Poste com botoeira para pedestres ao lado de uma via com carros, em São Paulo

Você aperta a botoeira e o semáforo de pedestres ainda demora para abrir?

Descobrimos que as botoeiras não servem para priorizar quem está a pé

Poste com botoeira para pedestres ao lado de uma via com carros, em São Paulo

O funcionamento das botoeiras de semáforos parece um grande mistério para quem caminha em São Paulo. Às vezes a gente aperta e parece que o semáforo não abre nunca, às vezes ele abre sem ninguém apertar nada. Afinal, qual a lógica dessa programação?

A Cidadeapé aproveitou uma visita à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e uma reunião da Câmara Temática de Mobilidade a Pé para tentar entender o funcionamento das botoeiras na cidade. Dos 4.150 semáforos de pedestres existentes na cidade, 85% (quase 3.500) contam com esse dispositivo. As descobertas só deixaram claro que sua função não é priorizar quem está a pé, mas, ao contrário, reduzir a quantidade de vezes que o semáforo de pedestres abre, dando mais tempo de verde para o fluxo veicular.

Em primeiro lugar, é importante esclarecer que, em sua enorme maioria, as botoeiras não servem para “adiantar” o verde do pedestre, e sim apenas para indicar que alguém quer atravessar. Ou seja: se não acionada, o verde do pedestre provavelmente não virá. Quando acionada, o verde virá de acordo com a programação semafórica pré-estabelecida. Isso significa que a instalação de uma botoeira, em um semáforo que antes não a possuía, nada mais faz que adicionar uma barreira aos pedestres. A partir daí, eles precisarão perceber que há botoeira, encontrá-la, acioná-la e ainda confiar que ela está funcionando.

Em um cruzamento padrão, por exemplo, o comum é a fase verde do pedestre ser programada para ocorrer uma vez após os dois fluxos veiculares. Na prática, isso significa que, se você estiver se aproximando desse cruzamento no fim desses dois fluxos e acionar a botoeira um segundo tarde demais, você terá que esperar todo o ciclo veicular novamente, até que venha o momento pré-estabelecido do verde do pedestre outra vez. Quando consideramos situações recorrentes como essa em um trajeto de caminhada de, por exemplo, 10 quarteirões, dá pra imaginar o quanto esses dispositivos podem atrasar e estressar o pedestre no dia a dia. Existem casos em que essa espera pode ser ainda maior, se a programação prever dois ciclos veiculares completos antes do de pedestre (sim, há locais assim!). Não parece muito justo, né?

Além de o próprio funcionamento geral das botoeiras ser já prejudicial ao pedestre, qualquer um que caminha sabe que esses dispositivos muitas vezes são pouco visíveis, mal posicionados, mal comunicados para a população e frequentemente estão em mau estado e quebrados (se esse for o caso, denuncie no 156). O resultado é que os pedestres muitas vezes simplesmente não acionam as botoeiras e, após aguardar tempo demais, acabam atravessando no vermelho e se colocando em risco.

Então, sempre preciso apertar a botoeira para conseguir atravessar?

Depende! Em certos casos, um semáforo de pedestres pode ser programado para abrir automaticamente durante alguns períodos do dia ou da semana e, em outros, demandar o acionamento da botoeira. Isso pode ocorrer, por exemplo, em  travessias que têm movimento intenso de pedestre durante o dia e reduzido durante a noite. Em um caso como esse, a CET pode optar por abrir automaticamente para pedestres durante o dia, mas condicionar essa abertura ao acionamento da botoeira durante a noite.

O problema dessa programação variável é que uma mesma pessoa pode passar por uma travessia de dia e perceber que não precisa acionar a botoeira, e depois voltar ao local à noite e esperar o semáforo abrir para pedestres indefinidamente, porque não sabe que precisa acionar a botoeira para atravessar nesse horário. Não é confuso?

Por isso orientamos que, na dúvida, aperte o botão! Mas demandamos que a CET informe em cada local, de maneira clara, se há horários específicos em que é necessário usar a botoeira. Isso é importante para aumentar a confiabilidade do sistema.

Como os tempos de espera para atravessar são longos e nunca são “adiantados” pelas botoeiras, nós pedestres acabamos não confiando que elas funcionam. A falta de informação nos coloca mais em risco, estimulando a travessia no vermelho. 

E para facilitar o controle social, solicitamos que a Prefeitura disponibilize publicamente as informações sobre a localização e as programações de cada semáforo de pedestres. Usando como base um mapeamento da Corrida Amiga, já fizemos um mapeamento de todos os semáforos de pedestres da cidade – a Prefeitura pode até usar nosso mapa como inspiração!

E as botoeiras sonoras?

Botoeira azul de semáforo de pedestres em primeiro plano, com faixa de pedestres e cruzamento ao fundo

As botoeiras sonoras contam com funções adicionais para emitir sinais sonoros que dão muito mais segurança à travessia de pessoas com deficiência visual. Mas permanece a dúvida sobre se é sempre necessário apertar o botão para que elas liberem a travessia. É preciso comunicar de maneira enfática para todos os usuários quando é ou não necessário acionar essas botoeiras.

Esses dispositivos são essenciais, mas ainda estão se expandindo na cidade de forma muito lenta. Como um mapeamento da Corrida Amiga mostra, eles ainda estão super concentrados na área central da cidade.

Por que precisamos de botoeiras?

Ilustração de motorista que estica o braço pela janela do carro para apertar a botoeira do semáforo de pedestres

Você com certeza já passou por algum cruzamento que juntava vários pedestres que se viam obrigados a apertar as botoeiras a cada esquina para poder atravessar. Não por acaso, motoristas nunca precisaram apertar nenhum botão para terem o direito de cruzar as ruas.

Infelizmente, as botoeiras são dispositivos que tiram o nosso direito de travessia na maior parte das vezes: sem elas, bastaria esperar para que o semáforo de pedestres abrisse em algum momento. Mas além de ter essa paciência para esperar (muito mais do que os 90 segundos determinados pelo Estatuto do Pedestre), ainda temos que saber quando a botoeira tem que ser acionada e prestar atenção se ela está quebrada e estamos esperando “à toa”. A botoeira ainda dificulta a vida de quem está caminhando com muletas, crianças ou compras na mão ou tem deficiências. Trata-se de um esforço, atenção e conhecimentos que não deveriam ser requisitos para que pedestres exerçam o direito de atravessar a rua.

Outras alternativas que priorizam quem está a pé

Em locais onde o fluxo de pedestres é menor, a CET poderia usar tecnologias de detecção de pessoas, como já está sendo desenvolvido na Universidade de São Paulo (USP) e nos foi apresentado na Câmara Temática de Mobilidade a Pé. Essa tecnologia já mostrou que é possível diminuir o tempo de espera de pedestres com baixo impacto sobre o trânsito de automóveis. Além disso, ela detecta pedestres com mobilidade reduzida para estender o seu tempo de travessia, aumentando sua segurança. 

A tecnologia de detecção de pedestres já vem sendo testada por Londres há alguns anos. Hoje a cidade está testando uma programação ainda mais revolucionária: semáforos que ficam abertos o tempo todo para pedestres em locais de alto fluxo, e fecham a travessia quando se acumulam alguns carros. Isso sim é prioridade, né?

Nosso histórico na defesa de travessias mais seguras

A Cidadeapé luta por travessias mais seguras desde a fundação, pois consideramos que um dos fundamentos da mobilidade a pé é o direito a atravessar as ruas de forma simples, linear, segura, acessível e dentro de tempos razoáveis. Já em nosso primeiro ano de atuação, medimos os tempos que pessoas com diferentes características levam para atravessar uma rua. No ano seguinte, fizemos o desafio do “Farol Miojo” para expor os tempos de espera absurdos em uma travessia. Logo depois, lutamos para incorporar parâmetros mais justos de cálculo dos tempos de travessia no Estatuto do Pedestre, mas que até hoje não foi posto em prática. Infelizmente, muitas das inovações que poderiam trazer mais segurança para pedestres nas travessias não foram consideradas na concessão do serviço de manutenção da rede de semáforos da cidade, conforme sugerimos. Por tudo isso, seguimos lutando! 

Pedestre caminha sobre calçada esburacada e quebrada, ao lado de carros estacionados

Cidadeapé promove oficina para ensinar como denunciar calçadas e travessias com problemas

Não é preciso caminhar muito por São Paulo para encontrar calçadas estreitas,   esburacadas ou cheias de degraus, ou cruzamentos perigosos que sequer contam com faixas de pedestres. Mas você sabia que pode acionar a Prefeitura para que esses problemas sejam corrigidos?

A Cidadeapé, com o apoio do mandato da vereadora Renata Falzoni, promove uma oficina para explicar como cidadãs e cidadãos podem denunciar essas irregularidades. O evento acontece no dia 1º de agosto, às 10h, na sala Sérgio Vieira de Mello da Câmara Municipal de São Paulo. A oficina é aberta a qualquer pessoa e não necessita de inscrição.

Vamos apresentar o canal SP156, detalhar seu funcionamento e dar o passo a passo para fazer denúncias. Também vamos apresentar os principais parâmetros que definem a  qualidade das calçadas e das travessias. Além disso, vamos trazer dicas para aumentar as chances de ter seu pedido atendido e explicar como recorrer de um pedido negado.

Pedestre caminha sobre calçada esburacada e quebrada, ao lado de carros estacionados
Foto de Andrew Oliveira

SERVIÇO
Oficina Cidadeapé: como exigir calçadas e travessias melhores usando o SP156
Data: 01/08/2026
Horário: 10h às 12h
Local: Sala Sérgio Vieira de Mello da Câmara Municipal
Endereço: Viaduto Jacareí, 100 – Bela Vista
Não é necessário fazer inscrição prévia

Sugerimos aos participantes que criem seus logins no portal SP156 antes da oficina. Mas se não conseguir, podemos ajudá-lo durante o evento. Também pedimos que tirem fotos e anotem o endereço de alguma calçada ou travessia de pedestres irregular. Esses dados serão usados para abrir as solicitações durante a oficina.

Registrar reclamações no SP156 é importante não só para apontar os problemas da infraestrutura para pedestres. Também mostra à Prefeitura que a população valoriza esse tema e exige uma postura mais proativa, tanto na fiscalização como nos investimentos para tornar os deslocamentos a pé mais seguros e confortáveis. 

Os protocolos gerados pelo 156 são registros formais da insatisfação da população – e, portanto, uma ferramenta de pressão social. Por isso, é importante saber usá-los e multiplicar essa ferramenta em nossas comunidades! 

Se você quiser levar a Cidadeapé para realizar essa oficina na sua associação de bairro ou conselho participativo, envie um e-mail para relacionamento@cidadeape.org

Associados da Cidadeapé e técnicos da CET posam na central de operações

Cidadeapé discute semáforos para pedestres em visita à Central de Operações da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET)

Associados da Cidadeapé e técnicos da CET posam na central de operações
Técnicos da CET recebem associados da Cidadeapé

A Cidadeapé esteve no dia 15 de abril na Central de Operações da CET, localizada na Rua Bela Cintra, onde estão centralizados os dados operacionais da cidade de S.Paulo e também a área responsável pela supervisão dos semáforos das regiões sudoeste e oeste da cidade. A visita nos ajudou a entender um pouco mais de como funciona a programação dos tempos nos semáforos da cidade, principalmente para pedestres. Fomos representados por três associados: Rosemeiry Leite, Élio Camargo e José Antonio Oka (na ordem da foto). Quem nos recebeu foram três técnicos da empresa, incluindo o engenheiro Ager, atual responsável pelo monitoramento da região oeste e sudoeste.

Após a Cidadeapé se apresentar e explicar o interesse em conhecer um pouco da programação semafórica aplicada, o engenheiro Ager descreveu em números a dimensão do parque semafórico da cidade: são aproximadamente 5.000 semáforos, sendo 3.000 deles com focos para pedestres. Contudo, o número dos semáforos com focos para pedestres não aparece no painel da sala de emergência onde é feito o monitoramento. Ager também exaltou a relevância da Parceria Público-Privada (PPP) de manutenção desse parque semafórico, vigente por 20 anos. Já há 3 anos, a Ilumina é responsável pela manutenção e substituição dos semáforos. Essa troca é bem avaliada pela CET, que aponta ter agilizado a manutenção. Os técnicos reiteraram que o SP156 é o canal mais eficiente para comunicar problemas na manutenção dos semáforos.

Vista da central de operações da CET, com telões e estações de trabalho
Vista da central de operações da CET na rua Bela Cintra

Os técnicos também esclareceram que a cidade hoje possui três sistemas de semáforos que se conversam entre si: ITACA (sistema espanhol), SCOOT (sistema britânico) e SCATS (sistema australiano). Esses sistemas operam com sensores que detectam o volume de carros e, a partir de parâmetros definidos pelos técnicos da CET, distribuem o tempo de verde para os veículos. Ou seja, esses sistemas buscam reduzir o tempo que veículos ficam parados no semáforo vermelho.

Nossa principal dúvida era o parâmetro para definir os tempos que o semáforo fica aberto para os pedestres e de espera para poder atravessar. Segundo explicado na visita, o tempo de travessia é fixo e definido a partir da distância a ser percorrida pelo pedestre e dos limites de velocidade da via. Ou seja, os sensores nos semáforos podem estender o tempo que ele fica aberto para os carros passarem (por exemplo, porque o volume do tráfego está alto), mas não alteram o tempo que os pedestres terão para atravessar (que corresponde a uma das fases de vermelho para os carros). As novas tecnologias, portanto, não são acionadas para detectar se há muitos pedestres esperando para atravessar e ampliar o tempo concedido para essa travessia em horários de maior fluxo de pessoas.

A partir disso, a Cidadeapé questionou sobre os longos tempos de espera de pedestres para atravessar – que são aumentados quando o tempo de verde para carros é aumentado automaticamente por esses semáforos com sensores. Os técnicos então informaram que os critérios utilizados pela CET são baseados nos manuais e normas existentes.

Telas da central da CET mostrando a programação semafórica de cruzamentos
Detalhes da programação semafórica

Os técnicos também lembraram que em 2007 houve uma alteração na programação dos semáforos para pedestres, com a introdução do vermelho piscante. A partir dessa mudança, o semáforo para pedestres fica verde para indicar que a travessia pode ser iniciada, e muda para vermelho piscante antes para indicar que a travessia já iniciada deve ser concluída e que os pedestres não devem iniciar novas travessias. Outra informação trazida pela CET é que alguns semáforos de pedestres que contêm botoeira necessitam ser acionados para que seja “liberada” a travessia de pedestres. Ou seja, se os pedestres não acionarem as botoeiras, os semáforos só concedem o verde para os carros e não inserem o tempo de travessia no ciclo dos semáforos.

A Cidadeapé ponderou que tanto essa informação sobre a botoeira quanto a mudança que introduziu o vermelho piscante precisam ser comunicadas de forma inteligível aos pedestres, inclusive para não ampliar os riscos. Lembramos que a cidade de São Paulo é um espelho para as normas e procedimentos de trânsito de todo o país e que usar o vermelho piscante gera uma confusão para os pedestres, visto que desde o primeiro semáforo proposto em 1898, o verde indica a ordem de seguir e o vermelho, de parar.

Sobre os parâmetros para calcular o tempo de travessia, os técnicos da CET explicaram que a velocidade definida para que pedestres atravessem a rua é de 1,2m/s, mas o usual utilizado está entre 0,8m/s a 1m/s. Já em relação ao tempo máximo de espera para atravessar, explicam que o recomendado seria 60 segundos, já que a espera muito grande leva pedestres a se arriscarem a atravessar na brecha dos carros. Apesar de reconhecerem o tempo máximo recomendado para a espera, ele não é cumprido em todos os semáforos, principalmente quando eles contam com sensores que detectam o volume de tráfego de veículos.

A CET alega que chegou a fazer estudos sobre possibilidades de mudanças nos ciclos semafóricos que diminuiriam o tempo de verde para os carros, para que pedestres tivessem que esperar menos para atravessar. Lembramos que o Manual de Semáforos do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) (na pg. 79, item 5.9) destaca que, em condições excepcionais, precisa ser dada atenção especial à travessia de pedestres, com a adoção de medidas adicionais. A redução do tempo de espera seria uma medida especial para lugares ou horários com altos fluxos de pedestres ou onde há uma concentração de conflitos entre pedestres e veículos.

Também questionamos sobre a possibilidade de dois tempos alternados para pedestres ao longo do ciclo para redução das longas esperas. Isso significaria, por exemplo, em um cruzamento, abrir o verde para pedestres logo depois que fosse aberto o semáforo para os carros da via transversal. Hoje em dia, é mais comum que em um cruzamento semaforizado seja aberto o tempo para a travessia de pedestre em todas as faces do cruzamento (chamado de ‘verde geral’), para evitar conflitos com carros que fazem conversões à direita. Mas segundo a CET, essa programação proposta pela Cidadeapé geraria dificuldades de entendimento por motoristas e pedestres e que é necessário uma administração de riscos. Entretanto, a própria CET afirma perceber, em observações de campo, que a espera longa para atravessar faz com que pedestres circulem no meio dos carros.

Monitor com painel de indicadores do parque semafórico da cidade
Painel de acompanhamento de indicadores do parque semafórico

Agradecemos a atenção com que fomos recebidos pelos técnicos da CET e a disposição em nos explicar detalhes técnicos sobre a programação semafórica. O debate mostrou como as informações ainda são muito nebulosas para os pedestres, que cada vez menos sabem quanto tempo precisarão esperar para atravessar ou se precisarão apertar algum botão para acessar esse direito, e quanto tempo terão para chegar ao outro lado da via. Também nos chamou atenção que, na central visitada, o próprio painel na sala de emergências mostra apenas informações do parque semafórico veicular. É como se a situação dos semáforos de pedestres, semáforos com botoeiras, inclusive semáforos com botoeira sonora, estivesse invisível. Talvez ainda tenhamos muito para avançar.

Imagem de reportagem do SP1 sobre multas e acidentes, mostrando cruzamento com motos e ciclista

As multas caem, as mortes sobem

Cidadeapé mostra no SP1 que, enquanto Prefeitura reduz fiscalização de avanço no semáforo vermelho, mortes por atropelamento sobem

Imagem de reportagem do SP1 sobre multas e acidentes, mostrando cruzamento com motos e ciclista


Você está com a impressão de que o semáforo vermelho virou apenas uma sugestão para muitos motoristas e motociclistas? Sua percepção tem lastro na realidade: segundo dados da própria Prefeitura que levantamos no site “Mobilidade Segura”, as autuações por desrespeito ao semáforo caíram praticamente pela metade (45%) de 2021 a 2024 (último ano do qual temos dados completos). No mesmo período, os atropelamentos fatais de pedestres subiram 67%, segundo o Infosiga. 

A correlação entre os dois fatos fica bem visível neste gráfico que produzimos cruzando os dados:

Gráfico comparando a queda das multas por avanço de sinal vermelho com o aumento dos óbitos de pedestres entre 2019 e 2024

Fontes:
– Multas aplicadas: Painel Mobilidade Segura – Prefeitura de SP (https://mobilidadesegura.prefeitura.sp.gov.br)
– Atropelamentos fatais de pedestres: Infosiga (https://infosiga.detran.sp.gov.br)

O SP1 fez uma reportagem para apresentar nossos dados e colher impressões de munícipes sobre o desrespeito ao direito de travessia por motoristas e motociclistas. O diretor administrativo Cauê Jannini comentou na reportagem que há apenas 180 radares que detectam o desrespeito ao semáforo vermelho, o que é muito pouco para os 5.685 cruzamentos semaforizados na cidade. 


Se há cada vez menos autuações e poucos semáforos fiscalizados, como podemos esperar que os condutores se motivem a seguir as regras de trânsito? A própria reportagem mostrou imagens de um cruzamento sem fiscalização e evidenciou a quantidade de comportamentos perigosos favorecidos por essa sensação de impunidade. Além disso, há diversos comportamentos perigosos que só são detectados por agentes de trânsito, que também vêm diminuindo na cidade.

É possível incentivar o respeito ao direito de travessia com outras ações, como o estreitamento de faixas de rolamento para reduzir a velocidade, a implantação de travessias elevadas e radares de velocidade e obras de prolongamentos de esquinas, para forçar os condutores a reduzirem a velocidade na conversão. No entanto, a Prefeitura não está executando o orçamento destinado a ações desse tipo.

Na resposta à reportagem do SP1, a Prefeitura afirma que o número de multas em 2025 foi maior que o de 2024, mas fala das autuações de maneira geral, sem especificar as multas sobre avanço de semáforo, que foram a crítica específica da reportagem. E como os dados relativos às autuações de 2025 só estão disponíveis até agosto na plataforma Mobilidade Segura, não é possível ainda fazer uma comparação anual, já que a quantidade de autuações mês a mês apresenta dinâmica bastante irregular entre um ano e outro.

A reportagem do SP1 também fez um adendo infeliz, ao equiparar o comportamento dos motoristas (que coloca os outros em risco) com a desobediência ao semáforo vermelho por pedestres (que se colocam em risco), sem considerar que os tempos inadequados e o próprio comportamento dos motoristas são fatores que influenciam isso. Na sua fala, Cauê Jannini tentou lembrar que o que é lido como “imprudência” dos pedestres muitas vezes é consequência da estrutura das travessias, que privilegia o fluxo de veículos em detrimento da preferência que o pedestre deveria ter.

Semáforo de pedestres com o boneco vermelho aceso, com prédios ao fundo

Câmara Temática de Mobilidade a Pé – Reunião de Dezembro 2021

Publicamos o relato do andamento da reunião da Câmara Temática de Mobilidade a Pé (CTMP) realizada no dia 06 de dezembro de 2021.

Para a última reunião da Câmara Temática de Mobilidade a Pé – CTMP, havíamos pautado três temas. Dois deles foram adiados a pedido da Secretaria de Mobilidade, inclusive a fiscalização das calçadas.

A discussão se concentrou sobre o tema das travessias de pedestres. Nossa associada Meli Malatesta propôs que se fizesse uma pesquisa com pedestres para medir o entendimento sobre a regras de funcionamento do sinais de trânsito. De acordo com norma federal, o vermelho skank começa logo após o início da travessia. No nosso entendimento, isso assusta os pedestres e estimula os motoristas a arrancarem. Foi combinado que na próxima reunião vamos analisar todas as pesquisas já feitas pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Com isso em mãos, formataremos a nova pesquisa para pautar campanhas de comunicação. No entendimento de nossos associados, as campanhas de comunicação têm tido como público-alvo o pedestre, quando deveria ser o contrário, ou seja, o de estimular a mudança de comportamento por parte dos motoristas.

As reuniões da CMTP são mensais e abertas ao público. Esta foi a última reunião em 2021. Vamos aguardar as datas do próximo ano, fique atento à chamada, divulgada no nosso grupo de email.

Semáforo de pedestres com o boneco vermelho aceso, com prédios ao fundo

Câmara Temática de Mobilidade a Pé – Reunião de Fevereiro 2021

Todo mês publicamos o relato do andamento da reunião da Câmara Temática de Mobilidade a Pé (CTMP).

Projeto de aumento de informações sobre travessias

A prefeitura apresentou um projeto embrionário de tecnologia para melhorar o nível de informações sobre a travessia de pedestres. O ponto escolhido para o teste foi a avenida Rebouças ali pertinho da estação Oscar Freire do metrô.

Como tantos projetos embrionários é difícil medir seu potencial de interferência ou de melhoria da vida dos pedestres mas a Cidadeapé e seus representantes pontuaram que, apesar do potencial do uso das tecnologias de ponta, o projeto carece de hipóteses sobre o que ele pode efetivamente melhorar: tempo semafórico, a segurança e o conforto dos pedestres. Provavelmente o assunto vai voltar daqui a anos e dificilmente será medido ou avaliado. Vale a pena acompanhar a distância.

Ciclofaixa no Viaduto 9 de Julho

Várias pessoas do Cidadeapé participaram de uma medição para entender os possíveis problemas advindos da instalação de uma ciclofaixa na calçada do Viaduto 9 de Julho. Apesar de estar dentro das medições teóricas da legislação, a ciclofaixa falha em reduzir significativamente a área de pedestres, principalmente nos cruzamentos. Além disso, a ciclofaixa pode estimular o aumento da velocidade das bicicletas, aumentando a vulnerabilidade dos pedestres. Para Mateo e Élio, a ciclofaixa poderia ocupar uma faixa de rolamento, em vez da calçada. Em caso negativo, talvez o uso compartilhado fosse uma alternativa até mais segura, a ser testada. As equipes das prefeituras entenderam os resultados mas provavelmente o projeto não vai ser revisto, infelizmente.

Acompanhamento mensal das questões ligadas a caminhabilidade

A pauta não incluiu novos dados sobre isso, mas no mês que vem, vamos poder o resultado fechado do ano de 2020 para podermos analisar.

Plano Emergencia de Calçadas

Na reunião também discutimos o PEC. Apesar de vários pedidos nossos, a prefeitura ainda não conseguiu centralizar todas as informações quantos metros foram efetivamente refeitos de calçada na cidade. nosso associado Gilberto Carvalho fez um estudo que mostra a discrepância entre os valores apresentados pela prefeitura e a soma de todas as planilhas detalhadas no site. área responsável se comprometeu a rever os números e representar o resultado final. De qualquer modo, acreditamos que o plano emergencial de calçadas é apenas um uma medida emergencial e que deveria ser complementada anualmente por um plano que fosse capaz de não apenas fazer a manutenção mas também melhorar sistematicamente a qualidade das calçadas.

As reuniões da CMTP são mensais e abertas ao público. Em 2021 estão previstas para a segunda 3a-feira do mês.
Confira as datas na nossa Agenda e fique atento à chamada, divulgada no nosso grupo de email.

Silhuetas de corpos desenhadas com giz na faixa de pedestres, em ato pelas vítimas do trânsito

Nota sobre o discurso do futuro Secretário Municipal de Transportes

Na quinta-feira, 10 de novembro de 2016, ocorreu a apresentação de Sérgio Avelleda, futuro Secretário Municipal de Transportes de São Paulo na gestão do prefeito eleito João Dória Júnior.

Avelleda apresentou-se e respondeu a perguntas dos presentes sobre propostas da sua gestão. Em suas falas, algumas propostas positivas para a mobilidade a pé foram acompanhadas de indicativos preocupantes de medidas que irão agravar as já péssimas condições de segurança dos pedestres.

Em sua fala, o futuro secretário se apresentou como uma pessoa que não utiliza carros para se locomover na cidade e um apoiador da mobilidade ativa. As propostas e posições do prefeito eleito e do seu secretário ainda serão discutidas por nós em reuniões com os novos membros da nova gestão, mas sentimos a necessidade de vir a público explicar algumas das posições e das propostas da nova gestão, e apresentar algumas das ideias que direcionam nossas ações.

O ponto mais importante das falas do futuro secretário foi a menção da possibilidade de uma parceria com a secretaria de Prefeituras Regionais, indicando uma gestão integrada entre essa e a secretaria de Transportes e Mobilidade na implementação de políticas para os pedestres. Esta parceria sinaliza a necessária integração entre os projetos de calçadas, coordenados pelas subprefeituras, e as implantações de travessias e sinalização, que são de responsabilidade da Secretaria de Transportes. Vale lembrar que uma das previsões do Plano Municipal de Mobilidade Urbana de São Paulo, lançado em 2015, é justamente o planejamento de uma Rede de infraestrutura para a mobilidade a pé, pensada a partir dessa lógica integrada.

Da mesma forma, a gestão integrada entre a SPTrans, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e as Subprefeituras (prevista no PlanMob para 07/2016) já foi esboçada na gestão Haddad, porém não foi concluída nenhuma política neste contexto. A Câmara Temática da Mobilidade a Pé, junto ao Conselho Municipal de Trânsito e Transporte (CMTT), cobrou insistentemente a adoção de uma gestão integrada, mas o período eleitoral inviabilizou sua conclusão.

Após esta fala, o futuro secretário apresentou uma visão desatualizada sobre segurança de trânsito ao responder perguntas da plateia presente. Avelleda afirmou que a equipe de João Dória tem estudos mostrando que “redução de velocidades não afeta a segurança de trânsito”, além de dizer que as áreas com ocorrências de trânsito serão trabalhadas com segurança de forma pontual. Por fim, completou explicando que, embora entenda que fiscalização seja importante, vai focar em políticas de sensibilização dos motoristas para que eles adotem “voluntariamente” (sic) um comportamento que seja “legal e urbano” (sic). Explicamos a seguir porque discordamos dessas declarações:

Redução de velocidades

A ideia de que redução de velocidades não afeta a segurança no trânsito contraria todos os estudos e práticas realizadas no Brasil e em diversos países do mundo até hoje, além da recomendação da Organização Mundial de Saúde. Se o secretário afirma que tem estudos contrários, vamos pedir que ele os apresente e explique como eles contrariam toda a literatura técnica internacional. Lembramos aqui que, segundo o artigo 1º do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), a segurança nas vias é dever do órgão de trânsito, e ele será responsabilizado pelos danos causados aos cidadãos em virtude de erros na execução de programas e projetos.

Atuar Pontualmente

Atuar em segurança de trânsito pontualmente é extremamente ineficaz. Esta proposta ignora que os problemas de segurança no trânsito na nossa cidade são estruturais, como distribuição desigual do espaço viário, insuficiência de calçadas, geometrias viárias para altas velocidades e travessias inadequadas (com localização equivocada, em quantidade insuficiente ou com tempos semafóricos curtos). Por fim, há uma insuficiência de fiscalização voltada à prioridade do pedestre instituída pelo CTB.

Por isso entendemos que os projetos devem ser amplos, e parte de um programa extenso e abrangente, do qual a redução de velocidades foi o primeiro passo.

Sensibilização

Concentrar o foco da atuação na sensibilização dos motoristas é investir em uma política que tem sido implementada há décadas pelos órgãos de trânsito sem maiores resultados e impactos eficientes, quando comparadas a políticas que integram educação, fiscalização e divulgação. Os programas de segurança no trânsito são parte de uma mudança de mentalidade e de cultura, e como a aplicação da lei seca ou da lei do cinto de segurança precisam de ampla discussão dos benefícios, mas também de uma iniciativa ampla de fiscalização.

Em notícias recentes reapareceu a discussão sobre políticas públicas voltadas à mobilidade a pé. Sobre estas esclarecemos que, embora diferentes, as duas gestões anteriores da cidade fizeram programas para a proteção do pedestre, com erros e acertos em ambas (como o extinto Programa de Proteção ao Pedestre da CET, que foi em parte substituído pelo Programa de Proteção à Vida). Destacamos que uma visão mais ampla de incentivo e valorização da mobilidade a pé e o estabelecimento de políticas públicas com essa visão foi fraca nas duas gestões. Esperamos que ao menos os espaços de diálogos abertos na última gestão tenham continuidade para que esta discussão se consolide com a sociedade.

Ainda sobre estas políticas, gostaríamos de destacar que entendemos que o projeto de instituir o “gesto do pedestre” não configura uma política eficiente para a segurança do pedestre, e as justificativas já foram apresentadas, como pode se ver nos links abaixo:

Estamos dispostos para dialogar com a gestão eleita, junto com a rede de entidades parceiras de Mobilidade Urbana, para que estes pontos problemáticos sejam discutidos e possivelmente revistos, analisando resultados, dados anteriores, experiências locais e internacionais.

Iremos dialogar e apresentar as propostas que construímos com diversas outras organizações que atuam na Mobilidade a Pé, e que já foram debatidas com a CET e a Secretaria de Transportes na Câmara Temática da Mobilidade a Pé.