2015: o ano da mobilidade a pé

O ano em que a mobilidade a pé entrou para valer na pauta. E a palavra caminhabilidade, do inglês walkability, para o nosso vocabulário comum.

Diversas organizações da sociedade civil ligadas à mobilidade ativa, especialmente a pé, participaram dessa valorização de quem anda pela cidade, defendendo seus direitos e promovendo os prazeres e benefícios da caminhada: SampaPé, Corrida Amiga, Pé de Igualdade, Mobilize, Desbravadores de Sampa, Cidade Ativa e a CT Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP.

A Cidadeapé nasceu em março, para reforçar o bloco dos caminhantes, buscando representatividade para todos os que usam seus pés ou cadeiras para se locomover. E também ação política na sociedade e junto aos gestores públicos.

A Cidadeapé é uma organização de voluntários que têm trabalhado com dedicação há  9 meses na defesa do direito de caminhar e da qualidade da caminhada. Agradecemos todos os que se juntaram a nós, que acreditam na mobilidade a pé como meio de transporte e que estão nos ajudando a concretizar o sonho de uma cidade mais caminhável.

Desejamos um 2016 caminhável para todos!

Retrospectiva 2015

Março:  Lançamento da Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo

Abril: 1ª Reunião Geral; Discussão sobre o Plano de Mobilidade de São Paulo na Sala Temática de Mobilidade a Pé; Contribuição na redação de propostas para o Plano de Mobilidade Urbana 2015 referentes à mobilidade a pé

Maio: Trabalho coletivo de sistematização dos objetivos e metas da Associação; Os seis objetivos da Mobilidade a Pé

Junho: Carta de apoio às ciclovias

Julho: Ganhamos um nome e um logo! Agora somos a Cidadeapé; Manifesto de apoio à redução da velocidade nas marginais

Agosto: Comemoração do Dia do Pedestre:  Namore sua Cidade; 10 Mandamentos da Mobilidade a Pé; Sugestões para a licitação do transporte público coletivo; Contagem de pedestres na Av. Vital Brasil; Numa semana marcada pelas mortes trágicas de um idoso e uma criança, Cidadeapé publica carta aberta por uma cidade mais humana; Convite ao prefeito para ir a pé de casa para o trabalho no dia Mundial sem Carro, junto com SampaPé, Mobilize e Pé de Igualdade

Setembro: Caminhada com o secretário de Transportes, junto com Sampapé; Desafio Intermodal – com a participação de integrantes da Cidadeapé como competidores e como acompanhantes; Dia Mundial Sem Carro:  Desafio das Travessias; Prefeito faz o percurso de casa ao trabalho a pé no Dia Mundial sem Carro, após convite de entidades ligadas à mobilidade a pé

Outubro: Relatório do Desafio da Travessia:  o tempo de travessia é curto, o tempo de espera é longo; Instalação da Câmara Temática de Mobilidade a Pé no CMTT, graças a pressão das entidades ligadas à mobilidade a pé; Participação no Encontro Estadual dos Arquitetos; Apresentação sobre vítimas do trânsito na 15ª Reunião CMTT

Novembro: Treinamento de mídia; Apresentação sobre Ativismo Político no Seminário Cidades a Pé

Dezembro: Consultoria para o PAC Mobilidade Ativa; contribuições para o capítulo de mobilidade a pé do PlanMob e participação na reunião de apresentação do plano.

Caminhabilidade

“O ABC da caminhada urbana”

Publicado originalmente em: Caminhadas Urbanas, Estadão
Autor: Mauro Calliari
Data: 17/12/2015

Fim de ano é um momento ótimo para pensar em caminhadas pela cidade. Onde você vai caminhar nas suas férias? E no ano que vem? Que tal uma caminhada de Natal?

Para inspirar, preparei uma lista das coisas que têm a ver com a caminhada. São pensamentos e referências sobre o caminhar. O que torna uma caminhada agradável. Porque alguns lugares são melhores que outros. Quem escreveu sobre isso.

Bem, tinha tanta coisa que fiz em ordem alfabética. Não faltou nenhuma letra, mas tenho certeza de que você vai pensar em outras coisas que ficaram de fora. O que você achou? O que faltou? Mande que eu vou completando. A lista é infinita!

A

Alteridade – A base da experiência do caminhar: ver pessoas diferentes. Reconhecer que somos diferentes, mas que somos capazes de compartilhar civilizadamente um mesmo espaço.

Andar a pé – Em São Paulo e outras grandes cidades brasileiras, o meio de transporte mais utilizado é o pé. Só que a cidade é construída para quem anda de carro. Isso está mudando. Andar a pé é o melhor jeito de experimentar a cidade enquanto cobre pequenas distâncias. E é o melhor jeito de conhecer a cidade enquanto cobre grandes distâncias.

Cinemateca, Vila Mariana

Cinemateca, Vila Mariana. Foto: Mauro Calliari

Arte na rua – Na hora em que sumiram os letreiros com a Lei da Cidade Limpa, constatamos que havia paredes, muros e fachadas vazios. Foi a dica para os artistas de rua começaram a ocupar esses espaços com pinturas e grafites. Alguns são lindos. Outros são pouco melhores que pichações. Mas quem anda por aí adora ver arte e imaginar quem é que saiu de casa e passou horas pensando no que ia deixar de legado para os outros.

Árvores – Quem não gosta de caminhar sob a sombra? Tem gente que acha que folha é sujeira, mas o caminhante agradece aos que cuidam das plantas. Elas limpam o ar, trazem aquela umidade gostosa e reduzem a temperatura nas ruas onde estão.

Avenidas – Do ponto de vista do pedestre, avenidas são ruas mais demoradas de atravessar. Como nossa cidade foi moldada por um plano que se chama Plano de Avenidas, é fácil imaginar o tanto de travessias que teremos que fazer para chegar ao outro lado.

B

Baudelaire – Muitos andaram pela cidade antes dele, mas ninguém influenciou caminhantes como ele. A caminhada deixa de ser uma questão de chegar do ponto A ao ponto B. Com Baudelaire, nasce o prazer de perder-se em meio à multidão, da errância, da observação da cidade.

Barulho – Motoristas de ônibus: cada acelerada até o fim da marcha dói fundo no ouvido de quem está na calçada. Motociclistas: tirem a mão da buzina! Feirantes: sim, eu vou comprar a dúzia de maçãs a R$ 6,50!

Bolsões – Nos bolsões cercados pelas grandes avenidas, ficam os bairros. Alguns são surpreendentemente calmos e são uma delícia para quem anda. O contraste entre uma avenida frenética e uma rua de bairro com bandeirinhas de São João é uma daquelas surpresas que aguardam o caminhante curioso.

Buracos – Cada pequeno desvão na calçada pode significar um pé quebrado. A área de ortopedia do Hospital das Clínicas informa que quedas nas calçadas são uma das maiores causas de atendimento. Olhe bem antes de sair pisando firme por aí. Se cada passo tem 60 cm, a cada quilômetro, damos 1667 passos. Numa caminhada tranquila, de cinco quilômetros, portanto, terão sido 8335 as vezes em que temos que olhar cuidadosamente para o chão para ter certeza de estar pisando em terreno plano.

C

Calçada – O item mais essencial numa caminhada. Se os romanos antigos já achavam importante separar as pessoas dos cavalos e das bigas, os parisienses modernos demoraram até 1780 para construir as primeiras calçadas. As nossas calçadas parecem perdidas em algum século no meio dessa história, mas é por elas que caminhamos. É por elas que chegamos à padaria, é ali que olhamos uma banca de jornal ou levamos o bebê para dar uma volta. É nelas que encontramos gente diferente.

Calçadão. Praça Antonio Prado.

Calçadão. Praça Antonio Prado. Foto Mauro Calliari

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Calçadões – A ideia de separar pessoas e carros vai mais longe nos calçadões. Na década de 1970, em toda a parte do mundo, milhares de metros quadrados de ruas viraram calçadões. No Brasil, Curitiba teve a provável primazia. Em São Paulo, os calçadões ainda trazem a emoção adicional de achar seu caminho em meio à profusão de gente, pastores, agências de emprego, músicos, camelôs e vendedores.

Carros – O inimigo número um do pedestre são os carros. Eles estão por toda parte e seus motoristas, apesar de serem pessoas como todas as outras, quando ganham o comando de um motor, mudam de comportamento. De um modo geral, quanto mais longe dos carros, melhor. Quem anda sofre com buzina, com fumaça e com a presença física dos carros, caminhões, ônibus e motos. Mas diante da inevitabilidade de sua presença, quanto menos velozes e menos barulhentos eles estiverem, melhor para quem anda.

Avenida São Luiz

Avenida São Luiz. Foto: Mauro Calliari

Centro – Caminhar pelo centro é sempre a oportunidade de entrar em contato com a identidade da cidade. A densidade aumenta, o número de pessoas aumenta, há mais prédios históricos, há uma vibração na rua. O centro da cidade conta a nossa história, instiga a observação, dá sentido à caminhada.

Comida – Descobrir o lugarzinho que serve aquela coxinha, um pastel na feira, um café num boteco é parte do prazer de caminhar. Barracas de feira, botecos, bares, foodtrucks, restaurantes, cafés. Eles estão por toda a parte e encontrar o lugar certo para terminar a caminhada é uma arte.

D

Diversidade – É difícil lidar com a diversidade quando se anda por aí. Mas que prazer observar situações de convivência entre pessoas diferentes! Numa mesma vizinhança, encontramos pessoas de idades diferentes conversando. Num bar, ouvimos gente falando línguas diferentes no mesmo balcão. Na Paulista, executivos e hipsters na mesma calçada. Bebês e skatistas na mesma praça? É difícil, mas pode dar certo, é só aprender o código da convivência em comum.

E

Espaço público – Já se disse que, numa boa cidade, os espaços públicos são tratados com o mesmo cuidado que os espaços privados. Os largos, as praças, as ruas, as marquises, esses bens de uso público são o espelho de nossa sociedade. Também há os espaços que são chamados de semi-públicos. São aqueles que, apesar de serem privados, são de uso coletivo: lojas, shoppings, estádios. A diferença é que tem guarda na porta.

Praça Roosevelt em dia de evento

Praça Roosevelt em dia de evento. Foto: Mario Calliari

Escala humana – As cidades construídas para serem vistas pelas pessoas são muito diferentes daquelas feitas para se andar de carro. Aliás, cidades para pessoas é o mote do urbanista dinamarquês Jan Gehl. Nelas, o caminhante olha para os prédios ao longo da rua e se sente acolhido. O segredo é a preocupação com os pequenos detalhes. Um jeito bom de entender a escala humana é se perguntar, diante um espaço público: “As pessoas têm a chance de se encontrar? E tem vontade de ficar mais tempo? Quer ver um exemplo de escala humana? Pense numa praça medieval!

F

Fachadas ativas – Termo técnico para designar aquelas fachadas que se abrem para a rua. Vitrines, janelas, mesas, aberturas, tudo o que quebre a mesmice de um muro, de uma empena, de uma parede sem graça. Aliás, falando em coisas “ativas”, tecnicamente, caminhada é também chamada de “meio de transporte ativo”.

Faixa de pedestre – Todo mundo sabe o que é. Mas nem todo mundo que dirige pára quando vê uma. A provável exceção é Brasília. Apesar de ser um lugar bem difícil para o pedestre, a cidade tem essa qualidade: lá, para-se na faixa para que o pedestre atravesse. Em outros lugares, olho vivo!

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Foto: Mauro Calliari

Flanar – O termo flâneur já existia na França desde o século XIX. Com Baudelaire, entretanto, ganhou status. Flanar é mais do que ir do ponto A ao ponto B. É ligar-se à cidade, observar as pessoas, devanear sobre os objetos, seguir um ritmo interior e deixar-se levar. Vários movimentos artísticos usaram o caminhar como forma de expressão, os dadaístas, os situacionistas. Conheço um grupo de artistas brasileiros que praticam isso quase que profissionalmente: “se encontrar uma pessoa de camisa vermelha, viro à direita, se vir um toldo azul, sigo em frente”, etc, etc. E assim, vão se perdendo pela cidade. Com método e com classe.

Fruição – Essa é a nossa capacidade de abrir o sentidos e deixar-se envolver pela cidade. Não é fácil, a cidade às vezes é insegura, mal-cheirosa, ameaçadora. Mas quando acontece… Veja o prazer da Clarissa Dalloway, personagem de Virginia Wolf, quando se “entrega” à sua Londres de 1925. “Nos olhos das pessoas, no bulício, na pressa ou lentidão dos transeuntes; na algazarra e no fragor; carruagens, automóveis, autocarros, caminhões, homens-sanduíche aos tropeções ou de passo arrastado; realejo e fanfarras; no triunfo, no tinido ou na estranha melodia de um aeroplano lá no alto estava aquilo que ela amava: Londres, a vida, este momento de junho.”

G

Garagem – Cuidado! Não vá entregar-se à fruição urbana sem garantir que uma fração do seu olhar esteja dedicada a fugir dos carros que entram e saem das garagens pelas calçadas.

Gordon Cullen – Escreveu um livro lindo que trata da paisagem urbana a partir do olhar do caminhante – a visão serial. Cheio de fotos, ele demonstra como alguns lugares são agradáveis ao olhar e instigam a curiosidade sobre o que vem a seguir. Também mostrou como os detalhes são importantes para quem caminha.

H

Haussmann – o Barão responsável pela administração de Paris em meados do século XIX não teve dúvidas em rasgar o tecido da cidade medieval da cidade. Desalojou milhares de pessoas. E criou os deliciosos boulevares e o estilo urbano que até hoje encanta o mundo. Contradições do urbanismo.

I

Identidade – Uma criança sai de casa sozinha pela primeira vez. Ela leva um dinheirinho para comprar um pão na padaria. Encabulada, encontra coragem para conversar com a atendente. Espera ansiosa pelo troco, torcendo para não ser enganada. Contente, descobre que veio tudo certinho. Na volta, vê pessoas que não inspiram confiança e acelera o passo até chegar em casa. A nossa identidade surge de várias interações, mas muito do que somos é descoberto na rua através desse jogo de tentativa e erro com os desconhecidos, que o sociólogo Richard Sennett chama de “play-acting”.

J

Jane Jacobs – A musa da diversidade, da segurança, da cidade humana, ativista que se opôs bravamente à destruição de bairros pelas vias expressas em NY nos anos 60. Inspirou até uma caminhada, que acontece em várias cidades do mundo anualmente: a “Jane´s walk”.

João do Rio – o nosso Baudelaire. Explorou extasiado a modernidade do Rio de Janeiro do começo do Século XX. Seu palco é a cidade. Sua obsessão, o boulevar da Av. Central do Rio de Janeiro. “É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência”.

K

Kevin Lynch – Pesquisou a forma urbana e a organização espacial das cidades americanas. A forma das ruas, os pontos nodais, espaços públicos, comércio, todas essas variáveis servem como referências importantes para sabermos onde estamos. Uma de suas conclusões: um ambiente legível pode reforçar “a profundidade e a intensidade potenciais da experiência humana.”

L

Lugar – Um espaço que adquire significado se torna um lugar. A cidade não é imune aos nossos passos. Quando andamos, damos sentido aos espaços da cidade, transformando-os em lugares. De alguma maneira, andar nos permite “tomar posse da cidade”.

Lojas – As lojas são aliadas do pedestre. Os comerciantes tomam conta de suas calçadas, ajudam na segurança e as vitrines atraem nosso olhar. Lojinhas de fachadas estreitas são melhores ainda. Elas trazem uma novidade a cada quatro ou cinco metros!

Lojas na r. Silva Teles Decoração de Natal e uma árvore.

Lojas na r. Silva Teles Decoração de Natal e uma árvore. Foto: Mauro Calliari

M

Mapa – Em tempos de aplicativos, temos o impulso de saber onde estamos a cada segundo. Calma, a cidade também pode ser decifrada com paciência. Contemple a possibilidade de olhar para um mapa de papel.Ou então, deixe-se perder e, quando estiver realmente perdido, pergunte a um dono de banca de jornal em que bairro está. Você vai se achar, sem stress.

Multidão – De vez em quando, é bom cruzar áreas muito densas. O burburinho dos desconhecidos traz a paz do anonimato.

Muros – Longos muros repelem o olhar e geram uma sensação de desconforto. Experimente andar ao longo de uma linha férrea, como as tantas que cruzam as grandes cidades. Ou ao longo de um condomínio murado. O caminho fica sem graça, a falta de referências é cansativa e as calçadas se tornam mais inseguras.

N

Não-lugar – É o espaço destituído das expressões simbólicas de identidade, relações e história. Marc Augé, o autor da expressão atribui essas características principalmente às estações de transporte e aeroportos, em que estamos apenas de passagem. Curiosamente, algumas estações de metrô começam a adquirir identidade própria e se tornam pontos de encontro e de permanência, mesmo sem ter sido planejadas para isso. Basta ir no entorno da estação Liberdade do metrô lotada de jovens num fim de semana para ver como isso está acontecendo.

O

Orientação no espaço – “Tão mais confortável é a cidade quanto mais ela é reconhecível pelos seus habitantes”. Lynch, de novo.

Olhos da rua – Linda expressão criada pela J.Jacobs para se referir às pessoas que estão em contato com a rua enquanto fazem suas atividades. São elas que garantem que um lugar seja seguro. Faça o teste. Vá a uma rua com prédios baixinhos, com lojas embaixo, e dê um berro. Várias pessoas vão botar a cara na janela. Se fosse um assalto, talvez chamassem a polícia. Faça o mesmo na frente de um condomínio de 35 andares com muros altos e veja se alguém está disposto a descobrir que berreiro é esse.

Fachada com Lojinhas, Itaim Bibi

Fachada com Lojinhas, Itaim Bibi. Foto: Mauro Calliari

P

Parque – Se uma praça representa a possibilidade de uma parada na cidade, um parque é a oportunidade de fugir dela durante um tempo.

Pedestre – Palavra que ainda é usada às vezes como sinônimo de coisa pobre, rasteira. Na nossa cultura, pedestre era quem não conseguia comprar seu carro. Isso está mudando tanto que o culto ao carro vai parecer anacrônico em poucos anos. Assim como nos EUA, cresce o número de brasileiros que não fazem questão nenhuma de dirigir. Andamos a pé, sim senhor.

Patrimônio Histórico – Um grande prazer é poder caminhar por lugares que fazem parte da história da cidade. É comum a gente se referir a eles com carinho e intimidade: “nos encontramos no Masp” ou “vamos andando até o Pátio do Colégio?”. Eles dão sentido à caminhada e dão sentido à cidade.

O busto de Álvares de Azevedo em frente à São Francisco. Foto: Mauro Calliari

Praças – Nada como um espaço de permanência para quem está de passagem. Uma parada num banco permite ao caminhante cansado contemplar a vizinhança, ver gente, pensar e aproveitar para não pensar em nada.

Largo da Batata à noite

Largo da Batata à noite. Foto: Mauro Calliari

Q

Quadras longas e curtas – Quando você tem que ir de um lugar a outro frequentemente, é bom ter a chance de fazer caminhos diferentes a cada vez. A Jane Jacobs sugere que quadras curtas permitem que você mude a cada vez e torne seu trajeto muito mais interessante.

R

Rua – Nossas cidades se organizam em ruas. Parece óbvio mas não foi sempre assim. Houve até cidades que cresceram sem ruas, como Çatalhoyuk, na Turquia de sete mil anos atrás, que, por incrível que pareça, tinha quase cinco mil habitantes e nenhuma rua. As pessoas passavam por dentro das casas uma das outras para passear por aí. Hoje, a rua é o espaço público por excelência. Algumas cidades têm essa malha quadradinha, como as cidades espanholas na América Latina ou Goiânia e Belo Horizonte, e outras são à portuguesa, com ruas que seguem o relevo. É um prazer passear pelas ruas e perceber que cada uma tem sua cara, ou várias caras. Como a Av. Sapopemba, com mais de 20 quilômetros, que ainda vai ser objeto de uma expedição científica.

S

Segurança – Ninguém quer se sentir ameaçado num caminhada.Ruas vazias dão medo. Ruas que têm gente, lojas, bares, ajudam a garantir a segurança do caminhante. Existem urbanistas sábios que dizem que um bom indicador de segurança é a presença de mulheres e crianças nas ruas! A segurança também envolve o próprio ato de caminhar e a chance de sobreviver com dignidade a um passeio pela cidade – faixas de travessia, sinais de pedestres, acessos, guias, calçadas sem buracos, tudo o que faz a gente pensar na cidade sem ter que ficar paranóico olhando para cada armadilha nas calçadas e travessias.

Sentar – É paradoxal. Mas quem anda muito, precisa muito sentar de vez em quando. Para descansar, para apreciar, para fazer uma ligação, para esperar alguém. A cidade tem pouquíssimos bancos. Tem até um grupo no facebook chamado “Bancos com encosto para Sampa”, em que as pessoas falam disso. Faltam bancos nas praças. Faltam bancos nas estações. Faltam bancos nas ruas. Bancos que sejam confortáveis, com encosto e sombra.

Urbanidade. Duas desconhecidas no Largo da Concórdia

Urbanidade. Duas desconhecidas no Largo da Concórdia

Sinal de trânsito – A sinalização é a chave da segurança do pedestre. Quando apertamos aquele botãozinho no poste, esperamos que alguma coisa aconteça. Alguns botões são apenas placebos para que o ser humano agüente esperar um, dois, três minutos enquanto os carros continuam passando. As associações de pedestres estão se mobilizando para mudar essa relação. Não faz sentido fazer alguém que está andando esperar mais do que alguém que está sentado num carro.

Solidão – Em alguns momentos, é muito bom ficar sozinho. Nada melhor do que uma caminhada longa para deflagrar aquele cansaço bem vindo. A cabeça se abre para as novidades e alguns problemas talvez fiquem mais claros depois de um grande passeio.

T

Trânsito – As rádios dão boletins frenéticos: “100 km de trânsito na marginal”, “acidente com vítima faz o motorista perder tempo na radial”. Nossa lógica está toda voltada para o carro. Um dia, ouviremos boletins voltados às pessoas: “Você que trabalha na Av. Paulista, hoje está um dia bom para uma passadinha no Parque Trianon antes de pegar o metrô de volta para casa. Cuidado com a fila em frente ao sorveteiro!”.

Transporte Público – Quem toma ônibus, metrô, trem tem sempre que andar algum trecho a pé. Mas quem planejou as grandes estações provavelmente nunca andou até elas. As estações da CPTM obrigam o passageiro a subir a ponte desviando-se dos carros. As estações de metrô são grandes, sem graça, difíceis de acessar e sem nenhum lugar para sentar. Nos terminais de ônibus, ouve-se com freqüência alguém no auto-falante: “cuidado com os ônibus ao atravessar as faixas” ou – pasme:”é proibido tirar fotos dentro da estação”. Hã?

Triangulação – O pesquisador americano William Whyte filmava pessoas nos espaços públicos de N.York. Depois de analisar os filmes, ele descobriu que estranhos começavam a conversar entre si quando assistiam juntos a artistas de rua. Forma-se um triângulo: pessoa 1 – artista – pessoa 2. É só lembrar do show do Elvis Presley em frente ao Center Três para querer sorrir para a pessoa ao seu lado…

U

Urbanidade – A atitude que permite que pessoas desconhecidas possam conviver civilizadamente. O conflito vai sempre existir. A educação é que vai ajudar a resolvê-los.

Esperando para atravessar a Líbero Badaró

Esperando para atravessar a Líbero Badaró. Foto: Mauro Calliari

Usos combinados – É difícil só moradores ou só trabalhadores sustentarem negócios. As lojas ficam abertas o dia todo e alguns grupos só aparecem em períodos curtos. Por isso é importante ter gente e usos diversos no mesmo lugar. Em São Paulo, há várias ruas que abrigam apenas uma função, que provavelmente enfrentam esse tipo de problema. A Av. Berrini, por exemplo, tem trechos inteiros de escritórios sem residências nas imediações, o que gera um pico de movimento no comércio local durante o almoço e um vale após o fim do expediente. O oposto também acontece, em bairros que sofreram recente verticalização, como a Vila Leopoldina, por exemplo, onde há predominância de prédios residenciais (aliás, fechados para as ruas e ocupando quarteirões inteiros murados), o que provavelmente exemplifica a situação oposta em relação à dinâmica de ocupação das calçadas.

V

Veneza – Provavelmente a melhor cidade do mundo para caminhar. O segredo: não há carros. A pior? Alguém se habilita?

Viaduto – O pesadelo do caminhante. Os viadutos são construções feitas para os carros. Os pedestres sofrem para encontrar o acesso seguro

Vazios urbanos – As áreas mais difíceis e perigosas na cidade estão na várzea dos rios, ao longo dos trilhos de trem. A vontade é de pular logo esses lugares e ir para longe dali.

X

X, faixa em. – As faixas de pedestre em xis, popularizadas na movimentadíssima Tóquio, já estão chegando por aqui. Elas diminuem muito o tempo de cruzamento. Em vez de fazer duas paradas, você vai direto até o ponto diagonal.

Y

Yazigi, Eduardo – Geógrafo brasileiro, autor do belo livro “O mundo das calçadas”, que explica através da historia e da legislação como chegamos até aqui.

W

Walter Benjamin – Filósofo alemão que trouxe Baudelaire e sua “Les Fleures du Mal” para o centro da conversa sobre a modernidade. Um trechinho do seu “Infância berlinense” é um bom exemplo desse amor à rua: “Não há nada de especial em não nos orientarmos numa cidade. Mas perdermo-nos numa cidade, como nos perdemos numa foresta, é coisa que precisa se aprender”.

Z

Zoneamento – Nossas cidades cresceram sob a idéia de que usos diferentes têm que ficar em lugares diferentes. Na prática, o caminhante encontra várias cidades diferentes num mesmo trajeto. Talvez isso fizesse mais sentido antigamente, quando seu vizinho poderia ser um curtume ou um matadouro, mas hoje isso poderia ser suavizado. Se aprendermos as regras de convivência, dá para ter uma academia de ginástica na mesma rua em que há um prédio residencial e uma repartição pública. No nível da rua, quem caminha vai perceber a diferença e agradecer pela vitalidade.

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Foto: Mauro Calliari

 

 

Seminário “Cidades a Pé”: documentário

Em novembro de 2015 aconteceu em São Paulo um evento inédito: o primeiro seminário internacional no Brasil dedicado exclusivamente à mobilidade a pé.

Organizado pela Comissão Técnica de Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP, o seminário durou quatro dias, contou com a participação de especialistas de diversos países e estados brasileiros. Um marco para a discussão de cidades mais humanas e caminháveis.

Vejam como foi.

Cidadeapé comenta a Mobilidade a Pé no PlanMob 2015

O Plano Municipal de Mobilidade Urbana de São Paulo, que servirá para orientar as prioridades e investimentos em mobilidade na capital paulista de 2016 a 2030, foi apresentado no dia 16/12/2015, na 16a reunião do Conselho Municipal de Trânsito e Transporte.

O texto integral do PlanMob deve ser publicado nos próximos dias, quando poderemos fazer uma análise aprofundada de como  a mobilidade a pé foi contemplada.

A Cidadeapé, representada por Ana Carolina Nunes, comentou o capítulo dedicado à Mobilidade a Pé durante a reunião de apresentação do plano. São as primeiras observações sobre o que foi apresentado:

Houve um grande esforço nos últimos meses para incluir a mobilidade a pé no debate da mobilidade da cidade.
Agradecemos que muitos dos temas que discutimos nos últimos meses, como o conceito de rede estrutural de mobilidade a pé, tenham sido inseridos no texto do PlanMob.
Ter metas específicas para a requalificação de calçadas é extremamente importante para garantir uma cidade com acessibilidade universal, o que significa garantia de qualidade de vida para toda a população.
É importante, no entanto, levar em conta todos os demais elementos que compõem a infraestrutura de mobilidade a pé, que não são apenas as calçadas, mas incluem travessias, passarelas, escadarias, iluminação, mobiliário urbano, arborização, etc.
É essencial também integrar a mobilidade a pé a todos os outros sistemas de transportes, especialmente o transporte público sobre roda.
Vamos continuar esse diálogo no ano que vem, com a cadeira de Mobilidade a Pé no CMTT.

PlanMob - Rede de Mobilidade do Pedestre2

16ª Reunião Geral do CMTT: apresentação do PlanMob

A Cidadeapé estará presente na 16a reunião do CMTT na qual será apresentado o Plano Municipal de Mobilidade Urbana de São Paulo, o PlanMob.

Muitos dos nossos associados se conheceram nas primeiras discussões que aconteceram na sala temática de Mobilidade a Pé na “Frente de Debates Temáticos para a construção do PlanMob-SP/2015”, que aconteceu em 11/04/2015.

Na ocasião, diversas pessoas e organizações engajadas na mobilidade a pé apresentaram uma proposta de Diretrizes para o Plano de Mobilidade Urbana 2015 da Cidade de São Paulo referentes à mobilidade a pé.

Parte das sugestões colocadas nas diretrizes parecem ter sido incorporadas ao novo documento, o que é um grande avanço para as mudanças dos paradigmas da mobilidade. Esse aliás foi o tema discutido na última reunião da Câmara Temática de Mobilidade a Pé do CMTT, da qual a Cidadeapé participa.

O evento de lançamento do PlanMob é amanhã e aberto ao público. Convidamos todos a participarem e destacar as necessidades de quem anda a pé pela cidade.

16a reuniao do CMTT

“Fonte: Secretaria Municipal de Transporte

A Secretaria Municipal de Transportes convoca todos os conselheiros e convida os interessados para a 16ª REUNIÃO ORDINÁRIA DO CONSELHO MUNICIPAL DE TRANSPORTE E TRÂNSITO, a ser realizada no dia 16/12/15 – quarta-feira, das 15h30 às 17h35,Conselho Regional de Contabilidade – CRC – Rua Rosa Silva,60 – Auditório

Pauta:
15h30 – Recepção dos conselheiros e convidados
15h45 – Abertura (com 50% mais um dos conselheiros)
16h00 – Abertura (com qualquer número de conselheiros presentes)
16h05- Palavra Livre
16h35 – Apresentação do Plano Municipal de Mobilidade Urbana de São Paulo / 2015
17h35 – Encaminhamento e Encerramento
Favor confirmar presença através do e-mail cmtt@prefeitura.sp.gov.br

Data: 16/12 – quarta -feira,
Horário: das 15h30 às 17h35
Local: Conselho Regional de Contabilidade – CRC – Rua Rosa Silva,60″

“Licitações de transportes também devem estabelecer como serão terminais e estações, defende associação”

Publicado originalmente em: Blog do Ponto de Ônibus
Autor: Adamo Bazani
Data: 8/12/2015

Associação Cidadeapé diz que acessibilidade não se limita a rampas e piso-baixo nos ônibus, mas também informação ao passageiro. Associação apresentou propostas para licitação de São Paulo

Como uma licitação de serviços de ônibus pode auxiliar a vida de quem anda a pé? Na prática, em muitas coisas. É o que mostra a Cidadeapé, uma associação pela mobilidade a pé, que apresentou uma série de sugestões para a licitação dos transportes coletivos em São Paulo.

O Blog Ponto de Ônibus conversou por e-mail com uma das integranrtes do grupo, Joana Canêdo.

A associação faz parte da câmara temática de mobilidade a pé do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito da capital paulista.

De acordo com Joana Canêdo, uma licitação de transportes não deve especificar apenas lotes para as empresas operarem, linhas e tipos de ônibus, mas também como serão os terminais e as estações.

“No momento de licitar serviços de ônibus de trem ou metrô, especificar também as características das estações, terminais e baldeações, levando em conta acessibilidade, conforto, caminhos curtos e segurança para as pessoas que entram e saem dos sistemas e trocam de sistemas.”

Joana Canêdo ainda diz que em grande parte dos planos de mobilidade de diversas cidades, os pedestres não são levados em consideração de fato, o que para ela é um erro, já em que todos os deslocamentos urbanos, sejam por ônibus, trens, metrôs e até mesmo por carro, em algum momento a pessoa é pedestre.

Ela também fala sobre o conceito mais amplo de acessibilidade, que é permitir que todas as pessoas, portadoras de deficiência ou não, tenham acesso à cidade. Segundo Joana, acessibilidade passa também por informação ao usuário de transporte público, o que em São Paulo é insuficiente, ainda mais em relação ao sistema de ônibus. Confira entrevista na íntegra:

1) Como a Cidadeapé vê a atual realidade no país da integração (ou complementação) entre deslocamentos a pé e por transporte público? Uma crítica que passageiros fazem, por exemplo, é que o ônibus é até acessível, duro é chegar nele. O que fazer para melhorar a situação?

Praticamente todos os deslocamentos urbanos têm pelo menos um componente a pé, quando não têm mais de um. A grande maioria das pessoas que usam o sistema de transporte coletivo costuma chegar aos pontos de ônibus/terminais/estações a pé, fazem a baldeação (troca de carro e/ou de meio de transporte) a pé, e saem do transporte coletivo a pé. O sistema de transporte a pé é complementar ao de transporte público coletivo. E por isso mesmo deveriam ser considerados como parte de uma grande rede de transporte/mobilidade.

O que falta em nossas cidades é pensar na mobilidade urbana como um sistema em rede, multimodal e integrado. Para tanto são necessários Planos de Mobilidade que contemplem a rede toda, cada etapa do deslocamento, mas também os acessos aos diversos equipamentos e partes do sistema. Não se pode pensar no sistema de ônibus isoladamente ou no metrô como apenas o serviço dos trens. Tanto os ônibus como os metrôs, trens, e demais meios, precisam contemplar em suas estações, terminais, pontos e acessos, a maneira como as pessoas se deslocam para chegar aos veículos e sair dos veículos, passando pelas plataformas, corredores e espaços dos terminais/estações até chegar à rua. Como se diz: as pessoas não brotam nos pontos de ônibus, elas chegam até eles, em geral usando as calçadas dos arredores, atravessando as ruas, etc. – ou seja, a rede engloba calçadas, travessias,  acesso aos pontos/terminais/estações, caminhabilidade dentro dos terminais/estações etc.

Para tanto é necessário:

  1. Um Plano de Mobilidade Compreensivo, que considere toda a rede de transporte (a pé e coletivo)
  2. Ter a pessoa como parâmetro construtivo e não sua forma de locomoção, para fazer a cidade em torno dos cidadãos e não só dos meios de transporte.
  3. No momento de licitar serviços de ônibus de trem ou metrô, especificar também as características das estações, terminais e baldeações, levando em conta acessibilidade, conforto, caminhos curtos e segurança para as pessoas que entram e saem dos sistemas e trocam de sistemas.

Quanto ao PlanMob de SP, a Câmara Temática de Mobilidade a Pé do CMTT (que conta com associados da Cidadeapé entre seus membros) discutiu exatamente isso na semana passada. O PlanMob de São Paulo deve ser apresentado ao público no dia 16/12, e a parte de mobilidade a pé ainda precisa de ajustes no que se refere a se pensar no modo a pé como uma rede conectora e continua, chave da intermodalidade, além de constituir cerca de 30% dos deslocamentos exclusivos da cidade.

2) Na fase de consulta pública da licitação dos transportes de São Paulo, a Cidadeapé elaborou sugestões para a prefeitura. Quais foram as principais e como uma licitação de ônibus pode melhorar a vida de quem anda a pé?

A Cidadeapé foi uma das várias entidades da sociedade civil que analisaram e discutiram juntas a licitação do transporte coletivo de São Paulo. Junto com o IDEC, o Greenpeace, a Rede Nossa São Paulo, o Apé, a Rede Butantã, entre outras, foi formado o grupo de discussão e de propostas “Busão dos Sonhos”. Após reuniões, inclusive com a Sptrans, cada entidade enviou sugestões mais específicas de suas áreas para a Sptrans.

A Cidadeapé focou em dois aspectos: caminhabilidade e informação ao usuário.

1) A caminhabilidade deve estar inserida em todos os espaços relacionados ao Sistema de Transporte Coletivo, quais sejam: terminais de ônibus, pontos de conexão e transferência, paradas em ruas e em corredores, calçadas do entorno, assim como travessias de acesso. Todos esses espaços precisam ter pavimentos largos, uniformes, regulares, acessíveis, sem buracos ou obstáculos. As entradas e saídas de terminais, assim como seu entorno, precisam ser tão amplas e acessíveis quanto seu interior. Os acessos, como travessias, cruzamentos, passarelas, precisam também de toda atenção para comportar, com conforto e segurança, o fluxo de pessoas que utilizam o Sistema. Sinalização também contribui para a caminhabilidade: ao saber onde ir, os trajetos são mais curtos, eficientes e seguros. Não basta ônibus de última geração – é preciso calçadas e travessias de qualidade também.

2) Além disso é necessário atentar para a informação aos usuários dos ônibus. Os deslocamentos pela cidade são muito mais confortáveis e eficientes quando se sabe onde pegar um ônibus, onde descer do ônibus, quando tempo demorará o trajeto e como será a baldeação. É essencial que os ônibus disponham de informações básicas dentro deles, indicando pontos de parada, conexões e horários. Se a tecnologia existe, se equipamentos de áudio e vídeo já estão previstos nos carros, por que não garantir esse serviço essencial aos passageiros, que aumentaria a qualidade do deslocamento?

Aqui está o que foi apresentado:

https://cidadeape.org/2015/09/02/cidadeape-protocola-propostas-para-o-edital-de-licitacao-dos-onibus-de-sao-paulo/

Mas sempre há outras medidas relacionadas à infraestrutura de ônibus que não estão previstas em licitação, mas que podem e devem ser adotadas pela prefeitura. A primeira diz respeito aos pontos de ônibus, que devem ser dimensionados em adequação à demanda de usuários, e à sua sinalização, que pode integrar a rede de sinalização para pedestres. Para isso, os pontos de ônibus deveriam contar não somente com informações sobre as linhas de ônibus e horários, mas também sobre os equipamentos de interesse e mapa dos arredores. A segunda medida diz respeito ao acesso aos pontos de ônibus, que deve ser planejado em integração com o restante da rede de ônibus e de mobilidade a pé. Por exemplo, garantindo que as baldeações sejam curtas, os pontos de ônibus sejam sempre próximos da esquina e dos pontos para onde se vai trocar de ônibus.  A deve ser travessia segura nas suas proximidades (uma vez que um ponto de ônibus no meio de uma quadra torna-se um “polo gerador de travessias”) e o tamanho adequado das calçadas, a fim de acomodar tanto as pessoas que por ali transitam quanto as que aguardam os ônibus.

3) No Brasil, quando se fala em acessibilidade, logo o primeiro pensamento é em relação ao deficiente físico. Mas acessibilidade não é mais que isso? Não é deixar as cidades e os transportes mais acessíveis para todos os cidadãos?

Acessibilidade á muito mais do que isso! É verdade que se pode partir da premissa que se uma calçada, uma rua, uma cidade é boa para quem anda de cadeira de rodas, ou para um idoso, ou para uma criança, ela é boa para todos.

Um bom exemplo são os ônibus de piso baixo – além de serem o tipo mais adequado para o acesso rápido de cadeirantes (ao contrário dos ônibus com elevadores), garante mais conforto para idosos, crianças pequenas, adultos com crianças de colo, carrinhos de bebê, bagagens ou mobilidade reduzida.

Pensando também no crescimento da população idosa, a acessibilidade torna-se condição primordial para o conforto a maioria dos usuários de transporte público e do transporte a pé.

Mas acessibilidade significa, de uma maneira mais ampla, permitir o acesso aos espaços públicos e privados e ao transporte como um todo. Isso inclui aquilo que já falamos: como chegar ao ponto de ônibus e à estação. Travessias seguras e nos locais certos (perto dos pontos); calçadas largas o suficiente para acomodarem todos que estão esperando o ônibus ou passando pelo ponto; estações de trem e de ônibus nas quais é possível chegar com tranquilidade da rua até as plataformas, de maneira mais curta e sem aperto (a estação Pinheiros, por exemplo, é o contrário disso: não sei quantos andares de escadas em todas as direções e espaços apertados); centros de compra nos quais os estacionamentos e as passagens para carros não se sobrepõem ao acesso de quem chega a pé, andando pela rua; ter terminais, estações e linhas de ônibus próximas a equipamentos de educação e saúde, com facilidade de acesso; etc.

O papel de associações como a nossa é criar novos paradigmas, conceitos, hábitos de olhar para uma questão do senso comum. Se buscamos a ideia do “acesso universal” e, se estiver acessível para quem tem mais restrição, vai estar ótimo para quem não tem.

4) Como a Cidadeapé vê as tecnologias dos veículos de transporte público em relação à acessibilidade: elevadores, piso baixo, etc? Elas são satisfatórias?

Como dissemos acima, piso baixo é mais eficiente e confortável para todos, não apenas para cadeirantes. Mas não basta o ônibus ser acessível, o ponto de ônibus também tem que ser, para que se possa passar da calçada para o carro. Assim como as ruas do entorno têm que ser, para que se chegue ao ponto de ônibus. Tudo está conectado!

Também é preciso considerar outros tipos de tecnologia, como para cegos, que precisam de avisos sonoros, comunicando sobre próximas paradas e coisas assim.

5) Se as ruas tivessem melhores condições, com menos valetas, buracos e desníveis, os ônibus, na visão da Cidadeapé, poderiam ser mais adequados?¨Dizemos isso porque muitos empresários alegam que não colocam ônibus de piso baixo por causa da  condição das vias, que estragaria todo o veículo, sendo necessário o ônibus piso alto com elevador que, na prática, só é acessível para cadeirante.

Melhorar a qualidade das vias, sempre, que para nós inclui necessariamente as calçadas (parte do viário e do sistema de transporte), é condição “sine qua non” para a melhoria de todo sistema de mobilidade.

No entanto, não se pode ficar sempre esperando que alguém faça alguma coisa antes para só depois fazer a sua parte. É preciso ir fazendo sempre, e cobrando melhorias pelos outros lados. Cada um faz sua parte e contribui junto para melhorar o sistema como um todo. O viário estar inadequado não pode ser uma desculpa para não melhorar os ônibus.

6) Fale um pouco mais sobre a Cidadeapé.

Somos uma associação da sociedade civil que defende os direitos de quem anda a pé (incluindo em cadeiras de rodas; com muletas; bengalas; ou seja, os direitos de todas as pessoas) pela cidade. Lutamos por uma cidade mais humana, confortável, acessível e segura para todos.

A Cidadeapé nasceu em março de 2015, buscando dar representatividade a uma grande parte da população que ainda não tinha voz na cidade: as pessoas que andam, e que, apesar de serem a maioria das pessoas, nunca tiveram força política.

Atuamos fazendo divulgação do conceito de mobilidade a pé, assim como do prazer e dos benefícios de caminhar pela cidade (tanto pessoais como sociais, econômicos e ambientais).

Também fazemos pesquisa (legislação, contagem de pedestres, etc.)

E lutamos por políticas públicas e investimentos na área de mobilidade a pé.

Lutamos pela criação e fazemos parte da Câmara Temática de Mobilidade a Pé no CMTT.

Participamos recentemente como consultores/colaboradores da proposta de PAC Mobilidade Ativa lançada pela União dos Ciclistas do Brasil (https://cidadeape.org/2015/12/07/pac-mobilidade-ativa/)

 

Imagem do post: Terminal Ana Rosa. Foto: Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas.

Reunião do GT Política a Pé

Esta segunda, 14/12/15, haverá reunião do GT Politica a Pé da associação. O GT fará uma balanço do ano de 2015 e vai começar a preparar as atividades de 2016.

Todos os interessados em participar das discussões sobre políticas públicas que podem impactar a vida de quem anda pela cidade são bem-vindos!!!!

Não haverá reunião geral.

Pauta da reunião do GT Política a Pé

  • 1 milhão de m2 de calçadas
  • DENATRAN – mensagens publicitárias e sinalização de saída de garagem
  • Gesto do Pedestre
  • Licitação dos serviços de ônibus
  • Encontro com o MPE
  • Câmara Temática da Mobilidade a Pé
  • Informes e outros assuntos
Reunião GT Política a Pé
Dia: Segunda-feira, 14/12/15
Hora: Das 19h às 21h
Local: Câmara Municipal – Sala Tiradentes
Endereço: Viaduto Jacareí, 100
Como chegar: Metrô Anhangabaú,
Terminal Bandeira
Imagem do post: Sede da Câmara Municipal de São Paulo no viaduto Jacareí. Foto: Devanir Amâncio

 

“A influência da proposta da CT Mobilidade a Pé e Acessibilidade na definição do PLANMOB”

Publicado originalmente emANTP
Data: 9/12/2015

No intuito de humanizar os deslocamentos urbanos e contribuir para a mudança de paradigma na mobilidade urbana das cidades, enxergando e planejando a mobilidade a partir das pessoas, estabeleceu-se em 2012 a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) (Lei nº 12.187/12).

De acordo com a PNMU, todos os municípios com mais de 20 mil habitantes devem elaborar um Plano específico de mobilidade urbana e, segundo as diretrizes claramente definidas nessa Lei, deve-se priorizar os meios de transporte não motorizados neste planejamento.

Assim, objetivando contribuir para um PlanMob que realmente contemple a mobilidade a pé e acessibilidade, legitimando um desejo da sociedade pela criação de políticas de base para desenvolver uma cidade mais segura, caminhável e confortável para as pessoas nos próximos quinze anos, a CT de Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP  encabeçou, no início de 2015, a elaboração de uma proposta de diretrizes para a mobilidade a pé na cidade de São Paulo a partir do conceito legítimo e integral de Mobilidade a Pé, contemplando sua  infraestrutura e necessidades.

A participação de outros grupos representativos da sociedade civil foi primordial para a construção das diretrizes de modo colaborativo. O procedimento adotado teve as seguintes etapas:

1) A CT de Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP iniciou uma carta de demanda de diretrizes para auxiliar a construção de um Plano de Mobilidade em que realmente priorize as pessoas e seus deslocamentos;

2) O texto inicial ficou disponível online para comentários e contribuições de grupos representativos da sociedade civil por um período de 21 dias;

3) Em 12 de abril de 2015 foi realizada uma reunião no debate temático para a construção do Plano de Mobilidade, organizado pela Secretaria Municipal de Transportes (SMT) de São Paulo, aberto para o público em geral; e

4) Em 16 de abril de 2015 o documento com as diretrizes elaboradas foi encaminhado ao poder público. Veja aqui o documento encaminhado.

Em reunião da Câmara Temática de Mobilidade a Pé no âmbito do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito (CMTT), realizada no dia 02 de dezembro de 2015, na Secretaria Municipal de Transportes de São Paulo, membros da CT de Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP – que também compõem a Câmara Temática do CMTT – tiveram conhecimento de que, das diretrizes propostas pela CT da ANTP, o PlanMob municipal adotou:

  •        Instituir um Grupo Executivo Intersecretarial para, em 2016, discutir e definir novo arranjo institucional para responder pela construção, reforma, adequação e regularização de calçadas, bem como por sua gestão;
  •        Adotar o Plano Emergencial de Calçadas – PEC (lei municipal nº 14.675, de 2008) como programa de ação para reforma, construção e adequação de calçadas na cidade;
  •        Inclusão de metas relacionadas ao restante do sistema de mobilidade a pé, incluindo toda a rede de transporte: travessias, semáforos, sinalização, iluminação, mobiliário urbano, arborização etc;
  •        Planejar a primeira pesquisa da cidade com foco nos deslocamentos a pé a ser repetida periodicamente, com o objetivo de fornecer subsídios para planejar as ações de infraestrutura. A pesquisa deverá abranger a caracterização da infraestrutura, o perfil socioeconômico dos usuários e as características das viagens.

Destaca-se que para garantir uma efetiva contemplação e articulação do tema nos diferentes âmbitos municipais que o abarcam seria importante desmembrar a meta específica “Instituir um Grupo Executivo Intersecretarial” em duas, conforme proposta da CT da ANTP, nos artigos 5 e 6 da Seção III – Da Reestruturação das Secretarias e Empresas Municipais Relacionadas à Mobilidade Urbana:

Art 5 – Criar diretorias exclusivas de Mobilidade a Pé na CET e na SPtrans, que sejam responsáveis por planejar e defender os interesses e direitos dos indivíduos que se deslocam a pé pela cidade (inclusive daqueles cujo modo principal de deslocamento seja distinto). Considerando a concentração de recursos e unificação das ações voltadas para o pedestre no âmbito da estrutura organizacional da prefeitura para a entidade definida como autoridade de trânsito nos termos do Código de Trânsito Brasileiro.

Art 6 – Criar um grupo executivo de trabalho de caráter intersecretarial sobre mobilidade a pé, que envolva além da CET e SPTrans (Art 5), e com participação de órgãos externos vinculados a mobilidade urbana, tais como CPTM, Metrô, EMTU, além de representantes da sociedade civil organizada representativos da mobilidade a pé.

Ressalta-se ainda em todo o documento inovações no modo de se referir aos deslocamentos a pé. O que antes se mencionava como “pedestre”, agora são adotadas as definições de “mobilidade a pé”, “rede de mobilidade a pé”, “caminhabilidade” entre outros.

Por fim, embora exista uma longa caminhada pela frente, enxergamos que o debate está avançando. Por ora, temos que garantir a consolidação de políticas públicas que efetivamente atendam e priorizem a Mobilidade a Pé e, assim, passo a passo, em conjunto com poder público e sociedade civil consolidar no município, uma verdadeira rede de infraestrutura capaz de dotar à caminhada sua importância merecida e instituída em Lei.

 

“PAC Mobilidade Ativa”

Publicado originalmente em:  UCB – União de Ciclistas do Brasil
Data: Dezembro de 2015

Comentário Cidadeapé: A Cidadeapé tem orgulho de ter contribuído e apoiar essa iniciativa. A minuta do PAC Mobilidade Ativa prevê recursos para a infraestrutura da mobilidade a pé e por bicicleta e será entregue ao Ministério das Cidades.

Para aumentar a quantidade de ciclistas nas cidades brasileiras e oferecer-lhes segurança e conforto, é fundamental a oferta de infraestrutura viária segura.

Para tanto, a UCB – União de Ciclistas do Brasil, a Aliança Bike e a rede Bicicleta para Todosapresentam a proposta de “PAC Mobilidade Ativa” (Programa de Aceleração do Crescimento) a ser implementado pelo Ministério das Cidades.

O texto, que contou com diversas consultorias especializadas, foi elaborado sob a forma de minuta de Portaria, contém as normas, as diretrizes gerais e justificativa.

Veja o texto da proposta aqui.

A proposta será entregue ao Ministério das Cidades em 18 de novembro.

Clique aqui para apoiar.Para conferir maior respaldo à solicitação, os proponentes estão buscando apoiadores dentre a sociedade civil, empresas, organizações empresariais e de trabalhadores e demais instituições.

ORGANIZAÇÕES CONSULTORAS

Campanha PAC MobAtiva.

 

Veja aqui a lista dos apoiadores.

Vamos votar pela mobilidade a pé nos Conselhos Participativos Municipais

Este domingo, 6/12/15, acontecem as eleições para os Conselhos Participativos Municipais, para a gestão 2016-2018.

Embora o movimento pela mobilidade a pé em São Paulo seja novo, já vem atuando em várias frentes, com debate e propostas em prol de uma cidade mais humana, agradável e sobretudo caminhável.

O acompanhamento do Plano de Mobilidade de São Paulo é um dos exemplos do que a Cidadeapé vem fazendo. Além disso temos procurado participação social em várias esferas de participação social, como na Câmara Temática da Mobilidade a Pé, no âmbito do CMTT, e em alguns CADES regionais.

No sentido de conquistar ainda mais espaços para a discussão da mobilidade sustentável, em particular a pé, também queremos apoiar e fortalecer os Conselhos Participativos Municipais de São Paulo. Assim temos dois associados que se  candidataram para a gestão 2016-2018 do Conselho: Mauro Calliari (89031) e Rafael Calabria (89035), ambos de Pinheiros.

Convidamos todos a participarem das eleições no dia 6/12 e votarem nesses colegas que vêm trabalhando pela mobilidade a pé em São Paulo. Cada eleitor pode votar em até 5 pessoas! Então procurem mais candidatos em suas regiões que possam juntar forças nas questões ligadas à mobilidade ativa e sustentável.

As eleições vão acontecer entre as 8h e as 17h do domingo, 6/12. É preciso levar título de eleitor e um documento com foto. Para saber onde votar e procurar mais candidatos acesse: www.ocupaconselho.org.br

Compartilhe esta notícia e ajude a fortalecer a mobilidade a pé em todas as subprefeituras de São Paulo!

Candidatos Conselho 2015