“Caminhar é estar na cidade”

Publicado originalmente em: ANTP
Autor: Letícia Leda Sabino
Data: 21/03/2015

ANTP entrevistou Leticia Leda Sabino, administradora de empresas e idealizadora do SampaPé! É secretária executiva da Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Acessibilidade da ANTP.

Letícia Sabino, idealizadora do movimento Sampapé, conta que abraçou a causa do “andar a pé” em São Paulo após viver vida de pedestre na cidade do México. Pode parecer estranho, mas não é. A necessidade gerou uma causa importante, como veremos a seguir.

Como muitos jovens, Letícia, que morava em Santo André, se deslocava de carro todos os dias até São Paulo para estudar. Como ela conta, “fazia esse movimento pendular diariamente, o tempo todo encapsulada”. Após seguir num intercâmbio para a Cidade do México é que ela apreendeu o real significado do que é caminhar numa metrópole. “A cidade do México é uma cidade grande como São Paulo, com números semelhantes de carros, de pessoas, de extensão, com semelhanças na desigualdade social que temos aqui. Como São Paulo, a cidade do México teve origem rodoviarista, uma cidade que foi construída em função do carro”.

Como lá ela tinha de se locomover por outros meios que não o automóvel, Letícia passou a viver uma “vida de pedestre em tempo integral”.

Ela conta que sua faculdade ficava no subúrbio, que ela alcançava através de ônibus. “Mas todas as demais atividades do cotidiano eu tinha de fazer a pé, não havia outra opção. Até para a faculdade eu buscava caminhos alternativos que diminuíssem a necessidade do transporte público”.

Letícia conta que ficou muito encantada com o que descobriu, a cultura local, as construções, os comércios. “Eu me apaixonei pela cidade”, ela diz. Foi quando se deu conta de que este encantamento era resultado da forma como ela se locomovia na cidade.

Eu percebi que isso determinou a maneira como eu me sentia na cidade, a forma como eu vivia. Voltando para São Paulo eu decidi que queria viver da mesma forma: caminhando o máximo que eu pudesse. Eu queria ter esta sensação, este bem-estar todos os dias. Deixei então de usar o carro e passei a usar somente transporte público e a caminhar, principalmente caminhar”.

Letícia conta que para ela o caminhar é muito especial: “é quando você toma contato com a cidade, com as pessoas, não só pela velocidade, que é muito menor do que se você estivesse de carro, como pela proximidade com as coisas à sua volta”.

No início ela pensava fazer parte de uma minoria. “As ruas cheias de carro, em contraste com as calçadas, me davam esta impressão”. Foi quando pesquisou e descobriu a enorme quantidade de pessoas que se locomovem a pé em São Paulo, e entendeu que tudo depende da forma como você olha a cidade.

Carros são máquinas, ocupam um espaço enorme. Onde você pensa que tem um monte de gente, na verdade são poucas pessoas ocupando muito espaço”. Quando foi buscar os números ela se impressionou: “eu pensava fazer parte de uma minoria, mas descobri que são feitas mais de seis milhões e meio de viagens a pé por dia na cidade, caminhadas em que se anda mais de 500 metros. Isso significa 30% de todos os deslocamentos dos paulistanos”.

As pessoas andam a pé nas ruas que temos, nas calçadas que temos (e muitas vezes não temos), nas travessias que temos. É humilhante você caminhar na cidade que não foi feita para quem precisa ou quer andar a pé. Senti que era preciso haver algum movimento que levasse as pessoas a terem um pouco mais de prazer em andar a pé, uma questão até de dignidade”,ela afirma.

Compartilhando esta preocupação com outras pessoas Letícia sentiu que não estava sozinha, nem em minoria como imaginava. “As pessoas perceberam que não éramos uma minoria, e que portanto era necessário juntar-se para reivindicar melhorias, cobrar ações públicas, tendo uma atuação política, enfim”.

Foi assim que surgiu o Sampapé, um movimento criado “para ajudar as pessoas a enxergar sua cidade de outra maneira, experimentando e interagindo com ela ao caminhar, à medida que vai descobrindo seus caminhos e segredos”, diz o site do movimento.

A princípio o movimento não tinha uma atuação voltada a políticas públicas. Letícia explica: “isso porque a gente decidiu que antes era preciso mostrar às pessoas o quão agradável pode ser a caminhada, revelando todos os elementos que estão no ato de andar a pé. A gente percebeu que muitas pessoas que caminhavam faziam isso de forma acelerada”.

Ou seja: o Sampapé começou buscando conscientizar as pessoas, sem necessariamente focar numa atuação pública. O próximo passo só poderia ser a reivindicação por melhorias, nas calçadas, na iluminação pública, nas travessias, para garantir segurança e conforto às pessoas. “Começar a participar da vida pública, buscar interferir no desenho da cidade”, resume Letícia.

Mas o carro é um inimigo do Sampapé?

Letícia esclarece que a questão não é essa, “até porque muitas pessoas têm carro, a questão não é a posse, mas o uso indiscriminado”, ela esclarece. As escolhas que foram feitas por políticas públicas que sempre privilegiaram o automóvel redundaram numa ocupação desigual dos espaços – “para ruas mais largas para fluir o trânsito de máquinas, diminui-se o espaço para o trânsito das pessoas; para viadutos caros e imponentes, alocou-se dinheiro de todos para beneficiar poucos”, ela resume.

O carro, e isso está escrito na legislação – é um veículo para passeio, mas a gente sabe que faz tempo que isso deixou de ser assim”, Letícia ressalta. “Então o uso excessivo pelas pessoas faz com que na disputa pelo espaço o automóvel acabe sendoum vilão. É uma questão óbvia: o pedestre e o ciclista não têm como disputar com uma máquina pesada e veloz, eles saem sempre perdendo.  Mesmo que a gente saiba que a preferência é sua numa faixa de pedestre, ou num cruzamento, a gente sente medo de atravessar a rua porque sabe que um atropelamento pode ser fatal”.

Letícia concorda com movimentos e ideias que lutam para criar políticas urbanas de restrição ao carro, mas acha que esse debate deve incluir – e até preceder – uma questão central: “é preciso antes lutar e propor ações de maior espaço para outros modos de transporte, como a bicicleta e principalmente o pedestre”. Para a idealizadora do Sampapé importa mais ações públicas que transformem ruas em calçadões, por exemplo, “políticas para pessoas”. “Isso nada mais é que devolver a cidade a quem mora ali; a prioridade ao pedestre naturalmente levará as pessoas a repensar o uso do automóvel”, ela acredita. “São medidas muito mais eficientes, são convidativas, não proibitivas. Aumentar o tamanho de uma calçada aumenta o convite para se andar a pé, ao mesmo tempo que restringe o espaço do automóvel”.

Letícia conta algumas ações que o Sampapé desenvolveu. “A gente começou fazendo algumas ações em praças, como festivais com música e outras atividades, para que as pessoas compreendessem que a praça é um lugar para se ficar, não é um lugar de passagem, e que isso pode ser prazeroso. A gente sempre apostou em formas lúdicas em nossas ações, isso é muito mais eficiente do que, a nosso ver, marchar para que as pessoas venham a ocupar a praça”.

Letícia diz que como aprendeu graças a uma experiência, nada melhor do que criar experiências para que outras pessoas sintam a mesma necessidade e o mesmo prazer da caminhada na cidade. Outra ação citada por Letícia são os passeios culturais, “uma forma de apresentar uma cidade que as pessoas não veem, nem percebem, mas quando se deparam com ela ficam encantadas. Por isso que nossos passeios não são turismo, para gente de outras cidades, mas sim para moradores da cidade. A ideia é apresentar a cidade para as pessoas”.

Em suma, o que o Sampapé tenta promover são microrrevoluções urbanas voltadas para as pessoas, e não para os espaços. “As pessoas estão acostumadas a ir de um ponto A para um ponto B, mas entre esses dois pontos há uma quantidade enorme de outros pontos, que as pessoas não observam, pela velocidade do carro, pela pressa da vida urbana”. Após o passeio, as pessoas são estimuladas a caminhar no quarteirão em volta de sua casa, para descobrir serviços, novidades e até belezas que passam despercebidos. “As pessoas podem descobrir que muitas coisas que precisam no dia-a-dia estão ali ao lado, e ela pode alcançar caminhando ao invés de usar o carro para ir mais longe. É transformador você descobrir que muita coisa está muito próxima de você”.

O Sampapé atua também em ações de outros movimentos que chamam a atenção para a cidade e seus problemas. “A gente atuou, por exemplo, com o grupo Curativos Urbanos, eles criaram uma maneira lúdica e divertida de chamar a atenção para os problemas das calçadas de nossas cidades, fazendo ‘curativos’nos locais que apresentavam algum tipo de irregularidade, como os buracos. É uma maneira lúdica que chama a atenção para os ‘machucados’ que precisam ser curados. A gente leva as pessoas para experimentar essas ações na cidade durante os passeios, empoderando as pessoas a participarem do espaço publico e serem cidadãs ativas”, conclui.

Com essas experiências as pessoas vão descobrindo que podem agir na sua cidade, atuando onde moram, ou por onde passam, passando a se sentir parte da cidade, e também responsáveis por ela. Para Letícia é indiferente saber se as iniciativas de melhorias urbanas devem partir do poder público ou das pessoas. “Elas podem vir juntas, uma pode provocar a outra, mas se as pessoas não estiverem nas ruas, vivendo sua cidade, qualquer coisa será em vão”. Ela dá o exemplo de uma iniciativa da prefeitura da capital, o projetoCentro Aberto, que aconteceu nos largos São Francisco e Paissandu. “Um convite para que cada cidadão se aproprie da área central da cidade, vivenciando transformações urbanísticas projetadas pelos técnicos e opinando diretamente sobre o impacto delas”, resume o site da Prefeitura. Letícia conta ainda que está se envolvendo em discussões de políticas públicas, como legislação de calçadas, debates acerca do Plano Diretor Municipal, o Plano de Mobilidade, além do pedido de abertura da Avenida Paulista para as pessoas aos domingos. Todos estes temas estão em debate na Câmara dos Vereadores e na Secretaria Municipal dos Transportes.

O que o Sampapé faz, e isso é indiscutível, é levar as pessoas, sejam governantes ou cidadãos, a descobrirem o que é importante pra cidade, o que precisa de corrigido, melhorado, modificado.

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