outros espaços expositivos. E o tema tinha ligação com a cidade, sua história, e com a arquitetura e design, por se tratar de uma obra, incluindo o restauro de dois casarões”, explicou.

Para o fotógrafo, interessa também levar as pessoas a se fixarem mais na paisagem urbana. “A grande maioria passa sem notar, não apenas o passeio, mas outros tantos detalhes da cidade. Claro que o paulistano até olha o chão por onde anda, pois se não, pode cair (risos) nos buracos de nossas calçadas mal cuidadas. Mas no dia a dia não vai olhar como observador, curioso das formas, materiais…”

A mostra “Por onde vou” ocupa o tapume de cerca de 38 m X 2,10 m, com 11 fotos em tamanho grande (para ser vista também por quem passa de carro ou na calçada oposta, explica o fotógrafo). E tem como cenário o calçamento dos bairros de Higienópolis, Santa Cecília, Barra Funda, Jardins e Centro.

Mostra fotográfica “Por onde vou” de Duda Groisman
Endereço: Rua Dr. Gabriel dos Santos, 200 – Higienópolis – São Paulo
Referência: próximo à estação Marechal Deodoro do metrô
Quando: por tempo indeterminado
Mais sobre a história do calçamento paulistano: www.facebook.com/porondevou

“A cidade andável”

Publicado originalmente em: Brasil Post
Autor: Mauro Calliari
Data: 02/03/2015

Vamos discutir a “andabilidade”

Enquanto as cidades brasileiras discutem seus planos de mobilidade, é preciso lembrar de quem anda a pé. Depois de décadas de planejamento urbano focado no uso do automóvel, o andar a pé voltou com força às discussões e à prática das grandes cidades pelo mundo.

Nos EUA, berço da cultura do carro, há uma nova geração que está se afastando do carro: em 1970, apenas 8% das pessoas com mais de 19 anos optaram por não tirar carta. Hoje são 23%!

Essas pessoas usam mais transporte público, mas também andam mais. Elas precisam de calçadas melhores, segurança e um cenário urbano minimamente prazeroso. Tudo isso pode ser chamado de “andabilidade”. Sim, a palavra é feia e nem existe em português. Mas o conceito é bom!

Quem aguenta caminhar 500 metros num lugar feio, com muros em volta, pode facilmente andar um quilômetro ou mais, se contar com calçadas seguras, que passam por lugares interessantes, com vitrines, mesas, bares, padarias, lojinhas, toldos, praças, largos, bancos e as surpresas que só quem caminha pode ter.

2015-03-02-Photo0319.jpg

Foto: Mauro Calliari

 

A vez dos pedestres

O livro Walkable City, de Jeff Speck* é uma boa maneira de contextualizar esse problema. Ele conta os aprendizados que os gestores municipais estão tendo:

Quem mora nos subúrbios anda menos. Em relação aos seus pares das grandes cidades, essas pessoas são mais obesas e têm mais problemas de saúde.

A densidade atrai talentos e estimula a inovação. Empresas já entenderam isso: quando estão recrutando jovens, fazem questão de ressaltar o argumento da vida urbana, vibrante, dinâmica, interessante, para atrair funcionários. Cidades competitivas oferecem um Starbucks e uma lavanderia na esquina e não mais o bucolismo idealizado do subúrbio.

Cidades mais andáveis criam mais valor. O preço por metro quadrado reflete isso: quanto mais andável, mais cara a vizinhança. Incrivelmente, corretores de imóvel já usam o indicador de “andabilidade” criado pela empresa WalkScore para atrair compradores para os imóveis localizados perto de comércio, lojas, amenidades, parques.

Moradores das cidades densas poluem, relativamente menos. Cada habitante de Nova Iorque polui muito menos do que a maioria das cidades americanas, mais espalhadas. Entretanto, cada habitante de Hong Kong, muito mais densa ainda, emite um décimo de CO2 do que os seus colegas de Manhattan.

2015-03-02-DSC01220.JPG

Foto: Mauro Calliari

 

Como tornar a cidade mais andável?

1. Adotar o ponto de vista do pedestre em vez do ponto de vista do motorista. A velocidade do deslocamento em carro não pode ser o único parâmetro de avaliação. Hoje, nossas rádios ficam colocando boletins a cada cinco minutos com o número de quilômetros de congestionamento, esquecendo-se de que dois terços dos deslocamentos de S.Paulo são feitos a pé ou em transporte público. As faixas de pedestre não podem ser encaradas como interrupções no tráfego e sim como prioridade para os trajetos. No cruzamento da Av. Brigadeiro Luiz Antonio com a Paulista, por exemplo, os pedestres têm que virar à direita, andar uns 20 metros, atravessar e voltar, para continuar seu trajeto. Por quê? Para não “atrapalhar” o trânsito.

2. Entender a “demanda induzida”: mais pistas trazem mais carros. Novas pistas para carros serão sempre preenchidas, como está mostrando a cara e ineficaz reforma da Marginal Tietê, feita há poucos anos a um custo que poderia ter sido investido em transporte público. O inverso também é verdadeiro. Os carros que passavam pelo viaduto Embarcadero em S.Franciso, destruído pelo terremoto de 1989 acharam outros caminhos. Em Cheonggyecheon, em Seoul, 168 mil motoristas trocaram de trajeto ou de transporte quando o viaduto foi destruído para dar lugar a um rio bucólico.Ou seja, invista em transporte público!

3. Colocar os mais fracos longe dos mais fortes. Algo tem que proteger os pedestres dos carros. Às vezes são carros estacionados. Outras vezes é a distância ou árvores. Uma coisa é certa: a velocidade dos carros tem que baixar na cidade. Ninguém quer que seus filhos brinquem numa calçada em frente de uma rua em que os carros passam a 60 km por hora.

4. É preciso discutir estacionamento na cidade. Estacionamento grátis é financiado pelo contribuinte. O giro de clientes é importante para o comércio. Assim, cobrar pelo estacionamento estimula a rotatividade. Numa evolução quântica em relação ao difícil de encontrar e ineficiente cartãozinho da zona azul, cidades mais avançadas já estipulam preços diferentes por tipologia de quarteirão. Quarteirões mais demandados cobram mais. Terrenos com grandes estacionamentos, por sua vez, não devem ocupar a vista da calçada. Vale a pena esconder sua feiúra atrás de fachadas de lojas, por exemplo.

5. Quanto melhor o transporte público, mais incentivo para deixar o carro em casa. É preciso aumentar a urbanidade (pontos de ônibus, acessos), transparência (roteiros e horários), freqüência (10 minutos no máximo; se ônibus não encher, use van) e prazer (“transporte público é uma forma móvel de espaço público”).

6. Bicicletas deveriam ser amigas dos pedestres. Bicicletas ajudam a diminuir o trânsito, são mais saudáveis e menos poluentes. A polêmica das faixas vazias já foi vivida em outras cidades ao redor do mundo. O ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa é direto: “construa as faixas de bicicletas e os ciclistas virão”. Soa familiar? Por outro lado, atenção, nem todas as ruas são adequadas para ciclovias. É preciso pensar na vitalidade do comércio e no traçado urbano.

7. As calçadas têm de ser acolhedoras. Nós, humanos caminhantes, precisamos de calçadas boas, distância dos carros, mas também de acolhimento. Códigos municipais, como o Plano Diretor de São Paulo começou a esboçar, deveriam também incentivar as fachadas amigáveis: toldos, vitrines, lojas pequenas, mesas, reeentrâncias. Queremos uma novidade a cada 5 segundos e não um paredão de 40 metros. E, claro, queremos árvores. Árvores diminuem temperatura, fazem sombra e ainda seqüestram dióxido de carbono, além de melhorar o prazer do caminhar.

2015-03-02-DSC01228.JPG

Foto: Mauro Calliari

 

Mudanças no estilo de gestão

Se há tantas cidades adotando modos diferentes de pensar, tanto no Brasil com fora, o que falta para bons conceitos virarem boas práticas?

1. Integração de objetivos. É preciso que os órgãos trabalhem em consonância. Quem é o responsável pela andabilidade? O departamento de obras, engenharia de tráfego, subprefeituras, desenvolvimento urbano? Não deveriam ser todos juntos?

2. Medição. Americanos medem tudo. Nós medimos pouco. Qual é o impacto de cada nova ciclovia no movimento do comércio, na redução do trânsito, no número de deslocamentos, etc? É preciso ser mais racional e medir mais, para aprender mais rápido. O que não se mede, não se controla.

3. Testes. A disciplina de teste é algo pouco difundido na gestão pública, mas que as empresas praticam muito bem há décadas. O que sabemos sobre as tantas iniciativas que foram iniciadas na cidade? O que deu certo? O que deu errado? Em pequena escala, é mais fácil medir e resolver os problemas. O que dá certo, implementa-se em grande escala. O que dá errado deveria gerar aprendizado.

4. Estabelecer prioridades. Gestores públicos precisam escolher onde gastar o dinheiro. A tendência de um gestor público é tentar distribuir igualmente recursos. A parte mais difícil de priorizar é justamente essa, deixar algo de fora. Jeff Speck tem um argumento para ajudar a dar coragem: “ao tentar ser universalmente excelentes, muitas cidades terminam sendo universamente medíocres”.

* Walkable City – How downtown can save America, one step at a time, de Jeff Speck. Editora: Farrar, Straus and Giroux, Nova York

Política Nacional de Mobilidade Urbana.

“Para driblar o trânsito, que tal correr?”

Publicado originalmente em: Mobilize Brasil
AutorSilvia Stuchi Cruz*
Data: 27/02/2015

Como é sabido, comprar um carro não é um investimento barato (especialmente no Brasil) e, tampouco, sua manutenção. Combustível, IPVA, seguro, estacionamento etc. – se colocarmos tudo no papel, fica difícil fechar a conta no final!

Todos os anos são batidos recordes e mais recordes de congestionamento… O transporte público, embora tenha melhorado com medidas como o corredor de ônibus, ainda está muito aquém de ser considerado um serviço público universal e de qualidade. Perdemos tempo, saúde e dinheiro com um sistema voltado ao transporte individual.

O tempo de deslocamento gasto associa-se diretamente ao bem-estar e qualidade de vida dos cidadãos, uma vez que, ao se perder mais tempo nos deslocamentos diários, diminui-se o tempo dedicado a práticas esportivas e de lazer.

Correr, para ganhar tempo!

Há três anos uso a corrida como meio de transporte para o trabalho e outros compromissos. Foi a forma que encontrei para otimizar tempo e, assim, continuar treinando. Antes de aderir a esta nova rotina, para percorrer quase 8 km utilizando transporte público, levava cerca de 1h20 (trajeto e baldeações). Se tivesse carro, impossível saber o tempo exato. Correndo, levo 45 minutos!

Para contextualizar, a velocidade média de um corredor de rua amador pode atingir entre 8 e 13 km/h. Já a velocidade dos veículos nos horários de pico (manhã e noite), de acordo com as medições da CET, varia de 7 a 15 km/h (números espantosos, não?).

O lado econômico também é destacado: economizo com transporte público cerca de R$ 150,00/ mês.  Além dos benefícios imensuráveis, como o prazer da liberdade de ir e vir, sem estresse, sem enclausuramentos, sentindo o vento agradável no rosto. Nem a chuva atrapalha, ao contrário, refresca quando cai e lava a alma!

Sou pesquisadora em meio ambiente e não tenho uma agenda semanal fechada. Vou encaixando a corrida em minha rotina de um modo muito simples: (i) para a universidade mais perto de minha residência – cerca de 8 km – vou e volto correndo; (ii) já à universidade mais distante – 40 km – vou de transporte público e, na volta, desço no centro da cidade e encerro o trajeto correndo; (iii) nos dias que dou aulas em uma universidade próxima à Avenida Paulista, por se tratar do período noturno, vou correndo e volto de metrô.

E assim vai…

Importante ressaltar que não sou atleta profissional (e nem pretendo ser – risos). Sou uma pessoa “comum” que opta por se deslocar por meio da corrida.

Quando chego aos locais e digo às pessoas que usei minhas próprias pernas para me locomover, as reações são diversas. Vão desde “nossa, que fantástico” até “nossa, você é louca”. Aos que acham loucura, sim, existem riscos: problemas nas calçadas, cruzamentos, iluminação, sinalização, falta de segurança etc. Contudo, se esperarmos as perfeitas condições para realizarmos alguma mudança em nossas vidas, dificilmente sairemos do lugar, certo?

Sílvia Cruz na volta para casa: a liberdade de quem corre! Foto: Corridaamiga  

Tá bom! Mas… E como você faz? As pessoas não percebem que você chegou correndo? Qual a logística?

Vamos lá, seguem algumas dicas

1) Organize a mochila, levando o mínimo possível. A minha pesa uns 2 kg, contendo geralmente: roupas de tecido que não amassam; sandálias; bolsinha com desodorante, hidratante corporal e creme para pentear em frascos pequenos, kit básico de maquiagem, toalha de rosto (pode substituir por fralda de pano que é mais leve), celular, carteira com documentos pessoais, pote plástico com frutas.

2) Coloque sempre tudo em sacolas plásticas. Conserva e organiza melhor os itens que está levando além de proteger da chuva.

3) Quem não tem vestiário no trabalho (ou o ‘Aro 27 Bike Café’ e o ‘Dress Me Up’ por perto) vale fazer um “banho de gato”. Umedecer uma toalha de rosto e lenços umedecidos garantem a higiene. Caso não se acostume com a ideia, realize somente o trajeto de volta para casa e vá de transporte público, carona, táxi…

4) Trajeto: planeje e estude bem as alternativas de rotas antes de sair de casa. Não necessariamente fará correndo o mesmo trajeto que realiza de carro.

5) Chegue, no mínimo, 30 minutos antes do seu compromisso. É um tempo suficiente para resfriar o corpo, descansar e fazer tudo com calma.

Deixar o carro em casa e realizar os deslocamentos diários de outras formas (seja caminhando, correndo, pedalando, patinando, de skate, utilizando transporte público) passa, fundamentalmente, por uma mudança de comportamento e mentalidade (essa ainda é a maior barreira).

Outro fato que pude comprovar de perto: modos de transporte ativo nos despertam outra percepção da cidade, notam-se diferentes paisagens que não são possíveis perceber de dentro dos carros. E isso muda a nossa relação com a cidade, nos aproxima e nos faz querer cuidar mais dela.

Para aqueles que se inspiraram a driblar, ou melhor, a se libertar do trânsito também, fica o convite!

 

*Silvia Stuchi Cruz é doutoranda pelo DPCT/Unicamp, gestora ambiental pela EACH/USP,  colabora com o Mobilize Brasil e pertence à Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP